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Reconhecimento facial usado na China é testado no Brasil; saiba como opera

Uma demonstração de como o reconhecimento facial pode ser feito ao vivo para reconhecer qualquer pessoas multidão foi feita durante a Consumer Electronics Show de 2019 - David McnewAFP
Uma demonstração de como o reconhecimento facial pode ser feito ao vivo para reconhecer qualquer pessoas multidão foi feita durante a Consumer Electronics Show de 2019
Imagem: David McnewAFP

Helton Simões Gomes

Do UOL, em São Paulo

18/01/2019 04h00Atualizada em 30/03/2019 11h07

Deputados e senadores da bancada no Congresso Nacional do PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro, viajaram mais de 16 mil km até a China para conhecer um sistema capaz de reconhecer os rostos de qualquer cidadão no meio da multidão. Usada pelo governo chinês na segurança pública, a solução, no entanto, já está sendo testada desde o fim do ano passado, ainda que com menor abrangência, em Campinas, cidade paulista que fica a pouco menos de 100 km de São Paulo. A Bahia também possui o sistema.

O reconhecimento facial já é usado com outras finalidades no Brasil, como identificar pessoas suspeitas em aeroportos. São raras, porém, as iniciativas voltadas à segurança urbana como a da Bahia ou a de Campinas, que há alguns anos monitora imagens de câmeras para identificar as placas de carros roubados.

André Von Zuben, secretário de Desenvolvimento Econômico, Social e de Turismo de Campinas, conta que só no ano passado, cerca de 130 pessoas foram detidas devido ao sistema de monitoramento de veículos. As câmeras podem flagrar carros suspeitos com base em características marcantes, como adesivos de destaque.

O sistema de reconhecimento facial é um projeto recente. Com o intuito de transformar a cidade em um laboratório vivo, a prefeitura passou a receber propostas de empresas e institutos de pesquisa que tivessem algum projeto que usasse tecnologia para criar políticas públicas mais conectadas, conta o secretário.

Já prendemos muita gente com isso, mas não tínhamos reconhecimento facial. Agora é uma pessoa, não mais um carro. Se passar alguém suspeito que está sendo procurado na frente da câmera, ela vai gerar um alerta

André Von Zuben

O primeiro projeto recebido foi o da chinesa Huawei, que sugeriu, entre outras ações, implantar um sistema para reconhecer os rostos de pessoas em imagens captadas pelas câmeras instaladas na cidade. A gigante das telecomunicações e dos celulares tem experiência na área, já que fornece o modelo usado pelo governo chinês. O UOL Tecnologia apurou que a solução usada aqui é a mesma implantada por lá.

Faz parte desta parceria o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD), em Campinas.

Na Bahia, o projeto é do governo do Estado, que gastou R$ 18 milhões na compra do sistema de monitoramento. Além disso, adquiriu 310 novas câmeras prontas para o reconhecimento facial.

Como funciona?

As câmeras especiais são instaladas em pontos estratégicos, com grande fluxo de pessoas. Elas são conectadas à Central Integrada de Monitoramento de Campinas (Cimcamp), que tem acesso a quase 500 câmeras na cidade (cerca de 300 da prefeitura e outras 200 de estabelecimentos como bancos, shoppings e a Universidade de Campinas).

Ambiente da Central Integrada de Monitoramento de Campinas (Cimcamp), que monitora as imagens de quase 500 câmeras da cidade paulista - Divulgação/Prefeitura de Campinas/Carlos Bassan
Ambiente da Central Integrada de Monitoramento de Campinas (Cimcamp), que monitora as imagens de quase 500 câmeras da cidade paulista
Imagem: Divulgação/Prefeitura de Campinas/Carlos Bassan

Essa central alimenta o sistema de monitoramento com os números das placas e características dos veículos que devem ser localizados --e agora com os rostos das pessoas.

Os agentes do Cimcamp submetem imagens do suspeito, como fotos tiradas por celular, mas a tecnologia de reconhecimento facial não necessariamente compara a foto fornecida à imagem captada pela câmera. A busca é por detalhes faciais que remontem ao rosto procurado.

Funciona assim: a imagem do rosto é processada por um algoritmo, treinado para identificar dezenas de pontos faciais únicos e correlações entre eles. Os detalhes captados variam de acordo com a complexidade da tecnologia utilizada e podem ser os seguintes:

  • Distâncias (do nariz aos olhos; da boca ao queixo e etc);
  • Marcas e cicatrizes;
  • Contorno da face;
  • Formato da extremidade do rosto.

