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Facebook finalmente anuncia que vai remover notícias falsas

Facebook vai deletar notícias falsas. - Dado Ruvic/Reuters
Facebook vai deletar notícias falsas. Imagem: Dado Ruvic/Reuters

Fabiana Uchinaka

Do UOL, em Menlo Park (EUA)*

18/07/2018 15h59

O Facebook anunciou nesta quarta-feira (18) uma mudança importante na sua postura diante de conteúdos que reproduzem informações erradas ou boatos e vai passar a apagar esse tipo de postagem da rede social.

A tática de excluir posts será adotada, no entanto, apenas para conteúdos que possam causar danos físicos às pessoas, como falsas denúncias de crimes. Com isso, não correm o risco de serem excluídas postagens falsas ou enganosas sobre opiniões políticas, por exemplo.

Até agora, o Facebook aplicava outras medidas para penalizar posts que promoviam informações não verificadas. As punições iam da redução do alcance da publicação até a proibição de impulsionar o conteúdo por meio de pagamento.

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Outra ação da rede social para conter esse fenômeno foi financiar veículos de checagem de fatos, como os brasileiros Lupa e Aos Fatos.

Nenhuma das ações, porém, incluía a exclusão dessas publicações. O Facebook sempre sustentou que não poderia interferir na liberdade de expressão de seus usuários nem ser o editor do que publicavam - só interfere quando algum conteúdo infringe seus padrões de comunidade, como a regra que proíbe discurso de ódio e discriminação.

Reduzir a distribuição das notícias falsas é o melhor caminho para a liberdade de expressão. Mas vamos atualizar nossas políticas, porque reconhecemos que existem situações de usar as notícias para causar danos. Vamos começar a remover"

Tessa Lyons, chefe de integridade do News Feed do Facebook

Em diversos países, conteúdos que propagavam boatos tiveram consequências trágicas na vida das pessoas fora da internet. Na Índia, falsos alertas de sequestro espalhados pelo WhatsApp levaram à morte de dezenas de pessoas desde abril. Os suspeitos de cometer os raptos eram atacados por turbas que acreditavam fazer justiça com as próprias mãos. Apesar de o aplicativo de bate-papo ser um dos serviços do Facebook, a decisão anunciada nesta quarta vale apenas para a rede social.

Por isso, Lyons diz que as exclusões de postagens inverídicas começarão por países onde o fenômeno das notícias falsas tem consequências reais para as pessoas, como o Sri Lanka, onde boatos alimentavam o ódio de budistas contra muçulmanos.

Apesar de o Brasil não ter sido incluído na lista dos países em que as remoções ocorrerão de imediato, já houve casos de informações falsas terem motivado agressões físicas. Em 2014, uma mulher foi linchada no Guarujá por pessoas que acreditavam que ela sequestrava crianças para realizar rituais de magia negra. Os agressores se basearam em notícias falsas espalhadas por uma página no Facebook.

"O que faz tão desafiador é determinar as intenções [do boato]. Estamos começando hoje, trabalhando com organizações civis, mas não temos todas as respostas. O mesmo conteúdo distribuído em diferentes regiões tem diferentes consequências", explicou Lyons.

"Separar boato de discurso de ódio é uma desafio. É muito complexo. Em linhas gerais, seguimos as leis locais — por exemplo, a Alemanha. E seguimos regras gerais de evitar ataques a determinados grupos de pessoas", completou.

Segundo o Facebook, o time que controla e analisa os conteúdos da rede social que são denunciados já dobrou de tamanho e está dobrando de novo. Ainda assim, os usuários têm papel importante nesse processo.

"Não podemos fazer sozinhos, por isso precisamos do reporte da sociedade civil", disse Sara Su, gerente de produto do News Feed do Facebook.

A distribuição do conteúdo é o que faz do Facebook único. Por isso, o novo foco principal é controlar a distribuição. Quando fazemos reuniões e analisamos o comportamento que elas têm no feed, as pessoas nos contam que elas usam o Facebook para se conectar com amigos e familiares e para se atualizar sobre eles, então é isso que vamos priorizar

John Hegeman, chefe de NewsFeed do Facebook

"Isso significa diminuir o alcance de páginas, notícias e também informações mentirosas", diz Hegeman.

O Facebook tem recebido pressão de veículos de imprensa por conta da atuação moderada em relação a páginas que tem viés panfletário, sem comprometimento algum com a verdade.

Um exemplo é o Infowars, página americana com 900 mil curtidas que espalha boatos e nega fatos - eles dizem, por exemplo, que o Holocausto não aconteceu e o tiroteio na escola Sandy Hook, que teve 28 mortos, foi uma encenação das crianças. Embora deliberadamente falso, esse tipo de conteúdo seguirá na plataforma, mas terá sua distribuição reduzida.

Tal postura é endossada por Mark Zuckerberg, executivo-chefe e fundador da rede social. Em entrevista publicada nesta quarta-feira, ele reforçou essa ideia ao site "Recode". "Eu sou judeu e há um grupo de pessoas que negam que o Holocausto aconteceu. Eu acho isso profundamente ofensivo. Mas no final das contas, não acredito que nossa plataforma deva derrubar isso porque acho que há coisas que diferentes pessoas entendem errado. Eu não acho que elas estão errando intencionalmente", disse Zuckerberg.

No evento em Menlo Park, a empresa também prestou esclarecimentos sobre outro tema que causou controvérsia recente: interferência externa em eleições.

Para incidentes como o causado por agentes russos na eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, o Facebook vai adotar uma nova postura também para os anúncios pagos exibidos na plataforma.

Além de poder filtrar qualquer anúncio ativo de qualquer país do mundo, com a ajuda de uma ferramenta dentro do Facebook, as propagandas políticas (de um candidato ou com menção a um candidato) receberão uma marcação especial.

"Estamos investindo muito esforço em anúncios políticos e deixando mais transparente, vamos começar isso agora na eleição do Brasil", explicou Rob Leathern, diretor de produtos da empresa.

Os internautas podem usar a ferramenta e também marcar um conteúdo como político para análise dos moderadores.

*a repórter viajou a convite do Facebook