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Arquivos digitais podem ajudar museus a preservar acervos?

O mundo digital poderia ter salvado da destruição o acervo do Museu Nacional? - Marcelo Dias / Futura Press / Estadão Conteúdo
O mundo digital poderia ter salvado da destruição o acervo do Museu Nacional? Imagem: Marcelo Dias / Futura Press / Estadão Conteúdo

João Paulo Vicente

Colaboração para o UOL Tecnologia

16/09/2018 04h00

Para qualquer pessoa, é muito simples preservar a própria memória. Basta subir umas selfies no Insta, escrever uns textões no Face ou carregar uns vídeos no YouTube. O mundo digital, então, poderia ser a solução para instituições que vivem de preservar memórias, como são os museus?

Claro, questionamentos do tipo ganharam mais força depois do incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro - o fogo levou 90% do acervo de 20 milhões de itens do Museu. Só que, por mais óbvia que pareça, a resposta não é tão simples.

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Rubens Ramos, museólogo especialista em acervos digitais e doutorando em Museologia e Patrimônio na Unirio, explica que são três as preocupações em relação à digitalização de acervos.

Primeiro, é que o formato do arquivo não pode ser proprietário - ou seja, não pode pertencer a uma empresa. Caso contrário, a instituição precisaria pagar pelo uso do formato. Ou seja, no caso brasileiro, museus que mal conseguem fazer a manutenção básica dos seus prédios teriam uma conta a mais para pagar por licenças de software

Além disso, os formatos proprietários tornariam os museus reféns das desenvolvedoras. Se decidissem encerrar suporte, o museu poderia acabar com um acervo digital impossível de ser acessado. 

modelo 3D Museu Nacional - Reprodução  - Reprodução
Alguns modelos em 3D do acervo no Museu Nacional estão disponíveis online
Imagem: Reprodução

Como os arquivos do seu telefone fazem questão de lembrar sempre que o espaço acaba, bens digitais precisam ser armazenados. Bom, isso exige a manutenção de servidores próprios. Ou a busca por serviços em nuvem privados, como o Google Drive.

Só que a guarda na nuvem é contraindicada pelo mesmo motivo dos formatos proprietários: as nuvens são de empresas. Empresas fecham, juntam-se, mudam modelo de negócios, passam por transformações, enfim, não garantem o futuro do acervo. Já pensou recorrer à nuvem de uma empresa e ela desaparecer? Você salvou suas fotos do Orkut? Nem é preciso dizer que o Brasil não tem uma nuvem pública de museus

Entram na conta também os aparelhos necessários para digitalização e mão de obra especializada para o trabalho.

Tem muito projeto de incentivo para digitalizar, mas não projeto de manutenção. Pensam que é só deixar guardado e acabou, mas tem que manter o acervo em constante processo de atualização, se não a gente perde para a obsolescência tecnológica

Rubens Ramos, museólogo especialista em acervos digitais e doutorando em Museologia e Patrimônio na Unirio

É um dilema. Por mais que formatos digitais possam ser reproduzidos com mais facilidade, nenhuma tecnologia é capaz de garantir sua longevidade. Por outro lado, por mais que sejam mais difíceis de trabalhar, suportes analógicos têm um processo de conservação melhor estabelecido. O cenário ideal, nesse caso, é aliar os dois mundos.

foto Índios Museu nacional - Reprodução - Reprodução
Foto digitalizada da coleção de Curt Nimuendajú, parte do acervo do Museu Nacional
Imagem: Reprodução

No Museu Nacional não havia uma política única de digitalização do acervo, assim como não havia padronização na maneira de armazenar esse material. Iniciativas do tipo eram realizadas de maneira descentralizada por curadores de cada coleção.

Nada que não seja comum no Brasil. O Instituto Brasileiro de Museus nunca publicou cartilha sobre digitalização de acervos. Já o Smithsonian, maior complexo de museus do mundo com uma coleção de 138 milhões de itens, lançou em 2010 um programa de digitalização do acervo.

A diferença é brutal: no ano passado o orçamento do Smithsonian foi de US$ 947 milhões. O do Museu Nacional R$ 445,5 mil.

Identificação

O pacote de desafios impostos pela digitalização não é simples. Outro deles exige a identificação do acervo no mundo digital

No Arquivo Nacional, a conversão para o mundo digital começou em 2003 com um investimento de R$ 1 milhão em valores da época. Só no ano passado, foram gastos quase R$ 554 mil. Ainda assim, é impossível pensar em passar para o computador o acervo completo.

Isso porque além do processo de fotografar, escanear ou converter um arquivo para formato digital, ainda é necessário identificá-lo de maneira adequada.

