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Ler quem pensa diferente agrava a polarização: virou arma, não conhecimento

"As pessoas estão tão fechadas em determinados tipos de pensamento, não há debate" - Getty Images
"As pessoas estão tão fechadas em determinados tipos de pensamento, não há debate" Imagem: Getty Images

Marcelle Souza

Colaboração para o UOL, em São Paulo

01/01/2019 04h00

As eleições terminaram, mas agora começa um novo governo e a polarização continua muito evidente. Que as redes sociais têm um peso importante nisso, muito gente já havia dito: parte da culpa é atribuída a uma espécie de "bolha ideológica", onde todo mundo parece votar no mesmo candidato e ter opiniões parecidas, alimentando "verdades".

Mas uma pesquisa publicada em agosto na revista científica PNAS (sigla em inglês para Anais da Academia Nacional de Ciências) conseguiu mostrar que as opiniões opostas também aprofundam os extremos

A gente precisa do outro, que é diferente, para confirmar aquilo em que acreditamos

Christian Dunker, psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo) 

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Entenda

Para Maria Valente, diretora do InternetLab, centro independente de pesquisa sobre internet e direitos humanos, o resultado da pesquisa confirma o que alguns outros estudos recentes têm mostrado:

Em um contexto de radicalização política, a informação tem sido usada muito mais como uma arma do que como fonte de conhecimento

"As pessoas estão tão fechadas em determinados tipos de pensamento, que o conteúdo não serve mais para o debate. Ao contrário, é usado apenas para reforçar o que elas pensam", afirma. 

A pesquisa realizada nos Estados Unidos funcionou da seguinte maneira: usuários frequentes do Twitter (que acessavam a rede mais de três vezes por semana) tinham que responder a um questionário para medir o seu posicionamento político. Em seguida, eles foram divididos em dois grupos: republicanos (conservadores) e democratas (liberais), os dois partidos majoritários nesse país. 

Depois dessa etapa, os participantes foram orientados a seguir um perfil no Twitter por um mês, sem saber que tipo de publicações teriam de ler. O perfil, na verdade, era um robô que replicava publicações ideologicamente contrárias ao que usuário defendia. Ou seja, democratas tinham que seguir um perfil conservador, enquanto os republicanos liam posts liberais. 

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Entenda

Após um mês, os dois grupos tiveram que responder a um novo teste, que acabou mostrando que ambos ficaram mais extremistas em suas ideias. A diferença entre eles é que esse aumento foi ainda mais perceptível nos conservadores. 

Isso tem a ver com a maneira com que cada uma das posições interpreta e dá valor à diferença: para o conservador, ela pode ser sentida como uma ameaça, enquanto o liberal entende a diversidade como uma forma de enriquecer o debate

Christian Dunker

Brasil x EUA 

Antes de importar os resultados da pesquisa para o contexto brasileiro, é preciso dizer que há diferenças quando se trata do peso das redes sociais nas eleições recentes realizadas nos dois países. Um dos pontos importantes é que, enquanto nos Estados Unidos o debate aconteceu em parte no Twitter (objeto da pesquisa mencionada), por aqui a principal rede utilizada foi o WhatsApp

"O Twitter é uma plataforma aberta, mais ligada à política, é uma espécie de batalha a céu aberto, de assembleia pública em que você não conhece todas as pessoas. Já o WhatsApp é uma rede social fechada, mais capilarizada. Você está diante de pessoas que em alguma medida conhece, então o poder de influenciar uma opinião tende a ser potencializado", explica Dunker. 

Para o professor, isso faz com que os debates permitam um certo nível de anonimato no Twitter, já que é possível replicar ou responder sites de notícias, políticos e demais personalidades públicas. Por outro lado, os embates são frontais e muito mais próximos no WhatsApp --e, por esse motivo, os efeitos das brigas por política podem ser mais duradouros no Brasil do que as vivenciadas nos Estados Unidos. 

Além disso, tanto nas eleições no Brasil quanto no contexto dos Estados Unidos, é preciso tomar cuidado ao atribuir os resultados nas urnas a uma única mídia social. "O cenário é bem mais complexo do que determinado grupo ser exposto ou não a robôs no Twitter. É claro que eles têm influência, mas isso é só um pedaço do que está acontecendo, não explica tudo", afirma Valente.

Para ela, antes de tentar achar um "culpado" pela eleição de candidato A ou B, é preciso olhar para o todo da mídia (jornais, TV, sites de notícia), o que elas dizem, mas também como os eleitores recebem esse conteúdo. "A gente segmenta a experiência das pessoas como se a única coisa que elas fizessem fosse interagir em uma rede social", diz.

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Mas por que isso não acontece no ambiente virtual? 

Para o psicanalista, a falta de emoção das redes virtuais é um ingrediente essencial para acirrar, em vez de apaziguar, os conflitos:

Quando você olha para uma pessoa, há uma captação dos afetos, você se liga às expressões faciais, percebe como ela diz algo, o que torna a interação muito mais complexa

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