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É possível ter duas internets no mundo? Entenda os limites do plano russo

Como seria o mundo se cada região tivesse sua internet isolada? - Getty Images/iStockphoto
Como seria o mundo se cada região tivesse sua internet isolada? Imagem: Getty Images/iStockphoto

Matheus Pichonelli

Colaboração para o UOL, em São Paulo

09/05/2019 04h00Atualizada em 09/05/2019 15h25

Resumo da notícia

  • Plano russo de internet fechada é alvo de protestos e questionamentos
  • Ele serve para proteger a rede russa de ataques externos ou para censura?
  • Iniciativa vem em momento em que ideia de internet livre está ruindo
  • Mas isolar a rede da internet global não é tão simples; custo é altíssimo

O presidente Vladimir Putin assinou no dia 1º de maio um projeto de lei que institui uma espécie de internet paralela na Rússia. A ideia do "programa nacional de economia digital" é criar uma infraestrutura própria que possibilite isolar a rede da internet global e direcionar o tráfego da internet russa para servidores do país.

A iniciativa, que logo ganhou o apelido de "cortina de ferro" da web em uma referência à divisão do mundo nos tempos da guerra fria, já gera protestos e causa preocupação dentro e fora da Rússia.

Não é para menos. Em um contexto de acirramento geopolítico global, fica a pergunta: afinal, o que querem os russos? Clonar a internet? Criar uma nova rede mundial de computadores? Replicar um modelo de censura que já impera em países como a China?

Para responder essas perguntas é preciso, primeiro, saber como funciona a rede como conhecemos hoje --e por que a segurança de nossos dados nesta rede única é atualmente uma questão estratégica para a segurança e as economias nacionais.

Do começo: como é a nossa web

A internet é uma rede composta por cerca de 60 mil organizações espalhadas pelo mundo. Essas redes são interligadas a partir de padrões tecnológicos em comum, compondo a rede global.

Para funcionar, ela depende de:

  • infraestrutura de telecomunicações (enlaces de fibra óptica e rádio, por exemplo)
  • datacenters que hospedam nossos dados (entre eles os CDNs, usados por Google, Netflix e Facebook para distribuir conteúdo)
  • Internet Exchanges (infraestrutura usada pelos provedores)
  • IPs (Internet Protocol, ou endereços numéricos de cada dispositivo eletrônico)
  • DNS (Domain Name System, o sistema de nomes de domínio que converte os nomes digitados, como uol.com.br, em endereços numéricos

Os planos da Rússia levantam dúvidas sobre a possibilidade de existir uma rede similar a essa em seu próprio território.

Segundo o gerente de projetos e desenvolvimento do NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR), Antonio M. Moreiras, isso é até possível tecnicamente, mas indesejável sob muitos aspectos. "Podemos imaginar várias redes 'concorrentes'. As organizações poderiam se interligar a uma ou outra, ou a várias delas simultaneamente. Mas isso encareceria as redes, pois a infraestrutura seria construída várias vezes", diz:

Podemos imaginar outro cenário em que se divide a internet em várias ilhas diferentes e não concorrentes, que não se comunicam entre si. Perde-se aí na riqueza de conteúdos e serviços hoje disponíveis globalmente. Por exemplo, a Wikipédia e o Google, poderiam estar disponíveis em apenas uma dessas ilhas/redes. Enquanto o Alibaba em outra

Maxim Shemetov/Reuters
Imagem: Maxim Shemetov/Reuters

Mas afinal, o que querem os russos?

A resposta a essa pergunta ainda não está clara, de acordo com Moreiras e outros dois especialistas ouvidos pelo UOL Tecnologia. As especulações giram em torno de três pontos. Moscou quer:

  • garantir que a internet continue funcionando internamente em caso de boicote, ataque ou problema externo
  • realizar censura ou fazer bloqueios específicos de acordo com os interesses do governo
  • isolar toda a rede russa, criando uma mini-internet desconectada da rede global, porém similar a ela

Se o objetivo é aumentar a resiliência e segurança da internet russa, Moreiras considera que seria preciso:

  • hospedar os principais serviços e conteúdos usados pelos internautas russos em datacenters locais
  • interligar todas as redes russas, assegurando a conexão delas aos Internet Exchanges (PTTs) do país e a troca de tráfego IP entre si
  • copiar os servidores-raiz do sistema de nomes (DNS) emdatacenters russos
  • garantir que boas práticas de segurança sejam utilizadas pelos provedores russos

Tudo isso diminuiria a possibilidade de problemas de comunicação com o restante da internet. Se este for o caso, avalia o especialista, o objetivo é "saudável e realizável". "Especulo que poderiam estar falando de desligar a Rússia do mundo externo, nesse caso, apenas como forma de avaliar o quão resiliente ela já é", diz.

Para isolar totalmente, os russos teriam que:

  • criar um sistema de nomes (DNS) independente
  • garantir que redes de fora não utilizem PTTs russos, nem se interliguem diretamente a redes russas; e que redes russas não utilizem PTTs fora do país, nem se interliguem diretamente a redes externas
  • criar serviços similares aos mais utilizados na internet global, como buscadores, e-commerces, plataformas de vídeo, redes sociais

Nesse caso, todos esses serviços e vários outros não estariam mais disponíveis para os usuários russos.