Nós falamos de digitalização, mas isso é só um aspecto das políticas digitais. Em alguns casos a digitalização é tão importante quanto descrever bem o que tem nos arquivos. Não só identificar, mas trazer informação

Marcos Galindo, professor do Departamento de Ciências da Informação da UFPE e coordenador do Laboratório Liber, que trabalha com tecnologia e memória.

O Arquivo Nacional tem o equivalente a 70 km de documentos, então é preciso estabelecer prioridades: quais itens são mais importantes, quais estão mais danificados e precisam ser preservados com urgência, quais não devem ser manuseados à mão e precisam estar disponíveis de outra forma e por aí vai.

No fim do dia, os recursos tecnológicos também são escassos. O armazenamento, por exemplo, é uma preocupação de primeira ordem - e olha que eles têm espaço por lá.

Todo o material digital do Arquivo Nacional está armazenado num banco de dados no Rio de Janeiro com capacidade para 1,1 Petabyte, espaço suficiente para guardar mais de 250 mil filmes de duas horas - o acervo de filmes da Netflix no Brasil é de 2.848 filmes. O backup também fica no Rio. 

Ajuda, mas não resolve

É claro que registros digitais não substituem peças únicas como o fóssil de Luzia, o ser humano mais antigo já encontrado nas Américas. Mas eles ajudam a preservar a memória dessas coleções. E, a depender do caso, podem até ser usadas em pesquisas.

Patrimônio material, como a gente chama, é tanto o objeto físico quanto o valor simbólico que atribuímos a esse objeto. A cópia mantém o valor simbólico, mantém a memória

Rubens Ramos

Quando falamos em cópia, falamos em um conceito chamado redundância. A cópia perde alguns aspectos do original, mas informação fica preservada. "Um objeto 3D é mais difícil, menos realista, mas ideia é preservar um fragmento da informação", explica Galindo.

Os arquivos digitais facilitam consultas às coleções e estudos desenvolvidos nas instituições, permitem pesquisas à distância e tornam mais simples monitorar o acervo.

Surpreendentemente, um exemplo de como a digitalização pode ajudar está no estudo de animais invertebrados

Michela Borges, coordenadora do Museu de Zoologia da Unicamp, conta que já é uma realidade entre as grandes coleções do mundo manter arquivos de imagens dos animais.

Em geral, as fotografias são feitas por especialistas que sabem exatamente qual estrutura precisa fotografar para deixar arquivado

Michela Borges, coordenadora do Museu de Zoologia da Unicamp

Bom, uma das coleções mais afetadas pelo incêndio foi a de invertebrados, mas ainda não é possível saber se os bichinhos estavam digitalizados.

Analógico

A mistura de ferramentas analógicas e digitais para salvar acervos é fundamental, mas em algumas coleções o mundo digital acaba salvando materiais produzidos por tecnologias analógicas que caíram em desuso. No Museu de Imagem e Som de São Paulo (MIS), é padrão a conversão de fitas de rolo com áudios gravados em décadas passadas para arquivos de consulta mais acessíveis. 

Nos EUA, o Lawrence Berkeley National Laboratory (LBNL) em parceria com a Biblioteca do Congresso norte-americana desenvolveu uma tecnologia para a recuperação e digitalização de gravações de áudio feitas em formatos como cilindros de cera - uma espécie de avô do disco de vinil! Usados no final do século 19, os cilindros correm o risco de estragar caso os originais sejam manuseados.

projeto Irene - Divulgação  - Divulgação
Cilindro de cera com áudios de índios do século 19 estão sendo digitalizados nos EUA
Imagem: Divulgação

Dessa maneira, 77 idiomas indígenas da Califórnia estão sendo preservados. 

No nosso Museu Nacional, as fotos de Curt  Nimuendajú são um exemplo de material difícil de ser acessado no formato original. Eram cerca de 500 negativos de vidro de fotografias de indígenas brasileiros. O problema é que com o tempo esses negativos mofam e ficam quebradiços - sem contar que pouquíssima gente sabe manusear essa material. 

A Funarte conseguiu escanear os negativos. Ainda assim, os arquivos digitais reproduziam algumas falhas e imperfeições. O passo seguinte seria restaurá-los, processo no qual seriam usados scanners e monitores de alta resolução específicos para a tarefa. No entanto, o equipamento queimou junto com o Museu.

Ou seja, a digitalização ajudou em partes. Todo o processo em torno desses arquivos sofria graves problemas de preservação. Tudo isso mostra que o mundo digital pode ser uma ferramenta importante, mas está longe de resolve os problemas de quem tem como missão cuidar da memória. 

Galindo explica bem esse mecanismo: “Memória é sistema periférico da sociedade. A economia tá lá em cima. É hierarquizado, se a economia se deprime, tudo se deprime, mas a memória se afeta primeiro. A gente tá nesse momento com o caso do Museu Nacional. A memória fica lá no final da rabeta”.