Topo

Até cocriador do Facebook acha que ele deve 'acabar' por ser muito poderoso

Chris Hughes e Mark Zuckerberg, dois dos quatro fundadores do Facebook, em 2005, um ano depois da fundação da rede social - MediaNews Group/San Mateo County
Chris Hughes e Mark Zuckerberg, dois dos quatro fundadores do Facebook, em 2005, um ano depois da fundação da rede social
Imagem: MediaNews Group/San Mateo County

Helton Simões Gomes

Do UOL, em São Paulo

09/05/2019 13h39

Resumo da notícia

  • Chris Hughes fundou o Facebook junto de Mark Zuckerberg, Eduardo Saverin e Dustin Moskovitz
  • Em artigo publicado no "NYT", ele reflete sobre o poder do Facebook
  • Para ele, Zuckerberg decide sobre mudanças sem ser questionado
  • E essas mudanças afetam a forma como você se comunica e interage
  • O monopólio só poderia rompido com o desmembramento da empresa

A longa fila formada por uma mescla de eternos críticos ao Facebook e personalidades que ora apoiavam a rede social e agora reclamam dela acabou de ganhar um novo integrante. Ele, no entanto, não é qualquer um. Trata-se de Chris Hughes, um dos fundadores do próprio Facebook. Para ele, a empresa deve deixar de existir como a conhecemos e ser quebrada em diversas unidades. Isso atingiria em cheio o monopólio sobre as mídias sociais criado pelo ímpeto imperial da personalidade de Mark Zuckerberg.

É hora de quebrar o Facebook (...) Mark Zuckerberg não pode consertar o Facebook, mas o nosso governo pode
Chris Hughes

Um dos quatro fundadores da rede social em 2004, ele escreveu um artigo para o jornal "New York Times" publicado nesta quinta-feira (9). Ainda que tenha deixado a empresa há pelo menos uma década, no meio tempo em que esteve por lá, participou de marcos importantes do Facebook. Ele é, por exemplo, um dos criadores da patente do feed de notícia, até hoje o coração da rede social. Depois de sair de lá, passou a atuar como consultor e até trabalhou na campanha presidencial de Barack Obama em 2008.

Já faz 15 anos desde que eu cofundei o Facebook em Harvard, e não trabalho na empresa há uma década. Mas sinto uma sensação de raiva e responsabilidade

O lado humano de Zuckerberg

Para Hughes, as decisões do Facebook são tomadas de forma unidirecional por Zuckerberg. Nem mesmo o conselho administrativo tem poder para frear seus desejos, já que o presidente-executivo tem 60% das ações da empresa com direito a voto.

Isso dá a ele o poder de impor sua visão a todos os recantos da rede social, seja o algoritmo que determina o que as pessoas veem, as configurações de privacidade e até quais mensagens são entregues. Ele também cria as regras para distinguir discurso violento do que é apenas ofensivo. E, caso, não consiga convencer seus usuários de que sua plataforma é melhor que a de um concorrente, "ele pode optar por adquirir o concorrente, bloqueá-lo ou copiá-lo", diz Hughes.

Chris Hughes e Mark Zuckerberg, dois dos quatro fundadores do Facebook, em 2004, poucos meses após abrirem a rede social em Harvard - Rick Friedman/Corbis via Getty Images
Chris Hughes e Mark Zuckerberg, dois dos quatro fundadores do Facebook, em 2004, poucos meses após abrirem a rede social em Harvard
Imagem: Rick Friedman/Corbis via Getty Images

Ainda assim, ele diz que Zuckerberg não é um ser puramente robótico, que busca apenas lucrar, mas ainda guarda um lado humano.

Ele é humano, mas é sua própria humanidade que faz com que seu poder não controlado seja tão problemático

Mesmo tendo se distanciado do Facebook há tanto tempo, Hughes se culpa por não ter antevisto a tempo o que iria ocorrer.

Estou decepcionado comigo e com a equipe inicial do Facebook por não pensar mais em como o algoritmo do feed de notícias poderia mudar nossa cultura, influenciar as eleições e capacitar os líderes nacionalistas. E estou preocupado que Mark tenha se cercado de uma equipe que reforça suas crenças em vez de desafiá-las.

