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Por que o Google Tradutor, em vez de traduzir, faz profecias religiosas?

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Imagem: Divulgação

Helton Simões Gomes

Do UOL, de São Paulo

22/07/2018 13h12

Palavras costumam esconder significados não usados com tanta frequência. Mas, a julgar pelo comportamento de uma das maiores ferramentas de tradução online, algumas delas possuem acepções totalmente desconhecidas. O Google Tradutor andou exibindo, no lugar de traduções literais, profecias religiosas, como a volta de Jesus Cristo, e citações de livros bíblicos, como o Deuteronômios. Isso porque a pesquisa era sobre o significado de “cão” (dog, em inglês) e do termo “ag”.

Antes que você ache que a ferramenta possui algum poder de premonição, saiba que a explicação está relacionada com a forma como o Tradutor funciona – e no porquê nem sempre ele é 100% confiável.

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O caso começou quando usuários do fórum online Reddit listaram uma série de comportamentos estranhos da ferramenta de tradução. Ao tentar traduzir uma sequência de “dog” escrito 19 vezes do maori para o inglês, o serviço respondia de forma profética:

“O Relógio do Juízo Final está a três minutos da meia-noite.” E completava: “Nós estamos experimentando características e acontecimentos dramáticos no mundo, o que indica que nós estamos cada vez mais nos aproximando do fim dos tempos e da volta de Jesus”.

Google Tradutor fez profecia religiosa ao receber pedido de tradução estranha - Reprodução/Google - Reprodução/Google
Imagem: Reprodução/Google

Quando tentavam traduzir “ag” do somali para o inglês, mais coisas estranhas. Obtiveram referências ao “nome do Senhor”, ao livro bíblico Deuteronômio e aos “filhos de Gérson”, o primeiro filho de Moisés, que, segundo a Bíblia, libertou os hebreus do julgo do Egito.

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Fantasmas, demônios ou invasão de privacidade?

É claro que logo surgiram teorias de que as traduções eram feitas por fantasmas, demônios ou eram fruto de uma suposta espionagem massiva do Tradutor sobre textos privados enviados por email ou mensagens. Nada disso é verdade, esclareceu um porta-voz do Google ao site “Motherboard”.

“O Google Tradutor aprende a partir de exemplos de traduções encontradas na web. O sistema não tem acesso nem usa ‘mensagens privadas’ para fazer suas traduções”, afirmou. E agora a revelação: “Isso é simplesmente uma função de incluir absurdos no sistema, o que acaba gerando esses disparates.”

O Tradutor permite que usuários incluam sugestões de traduções ao clicar no botão “sugerir uma edição”, criado, a princípio, para aperfeiçoar a ferramenta. Segundo o “Motherboard”, não está descartada também a possibilidade de funcionários terem incluído essas traduções bizarras.

Tradução neural

Só que, de acordo com o professor de Harvard Andrew Rush ouvido pelo site, os filtros internos da ferramenta deveriam captar ações surreais como essa. O mais provável, diz ele, é que isso seja fruto de uma técnica de inteligência artificial conhecida como “aprendizado de tradução neural”. É ela que faz o Tradutor funcionar.

Esse sistema funciona assim: recebe uma grande quantidade de textos, sempre em duas versões, uma na língua original e outro traduzido. A partir daí, ele tenta aprender como as correlações entre os dois textos foram feitas para criar um modelo próprio de tradução.

Como o sistema aprendeu previamente a lógica da comunicação humana, a resposta tende a segui-la. Isso explica por que as traduções estranhas, apesar de não guardar correspondência com o termo original, fazem sentido do ponto de vista gramatical.

Segundo o professor, o sistema está constantemente aprendendo e não tem resposta para tudo. Por isso, quando o Tradutor recebe pedidos absurdos, pode agir de forma inesperada e fornecer respostas tão surpreendentes quanto a pergunta. Deve ter sido isso o que ocorreu, afinal pedir que uma sequência de “dog” repetido 19 vezes seja traduzido, convenhamos, não é algo convencional.