Topo

Diretora da Huawei paga US$ 7,5 milhões e é solta; Trump promete intervir

A diretora financeira da Huawei, Meng Wanzhou, em foto de divulgação da empresa - Divulgação Huawei/Reuters
A diretora financeira da Huawei, Meng Wanzhou, em foto de divulgação da empresa Imagem: Divulgação Huawei/Reuters

Márcio Padrão

Do UOL, em São Paulo

12/12/2018 09h21Atualizada em 13/12/2018 14h57

Um juiz canadense concedeu na noite desta terça-feira (11) a liberdade sob fiança de US$ 7,5 milhões à diretora financeira da Huawei, Meng Wanzhou, após ter sido presa no país a pedido dos Estados Unidos no dia 1º de dezembro. O caso provocou tensão entre os EUA e a China.

O anúncio aconteceu poucas horas depois da confirmação da detenção de um ex-diplomata canadense na China, Michael Kovrig, o que aumentou a crise.

"O risco de que não se apresente perante o tribunal (para uma audiência de extradição) pode ser reduzido a um nível aceitável, impondo as condições de fiança propostas por seu assessor", disse o juiz, aplaudido na sala do tribunal pelos partidários da empresa chinesa.

O valor da fiança foi fixado em 10 milhões de dólares canadenses (7,47 milhões de dólares americanos). Meng saiu da prisão poucas horas depois da ordem do juiz, informou o canal Global News .

As condições de libertação incluem a entrega de seus dois passaportes, que permaneça em uma de suas residências de Vancouver e use tornozeleira eletrônica. Além disso, não poderá se ausentar de casa entre as 23h e as 6h, segundo decisão do juiz.

A primeira audiência de extradição foi fixada para 6 de fevereiro. Os Estados Unidos têm 60 dias a partir da detenção de Meng, em 1° de dezembro, para proporcionar toda a documentação necessária ao procedimento.

Trump pode intervir

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou nessa terça-feira que poderá intervir no caso se isto ajudar a solucionar o conflito comercial com Pequim. "Faço qualquer coisa que seja boa para nosso país", disse Trump à agência Reuters.

"Se for necessário posso intervir se acreditar que isto será bom para o maior acordo comercial já feito; algo muito importante e bom para a segurança nacional".

O que é a Huawei e por que ela importa?

A Huawei foi fundada em 1988 em Shenzhen, na China. Seu foco é fornecer equipamentos para redes e telecomunicações, e se tornou a maior do mundo neste ramo, ao superar a sueca Ericsson em 2012. Mas nos últimos anos, tornou-se também a segunda maior fabricante de celulares do mundo, passando a Apple e ficando atrás apenas da Samsung.

No Brasil, a empresa não aparece tanto, por não vender smartphones, mas aqui vende equipamentos de infraestrutura de internet para operadoras grandes, como Vivo, Tim, Claro e Oi, além de empresas menores.

Quem é a diretora da Huawei que foi presa?

Meng Wanzhou é diretora financeira da Huawei e também filha do fundador da empresa, Ren Zhengfei. Ela ainda acumula o cargo de vice-presidente do conselho consultivo da empresa. Ou seja, é definitivamente um "peixe grande" da companhia.

Quando Wanzhou estava em um voo em Vancouver, no Canadá, foi provisoriamente detida em 1º de dezembro pelas autoridades do país em nome dos EUA, que por sua vez pediram a extradição dela para enfrentar acusações da Justiça norte-americana. A divulgação da prisão só ocorreu dias depois, no dia 5 de dezembro.

Por que ela foi presa?

John Gibb-Carsley, um advogado do Departamento de Justiça do Canadá, detalhou a acusação ao "The New York Times". Entre 2009 e 2014, a Huawei teria usado uma empresa de Hong Kong, a Skycom Tech, para fazer transações no Irã e fazer negócios com empresas de telecomunicações de lá, em violação às sanções americanas. Bancos dos EUA liberaram transações financeiras para a Huawei, portanto teriam sido "vítimas" de fraude.

Trump restabeleceu no mês passado todas as sanções dos EUA contra o Irã, que estavam suspensas desde 2015.

Em comunicado, a empresa afirmou que cumpriu "todas as leis e regulamentações aplicáveis onde opera, inclusive as leis e regulamentos de controle de exportação e sanções da Organização das Nações Unidas (ONU), Estados Unidos e União Europeia".

O que a Huawei tem a ver com espionagem?

No início deste ano, seis chefes das principais agências de segurança dos Estados Unidos, incluindo aí CIA, FBI e NSA, disseram a um comitê de inteligência do Senado americano que existe risco de espionagem em celulares fabricados pela Huawei.

O fundador da Huawei e pai de Meng Wanzhou, Ren Zhengfei, é ex-engenheiro do Exército de Libertação do Povo, que tem uma conexão com o Partido Comunista Chinês. Isso contribuiu para as suspeitas das agências de inteligência dos EUA.

Christopher Wray, diretor do FBI, disse se preocupar com os riscos de permitir que companhias ligadas a governos estrangeiros ganhe posições de poder em redes de telecomunicações dos EUA. A resposta da empresa: "A Huawei está ciente das diversas atividades do governo americano com o aparente objetivo de inibir seus negócios no mercado do país", declarou um representante.

Está seguro? Veja como ficar mais protegido online

Leia mais

Por que se fala em guerra comercial?

Há tempos que a China reclama que os EUA são injustos com suas grandes firmas de tecnologia, em particular a Huawei, que é a empresa chinesa que mais se aproxima de ser concorrente importante da Apple.

A prisão da executiva da Huawei foi no mesmo dia da "trégua" negociada no encontro do G20 --as 20 maiores nações do mundo em termos econômicos-- entre China e EUA. 

Trump se comprometeu a não elevar mais a alíquota de importação sobre US$ 200 bilhões de produtos chineses de 10% a 25%, enquanto o presidente da China, Xi Jinping, disse que aumentaria a compra de produtos dos EUA.

É claro que a prisão foi um balde de água fria neste acordo. "Banir empresas chinesas como a Huawei vai isolar os EUA da economia digital do futuro", diz uma manchete recente do The Global Times --o jornal estatal chinês.

Espera-se mais dificuldades de mercado para as gigantes americanas de tecnologia, que conseguiram estabelecer presença na China. Cerca de 20% das receitas do ano passado da Apple, por exemplo, vieram de lá.

"O fracasso em garantir uma abertura recíproca significa que as empresas deles não receberão qualquer benefício da economia digital da China", sentenciou o jornal chinês.

Enquanto Meng Wanzhou aguarda o julgamento da sua possível extradição, nesta terça-feira (11) o ex-diplomata canadense Michael Kovrig foi detido na China. Não ficou claro de imediato se os casos estão relacionados, mas a prisão de Wanzhou tem provocado temores de represálias contra a comunidade empresarial estrangeira na China.

De acordo com o jornal "South China Morning Post" de segunda (10), a Menpad, empresa responsável pela fabricação das telas LCD usadas nos smartphones da Huawei, anunciou que irá multar qualquer um de seus funcionários que comprar um iPhone. A multa será do mesmo valor pago pelo funcionário no celular. A regra já está em vigor.

* Com agências internacionais

Mais Negócios