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Seu celular escuta suas conversas para mostrar anúncio? Não é bem assim

Será que seu celular está ouvindo você para mostrar anúncios de produtos e serviços sobre os quais você fala? - Getty Images/iStockphoto
Será que seu celular está ouvindo você para mostrar anúncios de produtos e serviços sobre os quais você fala? Imagem: Getty Images/iStockphoto

Helton Simões Gomes

Do UOL, em São Paulo

22/02/2019 18h01Atualizada em 25/02/2019 14h57

Todo mundo já soube de algo assim: uma pessoa acaba de falar com um amigo sobre um produto ou serviço específicos; logo depois, pinta na internet uma propaganda relacionada a eles. A conclusão parece óbvia: o celular usa o microfone para espionar as pessoas, escutar todas as conversas e pinçar delas algo que pode ser anunciado online. Não é bem assim.

Suspeitas como essas não são novas e surgem de tempos em tempos. A última a levantá-la publicamente foi a repórter e apresentadora da Globo Rafa Brites, que iniciou um intenso debate em sua conta no Instagram.

Ela escreveu:

O seu celular também te escuta? Tudo que você fala aparece como propaganda depois? Alguém me explica isso por favor?

E acrescentou:

Só eu tô com essa mania de perseguição? Vamos ver quantos aí também estão

Algumas pessoas disseram que o mesmo ocorreu com elas. Mais de 20 mil curtiram o post. Em meio aos relatos, Brites comentou:

Gente, as respostas de vocês estão me deixando mais paranoica

Rafa Brites não é a única -- nem vai ser a última -- a não encarar como coincidência a exibição de anúncios de produtos que figuraram em uma conversa face a face.

Serviços conectados e aplicativos acessam, sim, a câmera, o microfone e outros componentes do seu celular. Nesta lista, estão seus contatos, o GPS do aparelho e a capacidade dele guardar documentos, entre outros. Mas fazem isso com o seu consentimento e, a princípio, para que alguma de suas ferramentas possa funcionar. Se você não autorizasse o uso do microfone ao Instagram, por exemplo, seus vídeos captados pelo app sairiam sem áudio.

Isso, no entanto, não impede que seu aparelho seja invadido de forma ilegal. Já foram descobertas diversas ferramentas para, sem o dono do celular saber, tirar fotos, rastrear a localização do aparelho e até acionar a gravação de áudio. Elas são usadas não só por cibercriminosos mas também por autoridades governamentais.

Ao que parece, no entanto, não é a uma dessas ações de hackers que Brites está se referindo e, sim, a uma atividade promovida por empresas de tecnologia. Muitas delas, como Google e Facebook, nutrem seus negócios ao peneirar os dados de seus usuários para direcionar anúncios baseados nos interesses deles.

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A mesma pulga na orelha que está pulando na orelha de Brites incomodou um grupo de especialistas em ciência da computação da Northeastern University e da universidade de Boston. Só que, em vez de ficar apenas no achismo, Elleen Pan, Jingjing Ren, Martina Lindorfer, Christo Wilson e David Choffnes foram checar se aplicativos usavam mesmo o microfone do celular para ouvir os usuários sem que soubessem.

Durante um ano, eles testaram os 17 mil aplicativos mais populares para Android, incluindo os do Facebook, como Instagram e WhatsApp. Eles também analisaram se esses serviços mandavam informações para a rede social.

A conclusão deles? Não há qualquer evidência de que esses apps usavam o microfone para gravar ou enviar áudio sem a atuação do usuário.

Para checar a questão, os pesquisadores utilizaram dez celulares equipados com um programa que automatizava interações humanas. Ele reproduzia conversas sobre preferências de consumo para que os microfones dos aparelhos as captassem. Ao fim do estudo, não encontraram nenhuma evidência de que gravações foram feitas.

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Entenda

A suspeita de que conversas mantidas fora da internet são espionadas para exibir anúncios em sites e aplicativos parece transportar para o mundo físico o medo de que aconteça nele o que já é bastante disseminado no mundo conectado.

Há apenas uma certeza enquanto você estiver online: alguma empresa tentará saber o que você está fazendo. A cientista de dados e blogueira do UOL Letícia A. Pozza explica que, quando você demonstra ter gostado de um produto ou serviço na internet, anúncios sobre aquilo passarão a persegui-los por diversas plataformas.

O "retargeting" é uma ferramenta muito utilizada pela publicidade para gerar vendas para aquele produto pelo que você já demonstrou interesse.

Quando você clica em algo que está conectado a esta tecnologia, você deixa uma trilha da sua identidade digital atrelada aquele produto

Você deve saber quando esse rastreamento acontece. Mais uma vez, Pozza exemplifica:

Ao acessar um site, realizar uma compra, realizar um cadastro, curtir uma foto de gatinhos, dirigir de carro utilizando o GPS, comentar na foto da sua mãe, entrar em um local e acessar o wi-fi, pagar uma conta, deixar de pagar uma conta

Percebeu? Todas as situações são uma oportunidade para coletar informações a seu respeito. Os cientistas da Northeastern University e da universidade de Boston fizeram questão de ressaltar que a pesquisa deles não é uma resposta definitiva sobre o assunto. Eles apenas descartaram que o microfone dos celulares seja usado para escutar você secretamente.

Não há notícia, no entanto, de que cientistas estudaram se o "retargeting" é, de alguma forma, capaz de identificar o que você conversou ao vivo com seus amigos usando apenas detalhes de suas interações online.

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