Topo

Dados do governo e mais: como tecnologia impactará leitores e jornalistas

Inteligência artificial e aprendizado de máquina afetarão todas as áreas - GETTY IMAGES
Inteligência artificial e aprendizado de máquina afetarão todas as áreas Imagem: GETTY IMAGES

Gabriel Francisco Ribeiro

De Tilt. em São Paulo

27/09/2019 18h48

Sem tempo, irmão

  • Evento em SP debateu impactos da inteligência artificial no jornalismo
  • "Questão não é 'se', mas quando ocorrerá as transformações", disse britânica
  • Soluções com inteligência artificial em redações são criadas no Brasil e mundo
  • Existem robôs produzindo notícias simples e algoritmos ajudando jornalistas a caçar dados

A inteligência artificial vai afetar todo e qualquer setor da sociedade. Seja em áreas óbvias como ciências exatas ou em relações mais humanas, como o jornalismo. No evento mídia.Jor, realizado na última quinta (26) em São Paulo pelo Portal Imprensa e com patrocínio do UOL, ficou claro: as novas tecnologias já afetam (e irão afetar mais ainda em um futuro próximo) leitores e jornalistas.

Entre palestras e debates com jornalistas brasileiros e internacionais, foram mostrados recursos que ainda engatinham e estão em seus primeiros passos, como traduções misturadas com recursos de deepfake, além de outros que já estão em algumas redações como notícias de economia ou esporte criadas por robôs - apenas textos de resultados, deixando análises para humanos.

"A inteligência artificial faz parte do admirável mundo novo que pensávamos ser só ficção. A Imprensa então escolheu este tema para o evento porque a absorção dessas tecnologias nas redações definirá o futuro do jornalismo. A inteligência artificial, um recurso das ciências exatas, pode sim estar inserida em uma linguagem coloquial", afirmou Silval Leão, diretor responsável pela Imprensa Editorial.

Nesse contexto, ainda se insere Tilt, site do UOL para cobertura de tecnologia. A missão do portal é mostrar que a inteligência artificial está no nosso dia a dia e não é mais loucura da ficção científica como parte do público imagina.

"Para nós de Tilt não tem tema mais pertinente que inteligência artificial porque é um assunto que está no nosso dia a dia. Temos essa missão de mostrar para as pessoas isso. Recomendação de série é IA (inteligência artificial), Waze é IA. E a IA também está na produção de notícias. A tecnologia não rouba nosso trabalho. Diminui nosso trabalho robótico, deixa para a máquina, e vamos pensar no que o jornalismo deve realmente fazer e investigar", afirmou Lilian Ferreira, editora-chefe de VivaBem e Tilt no UOL.

Evento em São Paulo debateu impactos da inteligência artificial no jornalismo - Gabriel Francisco Ribeiro/UOL
Evento em São Paulo debateu impactos da inteligência artificial no jornalismo
Imagem: Gabriel Francisco Ribeiro/UOL

Exemplos de aplicações de inteligência artificial no jornalismo, de fato, estão evidentes. Abaixo estão as principais apresentados no mídia.JOR:

Análise de dados e tradução "real"

Um dos cases foi exemplificado por Laura Ellis, diretora de inovação tecnológica da BBC em Londres. Para ela, a questão da inteligência artificial impactar o jornalismo não é de "se", mas de quando, como e quanto. O exemplo clássico envolve a capacidade do robô analisar enormes quantidades de dados com eficácia maior que humanos.

"Os novos computadores já chegam com chips desenhados para aprendizado de máquina. Eles podem percorrer algoritmos de aprendizado profundo complexos. As máquinas são melhores ao pegar dados e analisar padrões, isso dá aos jornalistas poder e ferramentas que não existiam antes", aponta.

