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Como a selfie virou uma ferramenta de ativismo e contra-ataque a políticos

Em maio, dois alunos do Colégio Bandeirantes fizeram o L (de "Lula") com as mãos, próximo a Bolsonaro - Daniel Carvalho/Folhapress
Em maio, dois alunos do Colégio Bandeirantes fizeram o L (de "Lula") com as mãos, próximo a Bolsonaro Imagem: Daniel Carvalho/Folhapress

Cristiane Capuchinho

Colaboração para Tilt

09/10/2019 04h00

Sem tempo, irmão

  • Jovens 'hackeiam' a linguagem da selfie para criar situações de embaraço para políticos
  • Na Itália, foto com beijo entre meninas constrangeu primeiro-ministro
  • Enquanto no Brasil, jovens fizeram referência a Lula em evento de Bolsonaro
  • Não é só para atacar políticos: fotos de coleta de lixo viralizam na França

Em 2014, o Twitter declarou que aquele era o "ano da selfie". Cinco anos depois, muitos acham que a selfie é o espelho contemporâneo de Narciso e sinal de superficialidade, mas o autorretrato na rede também pode ser ferramenta de protesto político e mobilização social.

Nas últimas eleições, políticos de todo o mundo abusaram de selfies para criar a imagem de pessoas próximas do povo. Diante disso, jovens 'hackeiam' a linguagem para criar situações de embaraço em que os homens públicos são expostos à oposição na fotografia que pretendia ser propaganda.

O primeiro-ministro italiano Matteo Salvini foi alvo de um desses protestos na Sicília. Matilde Rizzo e Gaia Parisi, de 19 anos, pediram uma foto com o político após um evento em abril. No momento do clique, as jovens se beijaram e pegaram desprevenido o líder de extrema-direita, criticado por discursos contra a comunidade LGBT.

Ciao amico @matteosalviniofficial

Uma publicação compartilhada por Gaia Parisi (@gaiaparr) em

O protesto ao estilo "photobomb" -invasão inesperada na foto— repercutiu por todo o mundo. "A presença do presidente em um congresso anti-feminista, anti-gay e anti-aborto foi inaceitável. Nós não poderíamos ficar paradas e assistir Salvini e seus eleitores arrastarem a Itália de volta à Idade Média", justificou Matilde ao jornal britânico "The Guardian".

Em maio, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro (PSL) --ele mesmo um usuário bastante ativo no Twitter-- passou por situação parecida. Em maio deste ano, na semana em que manifestantes de todo o país foram às ruas contra o corte de verbas para a educação, um grupo de estudantes de um colégio particular de São Paulo encontrou o presidente e posou para uma foto.

Na imagem da escola, dois estudantes fazem com os dedos o L, sinal da campanha "Lula Livre". O protesto era uma defesa do direito de divergir, defendeu a mãe de um dos adolescentes em entrevista para a Folha.

"A selfie é muito mais do que uma mera forma narcissística; é um instrumento de compartilhamento e conexão e o uso político é coerente com essa ideia", analisa André Lemos, pesquisador de cibercultura e professor da UFBA (Universidade Federal da Bahia).

Lemos afirma que a selfie é muito mais do que uma foto: ele nasceu nas redes, traz dados de geolocalização, amplia as informações com legenda, usa símbolos de conexão como hashtags e trabalha com a ideia dos algoritmos de plataformas para sua distribuição. Esses dados e características são usados a favor de campanhas de denúncia e mobilização social.

É o caso das hashtags #cainoburaco, #selfienoburaco, #selfiedoburaco, que denunciam a falta de cuidado das prefeituras com o calçamento das cidades. A campanha já teve adesão de moradores em diversas cidades do país, como Araruama (RJ), Várzea Grande (MT) e Santa Maria (RS).

"A cultura digital é prenhe disso, memes, selfies, hacks, tudo isso são maneiras de criar uma perturbação", considera Lemos.

A exposição de problemas públicos perturbou tanto que a prefeitura de Ribeirão Preto (SP) bloqueou o uso da palavra "buraco" em suas redes sociais, como denunciou o portal Revide no final de julho. Com o bloqueio de termos como "buraco", "esburacada", "cratera" ou "crateras", a administração municipal impedia que os protestos fossem feitos em sua página.

Da rua para a rede e vice-versa

Se a performance das redes pede participação, a mobilização pode ir para as ruas. É nessa chave que três moradores de Marselha, no sul da França, lançaram uma hashtag de mobilização.

A associação #1déchetparjour (um lixo por dia, em tradução livre) pede que os franceses recolham um lixo por dia nas ruas de Marselha, façam uma foto, joguem o lixo no lugar devido e publiquem a foto nas redes sociais com um desafio a outros cinco amigos. Desde 2016, a campanha francesa conta já ter conseguido 18,3 mil fotos e 367,6 mil quilos de lixo coletados.

"Coleta de operação de #dejetos sobre o tema #HarryPotter no #calanque de #Morgiou organizado por @CM_Calanques. Em apenas alguns minutos, a quantidade de resíduos já é impressionante #1déchetparjour", diz o tuíte acima.

André Lemos observa que apesar desse tipo de mobilização ser uma forma de fazer política e dar visibilidade às causas, a experiência de rede pode nos oferecer maneiras ainda mais ricas para melhorar a vida cidadã e a democracia em si.

"A rede trouxe experiências muito interessantes de gestão, de consulta pública, de discussão de orçamentos participativos. Há uma lógica de mobilização e participação que pode ser emancipadora", acredita o professor. Em resumo, há muito mais ideias a serem descobertas para mobilizarmos politicamente na internet. Qual é a sua?

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