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Estamos próximos de conseguir um backup do cérebro, que trará vida eterna?

Um sistema para transferir memórias do seu cérebro para uma máquina? Não é tão impossível... - Arte UOL
Um sistema para transferir memórias do seu cérebro para uma máquina? Não é tão impossível... Imagem: Arte UOL

Marcelle Souza

Colaboração para Tilt, em São Paulo

06/09/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Iniciativas buscam modos de transferir memórias humanas para computador
  • Nectome tem "ideia" polêmica: é preciso morrer para guardar a memória
  • Críticos dizem que só congelar as conexões neurais não garante êxito
  • Outro projeto busca a transferência da personalidade de humanos para máquinas

Imagine poder guardar todas as suas memórias em um lugar seguro, capaz de preservar tudo o que você viveu, mesmo em caso de doença, acidente ou envelhecimento. Seria quase uma promessa de vida eterna, pelo menos para suas lembranças e todas aquelas sensações que você não quer esquecer.

Parece cena de ficção científica, mas já existem iniciativas que tentam encontrar formas de transferir as nossas memórias para um computador, uma espécie de backup do cérebro. Tudo salvo em uma nuvem digital, acessível a qualquer hora ou lugar.

Uma das empresas que está na corrida para preservar o cérebro e manter todas as suas memórias intactas é a Nectome, uma startup que fica no Vale do Silício (EUA).

A técnica que ela propõe funciona assim: os pesquisadores fazem um processo conhecido como vitrifixação do conectoma, que, em outras palavras, é uma espécie de cristalização do mapa das sinapses do cérebro. Para isso, injeta-se no cérebro um produto que congela as conexões entre os neurônios. Em seguida, o órgão é fatiado e mantido a temperaturas baixíssimas.

A Nectome primeiro testou com o cérebro de um coelho e depois com o de um porco. Pelo último experimento, o cofundador da empresa, Robert McIntyre, recebeu um prêmio de US$ 80 mil da Brain Preservation Foundation's (em tradução livre, Fundação de Preservação do Cérebro).

Em fevereiro de 2018, os pesquisadores conseguiram pela primeira vez preservar um cérebro humano. O experimento foi feito duas horas e meia depois da morte de uma mulher idosa.

Morrer para salvar

O grande problema com essa técnica é que ela propõe uma saída radical para a preservação dos tecidos cerebrais: é preciso morrer para guardar a memória para a eternidade.

Então, para saber se essa ideia vai mesmo funcionar, é necessário achar pessoas dispostas a se sacrificar em nome da promessa do backup da mente, em um suicídio assistido, o que envolveria uma série de questões éticas.

Além de polêmico, críticos do projeto dizem que só congelar as conexões neurais não garante que a Nectome consiga registrar e armazenar de fato as memórias.

"É verdade que a sinapse é onde toda a ação acontece, mas o comportamento das células é determinado por outras coisas, incluindo processos dentro delas, que são determinados por proteínas muito menores", disse Jens Foell, neurocientista da Universidade Estadual da Flórida, ao site científico LiveScience.

Avanços feitos no Brasil

Apesar da desconfiança de alguns, a Nectome foi selecionada em 2018 pela Y Combinator, uma das mais conhecidas aceleradoras de startups dos Estados Unidos.

O valor dos avanços feitos por ela não diz respeito apenas à busca pela vida eterna e pode trazer resultados menos drásticos que a morte dos envolvidos. A corrida dos neurocientistas para encontrar técnicas eficazes para a preservações da memória pode ser uma virada de jogo para o tratamento de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.

"Se a gente entende mais o funcionamento do cérebro, como ele armazena a informação nas redes neuronais, pode fazer estruturas artificias para substituir as partes lesadas", explica o neurocientista Edgard Morya, coordenador de pesquisa do Instituto Santos Dumont (ISD), especializado em neurociências, neuroengenharia e reabilitação.

Morya, junto com um grupo de pesquisadores do ISD, também já conseguiu registrar a atividade elétrica de alguns neurônios de um rato no Brasil e transferir essa informação para outro animal nos Estados Unidos. "Tecnicamente, seria possível fazer isso com o cérebro humano também", afirma.

O neurocientista diz que esse seria um passo para o registro e o arquivamento das nossas memórias, mais ou menos como fazemos com arquivos digitais. O problema é fazer isso em grande escala.

"O nosso cérebro é bem mais complexo do que um computador. Cada neurônio tem milhares de microconexões, e eles ainda se comportam de modo diferente ao longo do dia. Essa complexidade de funcionamento das redes neurais a gente ainda não consegue copiar", explica.

Mesmo que fosse possível copiar essas estruturas, atualmente não existem máquinas com capacidade suficiente para rodar o volume de informações processadas pelo nosso cérebro. Segundo estimativas baseadas na Lei de Moore, para a qual a potência dos computadores dobra a cada 18 meses, só na década de 2040 teremos computadores potentes para simular a inteligência humana.

Projeto quer "neo-humanos"

Esse é o prazo que o bilionário russo Dmitry Itskov trabalha em um dos projetos mais ambiciosos na corrida por uma forma de backup para o cérebro. O objetivo da Iniciativa 2045 é nada menos do que criar tecnologias que permitam a transferência da personalidade de um indivíduo para uma máquina, uma espécie de "neo-humanos", até alcançar a imortalidade.

"O objetivo final é transferir a personalidade da pessoa para um corpo completamente novo", disse o empresário à rede britânica BBC.

Segundo o cronograma do projeto, o primeiro passo seria lançar em 2020 os Avatars, robôs que podem ser controlados pela mente. Apenas cinco anos depois, a ideia é desenvolver uma máquina para receber um cérebro transplantado após a morte do indivíduo.

Uma mente artificial, que hospedaria a personalidade de uma pessoa, seria lançada em 2035. Por fim, a promessa é que em 2045 seja criado um Avatar holográfico, uma espécie de cópia digital de um indivíduo.

Como ainda não houve divulgação dos resultados, é esperar para ver se isso vai mesmo acontecer no tempo esperado.

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