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Aparelho numa mão, filho na outra: celular mudou a vida das mães; foi bom?

Getty Images
Imagem: Getty Images

Marcella Chartier

Colaboração para o UOL, em São Paulo

29/04/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Se você é mãe, deve ter percebido que o celular mudou a experiência da maternagem
  • Com ele, rola acessar e produzir conteúdos e se comunicar com mais gente
  • O uso indiscriminado, sabemos, pode gerar de ansiedade a "vício"
  • Mas é graças a ele que muitas mães escapam do isolamento social
  • É online que as mães acham saídas para existir e desconstruir estereótipos

Quando o João, meu primeiro filho, nasceu, eu tinha um Blackberry - que naquela época era um celular legal, ainda que o iPhone já tivesse conquistado o lugar de favorito. Mas a câmera não era assim tão boa comparada às de hoje, ele não tinha Whatsapp nem Instagram e o Facebook abria lentinho, no navegador, mesmo.

No fim da gestação, eu já me desconectei ao máximo de redes sociais, emails, SMS, BBM (um tipo de WhatsApp só pra quem tinha Blackberry). Já sabia que isso me ajudaria a ficar menos ansiosa, me blindando inclusive da pergunta: "e aí, quando nasce, afinal?" chegando de todos os lados. Mas fato é que grávida de 9 meses ou não, sou uma pessoa que tem picos de ansiedade - em períodos estendidos de muitas demandas simultâneas, especialmente.

Se isso já era uma questão para mim lá em 2012, imaginem agora, que o fluxo de postagens e interações é bem mais intenso do que há 7 anos, que o celular ganhou uma infinidade de aplicativos e funções - e que sou mãe de dois.

Quando a Dora nasceu, em 2017, eu já usava meu smartphone para trabalhar por horas, marcar consultas médicas, pagar contas, listar tarefas, pedir comida para o jantar, ouvir música, chamar um táxi ou saber como chegar de transporte público ao meu destino. Daí para fotografá-la e filmá-la 50 vezes ao dia, compartilhar cada cena nos Stories, trocar mensagens em grupos de mães foi um passo.

Há algumas semanas, quando tive que deixar o aparelho dentro do pote de arroz para tentar salvá-lo de umas gotas de água derramadas, passei 24 horas numa paz que não experimentava há um bom tempo. E percebi que precisava mudar a frequência com que pego meu celular para checar o horário, as mensagens, as últimas postagens.

E a ansiedade?

A psicóloga Andrea Nolf, que há 14 anos é pesquisadora do núcleo de tecnologia, mídias digitais e comportamento humano do Janus - Laboratório de Estudos de Psicologia e Tecnologias da Informação e Comunicação da PUC-SP (Pontifície Universidade Católica de São Paulo), aponta que esse tipo de dificuldade não nasce da nossa relação com a tecnologia, mas é intensificada com o uso.

"E se você já tem uma questão com a ansiedade, lidar com ela vai aumentar as chances de você fazer bom uso da tecnologia", explica.

Lá fui eu recuperar o relógio de pulso que estava no fundo da gaveta, porque identifiquei que muitas das vezes em que pego o celular é para checar horários - e em quase nenhuma delas me satisfaço só em ver os números na tela inicial. Tive dias melhores, estive mais presente em tudo o que fazia.

Dormi melhor, me senti mais leve, passei um fim de semana na praia sem desviar o olhar do mar, das crianças brincando, da caipirinha, para telinha, e até na relação com meus filhos percebi uma qualidade superior. Quando pegava o celular, acabava aproveitando muito melhor o tempo de uso dos aplicativos e funções.

Mãe de Kaíque, a socióloga Paula Pontvianne decidiu reservar sempre um período em que deixa o celular longe - Arquivo pessoal
Mãe de Kaíque, a socióloga Paula Pontvianne decidiu reservar sempre um período em que deixa o celular longe
Imagem: Arquivo pessoal

É muito grupo...

A socióloga Paula Pontvianne é autônoma, trabalha boa parte do tempo em casa e troca muitas mensagens em grupos - de trabalho, de estudo, ativismo, entre outros - no WhatsApp. Seu filho mais novo, Kaíque, de um ano e oito meses, chora quando ela pega o celular. Por conta disso (e também das reclamações do mais velho, Theo, de oito anos), ela decidiu reservar sempre um período em que deixa o aparelho longe, para não correr o risco de querer checar mensagens.

Eu já cheguei a precisar de uma hora e meia para dar conta de 19 conversas diferentes, com várias mensagens acumuladas em cada uma delas
Paula Pontvianne

Uma detox forçada aconteceu há pouco mais de um mês, quando os dois filhos e o companheiro dela tiveram H1N1. "Tive que largar tudo para cuidar deles, senão eu ia ficar louca. Mas mesmo com as dificuldades daqueles dias, eu percebi que a qualidade da minha relação com as crianças melhorou muito. Foi como se eu estivesse de férias", lembra.

