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Com firulas e potência, Note 10 tenta se reinventar na era das "telonas"

Gabriel Francisco Ribeiro

Do UOL, em Nova York (EUA)

08/08/2019 07h23Atualizada em 11/08/2019 14h27

Resumo da notícia

  • Apesar de modelo ainda ter uma tela enorme, concorrência já assimilou a tendência
  • Para manter Note vivo, Samsung aposta na produtividade da caneta responsiva
  • Scanner 3D permite realidade aumentada, mas é como Animojis: um pouco inútil
  • Versão menor estreia e pode agradar quem quer celular "pequeno" com a S Pen

A linha Galaxy Note, da Samsung, não é mais sinônimo de tela grande. Essa frase pode soar bizarra dita no dia seguinte à apresentação do Note 10+, que bate o recorde de tela da linha e da marca, sendo também um dos smartphones com maiores telas da história --excluindo os dobráveis da própria Samsung e da Huawei, que ainda estão para serem lançados de verdade.

Então por que eu digo que ela não é mais sinônimo de telona? Bem simples: porque atualmente já vivemos na era da "telona para todos". O Note 10+ é, por exemplo, apenas 0,1 polegada maior que o Galaxy S10+ 5G ou que o Galaxy A80, além de só 0,3 polegada maior que o iPhone XS Max, seu principal concorrente.

Essa diferença, no passado, já foi muito maior - o Note foi introduzido em 2011 com uma tela que todos achavam "absurda" de 5,3 polegadas e causou estranheza, chegando a ter até sua viabilidade posta em dúvida. Oito anos depois, esse diferencial está praticamente acabado.

Agora alguém que optaria por uma telona da linha Note pode optar por telonas de pelo menos outros 20 celulares no mercado sem se decepcionar, como o Huawei Mate 20 X e seu imenso visor de 7,2 polegadas. Isso até faz a linha Note perder muito o sentido, já que essa era seu principal atrativo --e bem quando está em seu ápice, com uma ergonomia que impressiona para um celular conhecido por ser mais um "trambolho".

Nessa "crise de identidade", a série tenta achar um caminho para seguir relevante, e parece que a Samsung está apostando na potência de performance junto a recursos diferentões. Mas o Note faz cada vez menos sentido em um mundo em que a própria linha S está gigante e ultrapotente.

Irmão menor e inovação para pegar o profissional

A Samsung admitiu abertamente que a linha Note não é o rei da telona ao apresentar o Note 10 neste ano. O celular, alternativa ao Note 10+, tem uma tela de 6,3 polegadas, que é menor do que o Note 9 do ano passado (!), do que modelos do Galaxy S10 e até de celulares da linha Galaxy A.

Segundo a empresa, estava programado para este ano essa introdução de um novo modelo menorzinho para o Note, mais ergonômico. Mesmo assim, isso não deixa de ser uma ironia para uma linha marcada sempre pelos exageros.

Por que então é ainda relevante manter um Galaxy Note no mercado e não juntar tudo em um pacote só? Bom, além de incentivar as pessoas a gastarem mais (a Samsung não é exatamente conhecida por economizar em modelos de celulares), a empresa firma o pé de que os modelos atendem a públicos diferentes.

"Quando você pega o primeiro Note e o segundo, tinha uma diferença muito grande, tinha uma proposta de tela grande bem clara. Agora, com a linha S crescendo a tela, a gente dá essa opção com caneta e outras opções que só têm no Note", explicou ao UOL Tecnologia Renato Citrini, gerente de produto da Samsung.

"Buscamos muito mais o usuário que busca o smartphone como uma ferramenta de trabalho na vida dele. O Note é o que mais vai entregar inovação. Tem mais recursos em vídeo, áudio, soluções mais completas"

Ao mesmo tempo, a potência do aparelho é indiscutível: apesar de ter o mesmo processador e especificações afins do S10, é o dispositivo que a Samsung garante entregar mais desempenho --e por isso cada vez mais a empresa tenta fazer o aparelho virar um dispositivo gamer.

Ainda assim, é cada vez mais difícil tentar explicar por que alguém deveria comprar um Note e não um S10+, por exemplo. Telona? Tem nos dois. Processador potente? É o mesmo. Design? Praticamente iguais. O jeito é então partir para a caneta responsiva e outras firulas, algumas delas bem promissoras.

Caneta é o grande chamariz

Sem dúvida, a caneta é agora o grande fator único identificador da linha Galaxy Note. Não é mais o "celular da tela gigante", mas o "celular da caneta". E a S Pen, que muitos podem pensar ser irrelevante, começa a fazer mais sentido.

Se você não está acostumado com um Note, pode achar besteira a caneta. E eu vou concordar com você: quando testo um aparelho da linha, raramente a tiro do seu compartimento por simplesmente esquecer que ela existe.

Mas, segundo pesquisas da Samsung, ela é usada ativamente pela imensa maioria dos compradores de Note, o que mostra a relevância da S Pen. E agora ela cada vez mais se parece com um controle remoto.

A função de bluetooth do ano passado, que servia por exemplo para tirar fotos, foi estendida para funções por gestos com a caneta. Pude testar rapidamente a função, que pareceu meio complicada de início (você tem que segurar o pequeno botãozinho da S Pen e fazer o gesto ao mesmo tempo), mas é só pegar o jeito.

Essa novidade servirá para o app da câmera, galeria e outros tipos de mídia. Não é o primeiro celular a responder a gestos no ar --Motorola e LG já têm algumas funções do tipo e o Pixel promete essa função para seu próximo lançamento.

No mais, a S Pen continua fazendo bem uma de suas funções clássicas: transformar o celular em um bloco de anotações rápido. Teve uma ideia? Em vez de digitar, rabisca na tela do celular. A Samsung voltou a melhorar o editor de textos rabiscados, colocando mais tamanhos e cores de fontes. Além de converter textos à mão em caracteres, ela exporta o texto para vários formatos diferentes, como documento do Word.

Cheio de firulas

O Note 10 e o Note 10+ ainda tentam sobreviver adicionando várias e várias firulas, algumas mais promissoras e outras nem tanto. Esses são os chamados recursos "únicos".

Falando rapidamente, o que eu curti foi o scanner 3D que já tinha aparecido em celulares da Sony, mas vai além no Note. É uma tecnologia que abre um precedente bacana. O gravador de tela nativo, pouco usual em Android e com recursos que vão além dos iPhones, também é bem legal.

O zoom da câmera para captar áudio direcionado do objeto na tela também é bizarramente interessante --e o desfoque de fundo no vídeo deve agradar muita gente. Agora o tal do AR Doodle, que deixa você desenhar na câmera e fazer esse desenho acompanhar um rosto, me lembrou a apresentação dos Animojis: inútil, mas que deve agradar a criançada.

Enfim, com tantas novidades que fogem um pouco do perfil de produtividade que ostentava no passado, além da perda do diferencial de supertela por causa da concorrência, é inegável que a linha Note está vivendo uma crise de identidade e a abertura para dois modelos prova isso. Mas por enquanto ela ainda tem motivos para sobreviver. Só não dá para saber se por muito tempo: quando o Galaxy Fold chegar, o público cativo do Note pode se dissipar.

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