Mas, de acordo com o especialista do Nic.br, se o objetivo é criar um ponto de controle, com possibilidade de bloqueios ou censura, a Rússia talvez almeje de fato concentrar todas as ligações externas ao país em um único provedor de internet, possivelmente estatal, ou em poucos provedores:

Este (ou estes) teria uma enorme, sofisticada e cara estrutura para espionar, filtrar e bloquear dados. Se for esse o caso, é algo bastante indesejável do ponto de vista da internet global. É possível, porém extremamente difícil tecnicamente. A China infelizmente tem demonstrado a viabilidade técnica de se manter uma estrutura assim

Uma nova China?

O pesquisador Alcides Peron, doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e especialista em Vigilância e Novas Tecnologias, acredita que o projeto russo tenha como objetivo fortalecer os servidores locais, com um controle maior das informações que entram e saem da Rússia. Para isso, é preciso garantir que esses servidores tenham capacidade de impedir que qualquer cidadão russo consiga acessar informações fora do país.

"Na China, é clara a proibição de acesso a uma série de informações, aplicativos e redes sociais. Eles têm um proxy criado internamente que replica versões locais de programas como Spotify e Facebook".

Já a Rússia, segundo ele, não parece querer substituir o aparato de aplicações internas, como a China, mas ter um maior controle maior das informações. Para isso, afirma, "vai ser necessário um redirecionamento da infraestrutura da internet como um todo".

Hoje, boa parte da informação mundial que circula na internet se dá através dos sistemas de cabos submarinos e de superfície que passam pelos EUA. "A Rússia há um bom tempo quer se livrar do domínio dos servidores norte-americanos."

AFP
Imagem: AFP

Internet como instrumento de guerra

Segundo Peron, os planos da Rússia estão em um contexto em que a ideia de internet livre e sem controle está ruindo. "Hoje em dia várias empresas têm forçado a quebra da neutralidade da rede para restringir ou controlar conteúdo. Como vimos desde o caso Snowden, há um controle do fluxo de informação que serve a propósitos do Estado americano."

Nesse contexto, a internet, afirma Peron, não é só um espaço de disputa de hegemonia, mas um instrumento de conflito e de guerra.

No caso da Rússia, a política externa do governo Putin é de distanciamento do diálogo com os EUA e dos foros multilaterais. "Para cada ação dos EUA, como uma interferência na Síria, tem uma reação russa. Na Venezuela também", diz Peron.

Para ele, cada vez mais os antagonismos entre EUA e Rússia, além da China, têm crescido, e isso faz com que Moscou tenha buscado alternativas para tornar sua internet cada vez mais autônoma, a exemplo de outras nações.

Isso significa que, se ocorrer alguma moção internacional, e os EUA decidirem arrebentar cabos e de internet que vão até a Rússia, o sistema de backup e de redirecionamento de cabos russos conseguiria se comunicar com a internet global.

Se a Rússia está nesse movimento é porque eles anteveem algo no médio e longo prazo. Um acirramento de tensões pode estar por vir
Alcides Peron

Com isso, a Rússia teria uma redução da interferência externa na internet, porém não total. "Mas certamente seria mais difícil desconectar a Rússia da internet", diz o pesquisador.

Mais controle sobre os cidadãos?

Peron lembra também que o governo Putin tem uma base autoritária, principalmente em relação a algumas minorias e grupos sociais específicos. "Essa política de segurança externa casa com a política interna, de maior controle e maior censura. É possível que, através dessa medida, você comece a censurar uma ou outra informação, um ou outro site, uma ou outra pratica."

O medo da ameaça externa serviria como justificativa para amenizar o plano de controle e censura internamente.

Peron diz não acreditar que a ideia seja construir "uma nova internet", e sim um conjunto de barreiras e firewalls não só virtuais.

No fim, é sobre economia

Para o cientista político Sérgio Amadeu, consultor de comunicação e tecnologia e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), o projeto russo está inserido em um contexto em que o fluxo internacional de dados é tratado como questão relevante para o desenvolvimento dos países em termos econômicos.

O que acontece na Rússia não é só questão de um governo autoritário. É uma disputa econômica
Sérgio Amadeu

Ele lembra uma máxima de que, se os dados são petróleo do século 21 e os EUA querem concentrar essas informações em solo americano, muitos países começam a sinalizar que não aceitam essa dependência. A Rússia parece não querer facilitar o acesso a informações hospedadas fora do país.

Amadeu afirma que a internet é um território cada vez mais militarizado, e lembra que, há dois anos, o então executivo-chefe da Microsoft, Satya Nadella, clamou por uma declaração de Genebra Digital. O especialista acredita, porém, que não é isso o que está em jogo no caso russo. "Essa disputa sobre fluxo de dados é mais relevante para a economia e para a política".

Segundo ele, países democráticos também terão de lidar com essa questão. "O fluxo de dados internacional será dar vez mais debatido quanto mais a economia passa a depender do tratamento massivo de dados pessoais", afirma.

Falta combinar com os russos.

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