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Cuidado com a gambiarra! Maioria dos incêndios é por curto-circuito em casa

Ligou o ar-condicionado no máximo? Confira se a sua rede aguenta o tranco - Getty Images/iStockphoto
Ligou o ar-condicionado no máximo? Confira se a sua rede aguenta o tranco Imagem: Getty Images/iStockphoto

Rodrigo Lara

Colaboração para o UOL, em São Paulo

26/02/2019 04h00

Curto-circuitos foram responsáveis por 536 incêndios em 2018, sendo que 80% deles aconteceram dentro de casa. Eles provocaram 62 mortes: 59 delas foram em residências e 35 de crianças e adolescentes de até 15 anos.

Os dados são da Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (Abracopel).

O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (CREA-RJ) também alerta para o cenário e que diz que mais de 90% dos incêndios registrados no Rio de Janeiro são causados por problemas nas redes elétricas domésticas.

Isso inclui instalações mal feitas, aumento indiscriminado de carga nas instalações elétricas e falta de manutenção por um profissional habilitado

Luiz Antonio Cosenza, engenheiro e presidente do CREA-RJ

CUIDADO COM GAMBIARRAS

O curto-circuito acontece quando condutores com polaridades diferentes entram em contato e provocam uma corrente elétrica de intensidade muito elevada, que flui sem resistência.

São as famosas gambiarras, que envolvem instalações com falhas de isolação, conexões elétricas mal feitas ou mal dimensionadas, executadas ou projetadas sem respeito às normas técnicas, e com cabos desencapados

Marcelo Gradella Villalva, professor de Engenharia Elétrica da Unicamp

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Em uma instalação elétrica residencial, é comum que ele ocorra quando são usados fios subdimensionados (não projetados para suportar um fluxo de corrente mais intenso) para ligar equipamentos mais exigentes, como ar-condicionado, chuveiro, geladeira, entre outros.

Uma analogia simples é imaginar uma estrada. Considerando um fluxo de carros contínuo, é natural que os veículos encontrem mais dificuldades para trafegar em vias com a menor quantidade de faixas. Se, no trânsito, isso acarretaria em um congestionamento, em uma fiação o resultado seria outro, aponta Marcos Rosa, professor do Instituto Mauá de Tecnologia:

Caso você tenha um condutor elétrico que não esteja dimensionado para suportar uma determinada corrente, ele irá aquecer. Isso é o que chamamos de Efeito Joule

Quando há uma geração de calor contínua, isso pode fazer com que o revestimento dos fios derreta e permitir que condutores de polaridades diferentes entrem em contato, causando o curto-circuito e aumentando a propagação de calor.

A partir daí, pode haver um foco de incêndio, que tende a se ampliar caso haja materiais combustíveis por perto, como cortinas, carpete ou móveis de madeira.

ESQUEÇA O BENJAMIM

Outra causa de sobrecarga pode vir do uso que se faz da rede elétrica. Equipamentos com consumo maior, como geladeiras, ar-condicionado, chuveiro, entre outros, devem ser ligados em circuitos próprios.

"Aparelhos de elevada potência e uso prologando, como condicionadores de ar, são os mais propensos a provocar sobreaquecimento nas instalações. E quanto mais tempo um aparelho desses ficar ligado, maior será o aquecimento dos cabos elétricos se eles estiverem mal dimensionados", diz Villalva.

Usar adaptadores para ligar mais de um aparelho em uma mesma tomada - os populares "benjamins" - ou extensões que "transformam" uma tomada em várias também colocam a segurança em risco.

"Isso pode fazer com que haja uma demanda maior de energia, acima da qual os condutores foram projetados", alerta Rosa. O resultado disso? Em casos extremos a fiação pode "fritar".

O mesmo vale para as tomadas de 20 amperes, com plugues mais grossos e normalmente utilizadas por aparelhos que demandam mais energia, caso de fornos micro-ondas, secadores de cabelo, aspiradores de pó etc. É comum o uso de adaptadores para ligar esses dispositivos em tomadas "normais" o que, claro, pode causar sobrecargas na rede elétrica.

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"Quando colocamos adaptadores para ligar um aparelho de grande potência a uma tomada elétrica não adequada, estamos originando pontos de sobreaquecimento que podem ocasionar incêndios se o uso do aparelho for muito prolongado", aponta Villalva.

Neste caso, além de trocar a tomada, é preciso checar se a fiação é capaz de suportar essa corrente extra. Em um cenário ideal, uma instalação elétrica deveria contar com conexões do tipo espalhadas pelo imóvel, evitando a necessidade de recorrer a adaptações potencialmente perigosas.

Por fim, temos os disjuntores, aquelas chaves que desligam caso haja um pico de corrente fora do especificado em um circuito elétrico. Eles podem evitar acidentes desde que estejam instalados corretamente, como explica Rosa:

O que muitas pessoas não entendem é que o alvo da proteção precisa ser a rede elétrica e não os equipamentos. Para evitar sobrecargas, a escolha do tipo de disjuntor deve levar em conta a corrente máxima suportada pelos condutores, de preferência ficando abaixo dela, e não a corrente de funcionamento dos aparelhos.

Além disso, é preciso levar em consideração que os aparelhos tendem a consumir mais conforme ficam mais avançados.

"Uma atitude comum é a troca dos disjuntores por modelos de maior capacidade porque eles passaram a desarmar com mais frequência depois da instalação de um novo chuveiro, que hoje são muito mais potentes do que eram no passado. Isso acaba alimentando ainda mais o problema", afirma Cosenza.

Ele também alerta que o ideal é fazer uma revisão na instalação elétrica das residências a cada cinco anos, já que pode haver desgaste de fios e conexões. De qualquer forma, é extremamente importante que uma residência tenha uma instalação elétrica planejada e dimensionada corretamente, envolvendo profissionais especializados como engenheiros e técnicos.

Para Villalva, por "economia ou falta de responsabilidade", esse tipo de cuidado passa longe de muitas instalações elétricas feitas no país. "Curto-circuitos e incêndios não deveriam ocorrer e vidas poderiam ser poupadas se as instalações elétricas fossem projetadas e executadas por profissionais capacitados. Infelizmente, muitas instalações elétricas brasileiras encontram-se em situação irregular e precária", lamenta.

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