Janela pro mundo

Mas sem celular, ela não teria conseguido voltar ao trabalho depois que o segundo filho nasceu. Nem eu. E nem Amanda Santos, fisioterapeuta, mãe de Liz, de 1 ano e 4 meses.

Mãe solo desde a gestação e vivendo longe de todos os familiares, mantém o contato com eles por meio do Whatsapp (que também utiliza para conversar com pacientes) e é pelas redes sociais que divulga seu trabalho e acompanha as atividades da escola da filha.

Eu não sei como seria sem o celular
Amanda Santos

Para além da questão das necessidades financeiras de quem não tem licença maternidade e da possibilidade que os smartphones trazem de cumprirmos uma série de tarefas cotidianas (trabalho invisível, inclusive), a volta ao trabalho propiciada pelas tecnologias e a nossa própria presença online podem significar a recuperação de parte da nossa individualidade depois do parto, o que gera, em alguns casos, benefícios terapêuticos.

A fisioterapeuta Amanda Santos usa redes sociais para divulgar seu trabalho e acompanhar as atividades da escola da filha - Arquivo pessoal
A fisioterapeuta Amanda Santos usa redes sociais para divulgar seu trabalho e acompanhar as atividades da escola da filha
Imagem: Arquivo pessoal

O puerpério é um período cheio de desafios emocionais e esse retorno me ajudou a vivenciá-lo com alguma tranquilidade.

"Sabe aquela coisa de ir na janela olhar o mundo? Pois o meu celular faz esse papel quando estou imersa nos cuidados com meus filhos por muito tempo", ri Paula.

E o que se busca nessa janela varia bastante de acordo com o perfil de cada usuária, ainda que resista a imagem irreal da mãe plácida que de repente perde o interesse em qualquer assunto que não seja fralda, leite, os tons e texturas de um cocô e as etapas de desenvolvimento daquele serzinho miúdo.

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A militância não para

Na minha rede, há mães que praticamente não pararam de atuar em suas causas online, outras que seguiram compartilhando conteúdos relacionados aos seus temas de trabalho ou estudo, as que aproveitaram as horas de amamentação exclusiva para atualizar leituras e até escrever.

Textos inteiros digitados com uma mão só enquanto a outra apoia o bebê --das habilidades que a gente desenvolve nesses primeiros meses.

Maitê Freitas é uma delas. Mãe de Ilundy Airá, de quatro meses, ela já pegou o celular assim que sua bebê nasceu: "Enviei uma mensagem para avisar o meu companheiro, que não conseguiu chegar a tempo". Osvaldo Inlamea, pai da menina, mora em Maputo, Moçambique.

Daí em diante ela pouco largou o celular. Maitê é jornalista e atua nas redes sociais principalmente compartilhando postagens relacionadas a temas pelos quais milita, como feminismo negro, luta antirracista, política e cultura. Não deixou de se manter presente em seus perfis após o nascimento da filha e ainda articulou ações importantes: quando o ciclone Idai atingiu o sudoeste da África em março, afetando mais de 2,8 milhões de pessoas e devastando especialmente a cidade de Beira, ela gravou vídeos informativos da situação e divulgou formas de arrecadação de doações.

Maitê Freitas, mãe de uma bebê de quatro meses, já pegou o celular assim que ela nasceu - Divulgação/Ariel Martini
Maitê Freitas, mãe de uma bebê de quatro meses, já pegou o celular assim que ela nasceu
Imagem: Divulgação/Ariel Martini

Osvaldo tem familiares em Beira que também sofreram as consequências do desastre. Mas para além da conexão pessoal com o ocorrido, ela foi movida pela demora da imprensa brasileira em noticiar devidamente o ciclone e pela ajuda humanitária insuficiente concedida pelo governo federal.

O celular também ajudou a jornalista a adentrar o mundo materno desde a gestação, quando ela fez uso de um aplicativo que apresentava as etapas gestacionais. Depois, já com a filha nos braços, assistiu a alguns vídeos no YouTube para sanar dúvidas relacionadas - ainda que lamentando a ausência de canais de mulheres negras, como ela.

Mas eu gosto mesmo é dos relatos das minhas mais velhas, da minha mãe, primas, tias e amigas que já tiveram seus filhos
Maitê Freitas

Precisa de uma aldeia?

Em "O Calibã e a bruxa", a historiadora feminista italiana Silvia Federici recupera a relação entre mulheres antes de o capitalismo se estabelecer como regime dominante. No feudalismo, por exemplo, elas viviam muito mais juntas, compartilhando os cuidados com os filhos e conhecimentos transmitidos por suas ancestrais em redes afetivas potentes.