Hughes cita três erros cometidos pelo Facebook:

  • práticas de privacidade desleixadas que fizeram dezenas de milhões de dados de usuários ir parar no colo da Cambridge Analytica;
  • resposta lenta a agentes russos, discurso de ódio e notícias falsas;
  • esforço ilimitado para capturar cada vez mais nosso tempo e atenção.

O que fazer com o Facebook?

Ele previu o infocalipse, agora teme pela democracia

Leia a entrevista

Para Hughes, toda essa situação só foi possível porque o Facebook criou um negócio monopolista no segmento das redes sociais. Para pavimentar o caminho, expulsou os que dependiam de sua infraestrutura (Vine, do Twitter), comprou os que tinham potencial (WhatsApp e Instagram) e copiou os que incomodavam (Snapchat).

Isso criou um ambiente que, por um lado, afastou novos investimentos em plataformas sociais e, por outro, tornou impossível às pessoas correr para outra plataforma para interagir pela internet.

Ouvi mais de um amigo dizer: 'Estou saindo do Facebook completamente - graças a Deus pelo Instagram', sem perceber que o Instagram era uma subsidiária do Facebook. No final, as pessoas não deixaram as plataformas da empresa em massa. Afinal, para onde eles iriam?

Como Zuckerberg dá as cartas praticamente sem ser contestado no Facebook, é ele quem decide como podem se portar bilhões de pessoas em todo mundo. Por não haver alternativas, o preço cobrado das pessoas, apesar de passar despercebido, não é baixo.

O modelo de negócios do Facebook baseia-se em capturar o máximo possível de nossa atenção para incentivar as pessoas a criar e compartilhar mais informações sobre quem são e quem querem ser. Pagamos pelo Facebook com nossos dados e nossa atenção, e, por qualquer pedida, isso não sai barato.

2018, o ano que a casa caiu para o Facebook

Relembre os escândalos

O Facebook já notou a influência que possui sobre as discussões na esfera pública. E é daí que decorre seu poder, muito mais do que os bilhões de lucro. Para manter seu império intacto, a empresa passou a ser mais favorável à uma regulação por parte do governo.

Hughes lembra, no entanto, que isso já não deu certo. Quando um acordo desses foi estabelecido, a rede social o descumpriu. Em 2011, a Comissão Federal de Comércio (FTC, na sigla em inglês) proibiu a empresa de compartilhar com empresas mais dados além daqueles que os usuários já haviam permitido. A regra não foi respeitada, como você já deve ter notado, e a FTC deve aplicar uma multa de alguns bilhões de dólares -- mas ela não deve chegar nem perto do volume de negócios que o descumprimento da regra proporcionou à companhia.

A solução para os efeitos nefastos do Facebook sobre a sociedade, defende Hughes, é quebrar a empresa em diversas unidades menores. Facebook, WhatsApp e Instagram seriam companhias isoladas.

O Facebook não tem medo de mais algumas regras. Tem medo de um caso antitruste e do tipo de responsabilidade que a supervisão real do governo traria

Mas esse seria apenas o primeiro passo. Ainda que o desmembramento do Facebook já tivesse o poder de frear iniciativas preocupantes das outras gigantes Google, Microsoft, Amazon e Apple, não seria o suficiente. Os Estados Unidos deveriam criar uma agência que regulasse essas empresas de tecnologia para estabelecer limites a como manipulam a privacidade das pessoas e estabelecer uma linha de como pode ser o comportamento na web.

Leia íntegra da resposta do Facebook

O Facebook entende que com o sucesso vem responsabilidade. Mas você não impõe essa responsabilidade exigindo a cisão de uma empresa americana bem-sucedida. A responsabilidade das empresas de tecnologia só pode ser alcançada por meio da introdução diligente de novas regulações para a internet. Isso é exatamente o que Mark Zuckerberg tem pedido. Aliás, ele está se reunindo com líderes do governo nesta semana para dar continuidade a esse trabalho
Nick Clegg, vice-presidente de Global Affairs e Comunicações do Facebook

Mais Redes sociais