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Com diário online, professor da USP esclarece "balbúrdia" da faculdade

Professor afirma que amigos e familiares não entendiam bem o que ele fazia - Arquivo pessoal
Professor afirma que amigos e familiares não entendiam bem o que ele fazia Imagem: Arquivo pessoal

Bruna Souza Cruz

Do UOL, em São Paulo

31/05/2019 04h00

"Professor(a), você trabalha ou só dá aula?". Com certeza você já deve ter ouvido essa piada. Mas a iniciativa de um professor do ICMC (Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação) da USP em São Carlos pretende revelar de vez os "segredos" por trás da vida de um docente universitário.

Aos 38 anos e com 16 anos de vida acadêmica, Moacir Antonelli Ponti resolveu criar um tipo de "Big Brother" da sua vida profissional com o "Diário de um professor de universidade pública". A ideia fez sucesso entre seus alunos e também ganhou a internet.

Durante cinco dias seguidos, Ponti tentou dar uma amostra da realidade da profissão. Rotina intensa, cheia de produção, sem glamour e com alguns perrengues no meio do caminho-- e nada de bagunça, segundo ele.

Ponti decidiu criar a página, pois nem os amigos e nem os familiares sabiam bem o que ele fazia todos os dias. "Em uma conversa com eles surgiram algumas perguntas do tipo. 'O que você fica fazendo o dia inteiro? O que você faz?'. Na hora de responder até eu notei uma dificuldade mesmo de explicar. Mas é complicado. A carreira de professor universitário envolve várias horas", contou ao UOL Tecnologia.

O docente já refletia sobre isso há um tempo, mas o diário online ganhou vida propositalmente no início de maio. As publicações começaram uma semana depois do comentário feito pelo ministro da Educação Abraham Weintraub, que usou a palavra balbúrdia como uma das justificativas para os cortes no orçamento de algumas universidades federais. A fala causou polêmica e foi alvo de protestos em defesa de educação e das instituições públicas de ensino-- o mais recente aconteceu nesta quinta-feira (30) em várias cidades pelo Brasil.

Inicialmente, o diário foi pensado para detalhar e desmistificar a rotina de um professor por uma única semana. Mas Ponti mudou de ideia diante da repercussão. O professor pretende atualizá-lo agora uma vez por semana com temas que tenham a ver com suas atividades e que mereceram ser destacados.

Profissão: "sem tempo irmão"

A rotina de Ponti é a prova real de que a piadinha de que professor não trabalha é injusta. Para cada hora de aula na sala de aula, o docente da área de ciência da computação afirma gastar em média quatro horas fora para prepará-la. Ele ressalta que às vezes gasta menos tempo, mas nem sempre é possível.

"Tenho que ter bastante cuidado com os exemplos que vou dar, qual vai ser a avaliação daquele conteúdo ensinado, como vou verificar se os alunos conseguiram fixar o conteúdo ou não, preparar materiais. É bastante coisa. Não é só chegar e dar aula", explicou o docente.

Se considerarmos que um professor do ICMC tem entre 8h e 12h de aula por semana (média exemplificada por Ponti), e que cada hora/aula é uma disciplina diferente para uma turma diferente, seria preciso o investimento de 32h a 48h semanais para a preparação de tudo isso. É muito tempo pensando e organizando tudo, não?

Uma de suas disciplinas, por exemplo, é ministrada em inglês, o que deve aumentar um pouquinho essa média de 4h de preparação. De qualquer forma, Ponti até gosta. "Isso é importante para que haja maior intercâmbio de estudantes do exterior para o Brasil. Nesse semestre temos três não falantes de português, que podem assim acompanhar aulas nos cursos do Instituto. Para nós 'brazucas' é bom, pois afiamos nosso inglês", contou em seu relato publicado em uma quarta-feira.

Além das aulas que leciona, Ponti ainda se divide em outras duas atribuições: trabalha como orientador da pós-graduação (mestrado e doutorado) no próprio instituto da USP e é presidente da Comissão de Cultura e Extensão do Instituto, órgão responsável por organizar eventos que envolvam a divulgação científica e cursos.

As tardes de quartas-feiras são reservadas para reuniões com seus alunos orientandos. Os pós-graduandos desenvolvem projetos baseados em tecnologias de análise de imagens e computação gráfica, área da qual o professor é mestre e doutor.

Algumas aplicações tentam verificar se o uso desses sistemas pode ajudar a diminuir o volume de agrotóxicos em plantações. Outras pesquisas são mais voltadas para aplicações médicas, como facilitar a detecção de doenças específicas por meio das imagens.

"A identificação de uma doença poderia ficar muito mais fácil com a ajuda de um computador para fazer a triagem. Casos suspeitos seriam identificados e automaticamente são enviados para o setor adequado [profissionais humanos] dar continuidade", resumiu.

Cerveja com ciência

As aulas e a pesquisa científica já ocupam boa parte do tempo de Ponti. Mas por que não ter mais alguns projetos para tocar?

O professor ainda é responsável por organizar em São Carlos o festival Pint of Science, uma iniciativa que acontece em vários lugares do mundo e tem como objetivo aproximar pesquisadores e a sociedade. O evento aconteceu nos últimos dias 20, 21 e 22 de maio e fez parte de mais um relato em seu diário.

É difícil, mas ele ama

Ponti conta que várias dificuldades existem durante a sua jornada acadêmica, que nada é fácil. Mas que a maioria dos problemas acaba sendo contornado. Em 16 anos de pesquisa, a dinâmica de conviver com outras pessoas, ensinar e aprender com elas são as coisas que mais o motivam.

O fato de trabalhar na USP, uma das mais reconhecidas universidades brasileiras, também contribui para que exista minimamente uma estrutura para que as pesquisas em seu laboratório de tecnologia possam continuar, ele ressalta.

"Me sinto até privilegiado porque a USP é uma universidade de ponta, tem recursos, histórico que a torna muito especial. Mas não é o caso de outras fora de São Paulo, infelizmente", ressalta. "Nós temos alguns contratempos, mas estamos sempre nessa luta."

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