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Ao ligar chip ao cérebro, ele ouviu cores e iniciou o movimento ciborgue

Marcelle Souza

Colaboração para o UOL

23/05/2019 04h00Atualizada em 23/05/2019 11h44

Resumo da notícia

  • Neil Harbisson nasceu com síndrome que o faz ver o mundo em tons de cinzas
  • Usando a tecnologia a seu favor, decidiu alterar seu corpo para captar as cores
  • Antena instalada no crânio desde 2004 permite que "ouça" varições de tons
  • Harbisson criou movimento que defende a alteração do corpo como estilo de vida

Se você acha esquisito que o biochip seja visto como o o nosso futuro para abrir portas, liberar catracas ou pagar contas, saiba que o primeiro ciborgue da história existe há décadas e lidera um movimento para tornar as pessoas cada vez mais cheias de implantes.

Tudo começou quando o artista britânico Neil Harbisson decidiu colocar uma antena em seu crânio para contornar um problema de nascença: ele tem acromatopsia, uma síndrome rara que só o permite enxergar tons de cinza.

Harbisson, que nasceu em Belfast (Reino Unido), mas foi criado na Catalunha, tinha 21 anos quando passou por uma cirurgia para instalar o que chama de "eyeborg" (algo como "olho ciborgue"), tornando-se assim o primeiro ciborgue da história. Ou seja, um humano com partes cibernéticas.

Funciona assim: um sensor instalado na ponta da antena capta a cor do objeto, envia essa frequência para um chip instalado atrás da cabeça e, a partir da condução óssea, ele escuta a tonalidade que está na sua frente. Cada cor toca um som distinto.

A inovação foi parar no livro dos recordes e ele passou a ser um dos principais expoentes do movimento ciborgue --que defende o uso da tecnologia para aumentar as possibilidades do nosso corpo.

O primeiro dispositivo foi criado em 2004, pelo cientista da computação Adam Montandon, da Universidade de Plymouth, no Reino Unido. Inicialmente, era preciso que Harbisson utilizasse fones para ouvir as cores. Depois, com as atualizações do sistema, eles conseguiram criar um chip que foi colocado, por meio de cirurgia, no seu crânio.

Quando eu comecei a sonhar em cores, senti que o software e o meu cérebro estavam unidos. Foi quando eu comecei a me sentir como um ciborgue, porque o dispositivo cibernético tinha se tornado uma parte do meu corpo
Neil Harbisson, em apresentação no TED em 2012

A antena permitia que o artista ouvisse mais de 360 tons. Mas, para ele, isso não parecia o bastante. "Eu achei que essa visão humana não era boa o suficiente, existem muito mais cores ao redor que nós não conseguimos perceber, mas que os olhos eletrônicos conseguem. Então eu decidi continuar a ampliar a minha percepção, e adicionei o infravermelho e o ultravioleta à escala de cores traduzidas aos sons."

A antena pode ser conectada a outros dispositivos via Bluetooth ou internet. "Eu não sinto que estou usando tecnologia. Eu sinto que sou tecnologia", disse o artista ao jornal britânico The Guardian.

A antena instalada no crânio de Harbisson é capaz de perceber centenas de cores, além de infravermelho e ultravioleta - Reprodução
A antena instalada no crânio de Harbisson é capaz de perceber centenas de cores, além de infravermelho e ultravioleta
Imagem: Reprodução

Criação

Na cabeça de Harbisson, a antena virou ainda ferramenta de produção artística. Isso porque, como cada cor corresponde a um som, ele costuma "traduzir" músicas e discursos em imagens. Parece estranho? Pois ele já criou obras a partir de pronunciamentos de Hitler e Martin Luther King e canções de Justin Bierber e Mozart, por exemplo.

Usando a técnica inversa, transformando cores em sons, ele faz seus expectadores ouvirem os rostos de famosos como James Cameron, Gael Garcia Bernal, Príncipe Charles, Wood Allen e Nicole Kidman.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Primeiro ciborgue

Harbisson foi o primeiro ciborgue reconhecido por um governo depois que decidiu renovar o passaporte em 2004. As autoridades britânicas se recusaram a emiti-lo porque, segundo as regras locais, seria preciso retirar a antena para fazer a foto do documento.

"Eu insisti que o que eles estavam vendo era, na verdade, uma nova parte do meu corpo, uma extensão do meu cérebro. E aí finalmente eles aceitaram me deixar aparecer com a antena no passaporte", disse Harbisson na palestra do TED.

Em 2010, ele fundou, ao lado da amiga Moon Ribas, a Cyborg Fundation, uma organização para ajudar outras pessoas a se tornarem ciborgues e promover a implantação de tecnologias no corpo como um estilo de vida e um movimento artístico. Ribas é coreógrafa e implantou no braço esquerdo um sensor que vibra quando acontece um terremoto.

"É como se esses implantes me permitissem estar ligada ao movimento natural da terra", diz a coreógrafa.

Isso é o que Ribas, Harbisson e outros ciborgues pelo mundo chamam de "design yourself", ou a capacidade de expandir, por meio da tecnologia, os seus sentidos e as suas habilidades. "Existe uma diferença entre a tecnologia que permite conhecer as coisas e a tecnologia que permite que você sinta as coisas", diz o texto do site da fundação.

Ou seja, o que eles defendem é a possibilidade não só de corrigir possíveis problemas do nosso corpo, mas ampliar as possibilidades de percepção e interação dele com o mundo.

Se você acha que é coisa de maluco ou de ficção científica, saiba que já tem gente se aventurando no chamado biohacking, que é exatamente essa ideia de misturar biologia com estratégia hacker.

Entre as empresas que atuam nessa área está a Cyborg Nest, que pretende colocar no mercado um implante capaz de vibrar para indicar o norte, aumentando a percepção espacial de seus usuários. E isso promete ser só o começo.

"Eu acho que a vida será mais emocionante quando pararmos de criar aplicativos para telefones celulares e começarmos a criar aplicativos para o nosso próprio corpo", afirma Harbisson.

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