As trocas presenciais entre mulheres mães e suas ancestrais hoje são bem mais pontuais e complexas: as avós nem sempre vivem por perto e muitas vezes trabalham, têm seus compromissos. E não é nada incomum que suas sugestões sobre as melhores maneiras de cuidar de um bebê acabem soando ultrapassadas - ou, ainda, carreguem julgamentos e comparações. Sinais de que a potência das redes femininas mostrou-se tão ameaçadora para os homens que eles, ancorados em princípios capitalistas, conseguiram mesmo desmembrá-las.

Já os encontros de mulheres de uma mesma geração são restritos, em geral, a rodas de conversa promovidas por grupos de apoio à gestação e ao parto. A internet acabou servindo para a construção desses espaços e vínculos virtualmente. E o celular facilita a mobilidade de quem só costuma ter uma mão livre. É possível tirar dúvidas sobre questões relacionadas ao bebê e compartilhar vivências, desabafar.

É um jeito de estar em casa e no encontro ao mesmo tempo. Com o benefício de você não precisar se expor se não quiser, lidar com a nova imagem, que muitas vezes é uma questão depois do parto, escolher roupa para sair e estar presente fisicamente em uma sociedade que não valoriza esse momento como deveria. Você dá vazão à sua voz e individuação por meio da tecnologia
Andrea Nolf

Chega-se a essa partilha por caminhos diversos: há grupos dedicados a assuntos como gestação, parto, amamentação, introdução alimentar. E, partindo de um lugar de maior vulnerabilidade, muitas dessas mulheres se fortalecem não somente para exercer uma maternagem mais livre e prazerosa, como também para reconstituir a si mesmas como indivíduos.

"É preciso readequar o olhar sobre si depois que o bebê nasce, porque há transformações, e esse encontro pode ajudar. É também importante vivenciar a experiência de crise que é o começo da maternidade, para que ela seja proveitosa e superada. Se você se refugia excessivamente em algum gatilho de prazer para evitá-la (como os oferecidos pelo celular), cria-se uma bola de neve e essa crise volta mais forte depois, de alguma maneira", aponta Nolf.

#maternidadereal

A maternidade romantizada, associada à felicidade plena e à ideia de que não há realização mais importante na vida de uma mulher ainda é uma imagem forte, reiterada inclusive entre influencers digitais e famosas. Esse discurso costuma trazer junto a ideia de que mães se tornam santas, desprovidas de desejos mundanos como os que as moviam antes da chegada dos filhos.

O que não deve mudar, no entanto, é a busca pelo encaixe nos padrões opressores, como os de beleza, por exemplo: voltar ao corpo de antes da gestação é apontado como prioridade não só para atender a sociedade, como também os companheiros. Consumir esse tipo de conteúdo torna o puerpério difícil e impõe modelos inalcançáveis, gerando ainda mais ansiedade e frustração.

Mas já há conteúdos e perfis dedicados a desconstruir esses estereótipos ou ao menos a abordar, em meio às delícias (que nem sempre são tantas quando se tem um bebê muito pequeno em casa), também as dores e crises maternas. E esses podem trazer efeitos positivos à saúde mental materna e amenizar a solidão de quem se vê incapaz de compreender seus sentimentos.

"Relatos reais de quem consegue nomear o que sente pode ajudar quem ainda não deu contornos às suas dificuldades. Cria-se uma empatia porque aquilo reverbera nas pessoas", explica a psicóloga da PUC-SP.

Sharenting

E se na minha primeira experiência escrever e publicar textos sobre as minhas frustrações foi uma ferramenta terapêutica que colaborou para que eu desse conta de um estado depressivo, na segunda, a simples publicação de imagens da minha filha pequena no Instagram também trouxe bons efeitos para a minha saúde mental: comecei a usar os Stories e a me divertir criando narrativas em que a Dora era minha protagonista.

Pequenos prazeres que me ajudaram a encarar com mais leveza semanas em que eu dedicava a maior parte do meu tempo a cuidar dela sozinha.

Foi nesse período que uma amiga que não é mãe me enviou um texto sobre sharenting. Eu ainda nem conhecia o termo, que se refere ao excesso de compartilhamento de imagens dos filhos por parte dos pais - e que estava sendo apontado como um desrespeito à individualidade e a privacidade das crianças que ainda não podem escolher se querem ou não estar nas redes sociais.

O texto que minha amiga enviou era um contraponto muito são a mais essa acusação direcionada, obviamente, mais às mães do que aos pais. Somos nós, ainda, que passamos a maior parte do tempo cuidando dos filhos. E o mecanismo de nos reprimir, em nome de uma suposta garantia da segurança das crianças, em vez de se ater a reflexões críticas sobre como evitar riscos associados à superexposição de imagens das crianças online sem deixar de olhar para quem está por trás dos cuidados já é automatizado.

Se a internet é o mundo real, ela também deve ser ocupada pelas mães. Por todos os benefícios que isso traz a elas individualmente, mas também para que suas experiências reais desconstruam cada vez mais o estereótipo materno tão nocivo para todas as mulheres - inclusive as que podem descobrir que não desejam ter filhos.

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