Houve ainda uma demonstração de um novo projeto da BBC, que funciona como uma tradução de um discurso lido por um apresentador. Essa tradução ainda usa reconhecimento facial para inserir traços dos tradutores locais no apresentador britânico ao mesmo tempo que ele fala - semelhantes a técnicas do chamado deepfake. Algo assim deixaria uma "dublagem" menos falsa, já que as expressões faciais condizem com a linguagem sendo ouvida.

Projeto Radar: 6 jornalistas, um ano, 210 mil notícias

Também no Reino Unido, a Press Association mantém o projeto Radar (acrônimo para repórteres, dados e robôs). Com ajuda de inteligência artificial e algoritmo, repórteres conseguem produzir inúmeros textos jornalísticos com base em dados disponibilizados corriqueiramente pelo governo. Os números são impressionantes: uma equipe de seis repórteres produziu, em um ano, 210 mil histórias diferentes.

Isso foi alcançando fundindo o trabalho de pessoas com robôs. Os repórteres são responsáveis por identificar histórias dentro da massa de dados divulgada regularmente pelo Reino Unido - por exemplo, enfoque em roubo de carros por área ou tempo de espera para atendimento em hospitais. Os jornalistas cavucam os dados e procuram diferentes ângulos. Então entra a parte da inteligência artificial.

Os algoritmos são responsáveis por gerar frases que expliquem diferentes ângulos dos dados, colocando em um template e criando históricas automaticamente. Em vez de se produzir uma notícia a partir do trabalho dos repórteres, acabam saindo 300 ou 350 - os robôs podem dar enfoques para diferentes locais e cidades, para o texto ser adaptado em diversos jornais.

De acordo com a PA, o trabalho foi tão bom e a linguagem tão natural que sites e jornais acabaram utilizando os textos gerados sem edição em muitos casos. Os primeiros seis meses do projeto foram gratuitos e, há um ano, é necessário pagar para ter acesso ao conteúdo - os pagantes recebem cerca de quatro conteúdos por semana da sua região. Ações desse tipo podem ocorrer em qualquer localidade que tenha uma boa gama de dados públicos divulgados frequentemente.

Produção de notícias

Além deste caso do Radar, existem robôs já escrevendo textos para sites norte-americanos ou agências de notícias como a Reuters. Normalmente, são textos de fechamento de mercado em economia, balanço de empresas ou resultados esportivos. Esses materiais são marcados pela simplicidade: curtos e apenas descritivos.

"Todos os resultados financeiros nos EUA e Europa são produzidos por robôs e inteligência artificial. Queremos expandir isso e vemos que a tendência é ter mais IA na redação. Ano que vem vamos expandir para todas companhias no mundo cobertas por analistas financeiros. A maioria desses artigos é criada por robôs e depois atualizada por humanos", aponta Daniel Flynn, editor na América Latina da Reuters.

Por enquanto, robôs não conseguem fazer análises e coisas do tipo - a longo prazo, o julgamento das informações relatadas sempre ficará para os humanos.

Ajuda em reportagens

Os exemplos de usos de inteligência artificial colocam a tecnologia como uma "parceira" dos jornalistas em investigação. As novidades podem, por exemplo, identificar palavras em discursos. Além disso, Laura Ellis cita que diferentes versões de um mesmo texto podem ser geradas para contexto de matérias sequenciais, por exemplo.

Recomendações de conteúdos

A recomendação de conteúdos é algo que já se espalha com mais frequência por sites pelo mundo. Ela ocorre com base em algoritmos que identificam alguns dados do leitor, como outras reportagens que ele leu ou algo que está em alta e a pessoa possa se interessar.

Humanos seguirão necessários

A conclusão do painel é que, com certeza, a inteligência artificial vai mudar para sempre as redações. Mas nem por isso jornalistas e leitores devem temer: os humanos seguirão necessários e cada vez mais relevantes. Em vez de criarem conteúdos simples, jornalistas poderão dedicar seu tempo a histórias mais profundas e impactantes.

SIGA TILT NAS REDES SOCIAIS

Mais Inteligência artificial