Essas informações são usadas para criar um arquivo que descreve o rosto e funciona como um "número de RG facial", que é guardado para futuras consultas. Ele pode ser usado para identificar suspeitos ou localizar desaparecidos mais rapidamente.

Duas das câmeras especiais já foram instaladas. Ficam no terminal central de ônibus da cidade. Outras devem chegar em breve a locais como o Paço Municipal, local onde fica a prefeitura, à rodoviária e a praças movimentadas.

Ao todo, a Huawei forneceu 30 câmeras inteligentes. Von Zuben diz que algumas das centenas de câmeras operadas pela prefeitura podem ser usadas no sistema de reconhecimento facial. Isso vai depender da capacidade técnica dos aparelhos, como a de produzir imagens em resolução adequada.

A chinesa também forneceu um sistema de processamento das imagens na nuvem. O servidor onde roda esse recurso fica dentro do CPqD.

Se eu cadastrei uma foto sua e eu estou procurando você por motivos de segurança pública ou de desaparecimento, a central de monitoramento vai receber um alerta quando você estiver circulando nas ruas da cidade onde há essas câmeras

Maurício Casotti, gerente de Desenvolvimento de Negócios para Cidades Inteligentes do CPqD

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As câmeras já foram colocadas à prova. Casotti conta que um operador da Guarda Municipal teve a foto cadastrada e, ao passar pelo terminal central da cidade, onde há câmeras, o sistema acusou a presença dele após reconhecer seu rosto.

Mas o monitoramento ainda não está funcionando para valer, porque o processamento da prova de conceito, que era feito pelo servidor da Huawei em Brasília passou a ser executado por outro, dentro do CPqD, o que demandou ajustes. Vale ressaltar que nenhuma informação sobre cidadãos brasileiros é passada para a China.

A Huawei não comentou para este artigo. A chinesa informa que essa solução é usada em mais de 200 cidades em todo mundo e a combinação entre câmera e sistema de processamento na nuvem já monitora mais de 800 milhões de pessoas.

Nessa linha, a empresa gosta de dar o exemplo da cidade de Shenzhen, capital tecnológica da China. Segundo ela, os índices de criminalidade caíram sensivelmente por lá. Por exemplo: desde 2006, o número de sequestros despencou 86%, o de assaltos caiu 82,5% e o tempo para localizar um suspeito passou de 20 para seis dias.

Uma ressalva a ser feita é que a adoção do sistema de reconhecimento é muito mais abrangente na China do que em Campinas. O país asiático possui mais de 170 milhões de câmeras e tem conectividade muito mais avançada. Além disso, o poder público chinês tem menos freios institucionais do que no Brasil, onde a proteção de dados pessoais, por exemplo, é assegurada por lei.

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BBC Brasil

Privacidade

O uso de ferramentas de monitoramento social - como as que reconhecem o rosto de cidadãos - é um dos pontos fortemente criticados pela comunidade internacional quando o assunto é o respeito da China aos direitos humanos de seus cidadãos.

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A ida dos deputados federais da bancada do PSL ao país em busca justamente de uma dessas ferramentas gerou críticas de especialistas brasileiros em privacidade sobre o impacto dessa tecnologia sobre a vida de cidadãos brasileiros. Até o escritor Olavo de Carvalho, tido como guru de Bolsonaro, criticou a viagem dos parlamentares, feitas a convite da China e custeadas por ela.

André Von Zuben, secretário de Campinas, nega que o sistema possa colocar a privacidade das pessoas em risco. "Nós não vamos ficar bisbilhotando. Se a câmera estiver no terminal, onde há milhares de pessoas passando, ela vai indicar apenas os procurados", diz ele.

Se você não estiver sendo procurado, a gente não vai ficar registrando sua passagem por Campinas. A gente não vai controlar a vida de ninguém. Só vai fazer aferição de gente que sumiu ou que está sendo procurada porque fez algo

Laboratório a céu aberto

A parceria entre prefeitura de Campinas, Huawei e CPqD pretende ainda usar as câmeras inteligentes para monitorar infrações de trânsito e o volume dos rios, a fim de evitar inundações.

Outras parcerias já estão em gestação, diz Casotti, do CPqD. Uma delas é o uso de câmeras potentes o suficiente para processar as imagens captadas internamente, sem ter de enviar os dados para a nuvem. Isso poderia ser usado para flagrar violações de trânsito de forma inteligente, sem, por exemplo, colocar apressadinhos que excedem o limite de velocidade no mesmo balaio que ambulâncias ou carros da polícia e dos bombeiros que se apressam para atender alguma urgência.

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