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Não é só você! Maioria dos brasileiros usa fone para fugir de conversas

Arte UOL
Imagem: Arte UOL

Felipe Germano

Colaboração para Tilt

11/09/2019 04h00

Nathaniel Baldwin. Você não sabe, mas esse cara já te salvou. Não só a você, mas a 6 em cada 10 brasileiros. Ele não é responsável por criar um remédio que te livrou da morte - mas já te poupou de coisa pior: dezenas, centenas, talvez milhares de conversas IN-SU-POR-TÁ-VEIS. Baldwin é o inventor do fone de ouvido.

E, de acordo com uma nova pesquisa, sua invenção tem sido definidora pra escapar de momentos inconvenientes: 64% dos brasileiros já colocaram o fone na orelha (mesmo sem música) só pra não falar com ninguém. Baldwin é um herói.

O estudo foi organizado pela Hibou, empresa de pesquisa e monitoramento de mercado e consumo. Foram entrevistados 2 mil brasileiros entre 16 e 45 anos - todos donos de smartphones. E, olha, o resultado mostrou alguns dados interessantes sobre o jeito que nós usamos o celular.

Interessantes porque, sim, se o brasileiro já é peculiar offline, online talvez sejamos ainda mais destoantes do resto do mundo. A própria história do headphone, por exemplo, até acontece entre os gringos - mas uma pesquisa alemã apontou que por lá isso não chega à metade das pessoas, aqui é com a maioria.

Outro é exemplo é nossa facilidade de nos relacionarmos no momento de necessidade. Quantos outros países também podem falar que 45% da população já pediu um carregador emprestado para um completo estranho? Não há nem registro de um estudo que tente medir isso fora das nossas fronteiras. É uma gambiarra social completamente tupiniquim.

A pesquisa ainda mostra que somos muito ingênuos. Infelizmente, pode espalhar, que é verdade: 88% de nós já caiu em uma fakenews que viu pelo celular. Outras pesquisas mostram que, não é tão difícil assim de acreditar, somos os campeões mundiais de cair nas mentiras. Somos enganados, por exemplo, quase duas vezes mais do que os italianos. Mamma mia!

Em meio às noticias do hack nos celulares de Sergio Moro e Deltan Dallagnol, dá pra cravar que o brasileiro tem medo de fazer parte de uma vaza-jato da vida. 64% de nós sempre apagam os históricos das conversas. Quem tem celular tem medo, né?

E antes de reclamar que estamos falando sobre o governo em uma matéria de política, uma sugestão: pesquise (nós sempre misturamos esses dois temas), afinal essa estudada de última hora já virou parte do nosso comportamento online. 88% dos brasileiros, OITENTA E OITO procuram sobre um assunto no meio de uma conversa/discussão. Que bom, né? Pelo menos procuramos.

A pesquisa também escancarou um comportamento que mais do que brasileiro é nosso: dos amantes de tecnologia. Eu aposto que você já (aqui mesmo em TIlt) se empolgou com um aplicativo novo. Aí é tiro e queda. Você corre para a loja de aplicativos, vê que vai demorar um tempinho para baixar (alô, 4G lento!) e começa a fazer outra coisa para fazer. Sabe quando você vai voltar para esse app? Nunca! Eu, você e 51% dos brasileiros já baixaram um app que nunca sequer abriram.

Mas não é como se estivéssemos bobeando e não usando a tecnologia como devemos. Muito pelo contrário, estamos cada vez mais práticos. Evitando filas, atendentes mal humorados e, principalmente, as tenebrosas portas-giratórias-que-travam-mesmo-quando-você-não-tem-nenhum-metal, 42% dos brasileiros já pagam a maioria das contas pelo aplicativo do banco. Você não precisa nem invejar os idosos da fila preferencial.

Ainda ganhamos mais uns minutinhos na hora de preparar a comida. Sempre recebendo cupons, e com aquela preguicinha que grita quando a facilidade está só a uns cliques de distância, 73% clama que, por conta dos celulares, está pedindo mais comida por delivery. Todo mundo enchendo o bucho (e a fatura do cartão).

E antes de falar mais alguma coisa, silêncio, principalmente se você for pequeno. Entre os entrevistados, 16% confessou que já emprestou um celular a uma criança só para ela ficar quieta. Mas vale prestar atenção, não é a melhor das ideias. Eu mesmo já falei aqui sobre o Youtube kids (e seus problemas). Entre um slime e outro, vale a pena tentar entender o silêncio da criançada.

Esses dados são engraçados, mas também tem coisa séria por trás. O brasileiro usa muito o celular, mesmo que 70% dos entrevistados digam que a maioria de seus grupos estão no mudo.

Diversas pesquisas já mostraram que o Brasil é o campeão mundial entre as populações que passam mais tempo no aparelho. São quase 5 horas diárias. Praticamente o dobro dos americanos. Isso significa que, por semana, a gente passa um dia e meio encarando a telinha.

O Brasil é um ponto fora da curva. Tanto que o mundo todo está olhando pra gente para entender como funcionam as redes sociais por exemplo Cristiano Nabuco de Abreu, coordenador do grupo dependência tecnológica do instituto de psiquiatria da USP

Somando celular e computador, são 9h20 min conectados por dia. No whatsapp somos campeões mundiais.

A gente não consegue se separar do celular de jeito nenhum. 91% dos entrevistados afirmam que não conseguem ficar longe do aparelho por mais de uma hora. 60 minutinhos, gente, nem é tanto tempo assim, convenhamos.

Até porque mesmo se você falar "Ha! Mas a gente dorme oito horas por dia, te peguei!" Eu vou ter que responder que Há! Não pegou não. A gente não se separa do aparelho nem mesmo pra dormir. 66% dos brasileiros, ainda de acordo com a pesquisa, checam o celular de madrugada sempre que acordam de noite. Até porque 35% de nós prometem que vão colocar o aparelho no mudo antes de dormir. Mas nunca o fazem. Nem o Freddy Krueger atrapalhou tantas noites de sono.

É difícil entender o porquê de sermos tão afetados. A razão disso pode estar menos na tecnologia e mais nos nossos problemas sociais, por exemplo. "Minha hipótese é de que o Brasil é um país tão desigual, que na internet, essa sensação de igualdade e essa voz que não seria dada de outras formas, nos conquistou", afirma Nabuco. "Os brasileiros ficaram tão deslumbrados, que perderam um pouco a sensatez", completa.

Se você está conseguindo levar na boa, não tem problema nenhum. Vale até colocar o fone no ouvido, porque, olha ali: aquele cara chato do trabalho está chegando. Nathaniel Baldwin pode te salvar de mais uma...

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