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Inteligência artificial redefine o humano, diz estudioso em "Blade Runner"

Cena de "Blade Runner" (1982), clássico do cinema baseado em conto de Philip K. Dick - Reprodução
Cena de "Blade Runner" (1982), clássico do cinema baseado em conto de Philip K. Dick Imagem: Reprodução

Márcio Padrão

Do UOL, em São Paulo

30/01/2018 04h00

Você pode nunca ter ouvido falar do autor americano Philip K. Dick (1928-1982), mas certamente já se divertiu com alguma de suas ideias. Suas histórias inspiraram filmes como "Blade Runner" e "Minority Report" e séries como "The Man in the High Castle" e "Electric Dreams". Seu trabalho foi adaptado ao cinema e à TV mais do que qualquer outro autor de ficção científica, e um de seus maiores estudiosos acredita que suas histórias foram o pontapé para um debate sobre como robôs e inteligências artificiais nos obrigarão a redefinir o que significa ser humano.

Invenções assim são capazes de alterar radicalmente nossa realidade. É esse "papo-cabeça" que o físico espanhol Salvador Bayarri pretende trazer para São Paulo, durante a palestra que dará na quinta-feira (1º), na Campus Party 2018.

24.jan.2018 - O físico, escritor e estudioso da obra de Philip K. Dick, o espanhol Salvador Bayarri - Divulgação - Divulgação
O físico, escritor e estudioso da obra de Philip K. Dick, o espanhol Salvador Bayarri
Imagem: Divulgação

"Ele estava bem à frente de seu tempo. A maior parte da ficção nos anos 1950 e 1960 era sobre alienígenas e aventuras espaciais", conta ele, que estuda a obra de Dick há mais de 15 anos. "Suas ideias influenciaram o movimento cyberpunk e filmes populares como 'Matrix' e programas de TV como 'Westworld' e 'Black Mirror'".
 

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O futurista "Minority Report", de 2002, foi um dos grandes destaques da ficção científica na carreira de Steven Spielberg. Na trama, Tom Cruise vive um policial do futuro que acaba sendo acusado por um assassinato que "ainda não cometeu" - Divulgação - Divulgação
"Minority Report" (2002), dirigido por Steven Spielberg e estrelado por Tom Cruise
Imagem: Divulgação

UOL - Como Philip K. Dick inspirou a ciência atual?

SB - Há duas áreas em que a visão de Dick é relevante para a ciência. Primeiro, ele podia ver que androides e inteligência artificial nos obrigariam a redefinir o que significa ser humano. Sua resposta foi que a empatia é o ingrediente-chave, independentemente da base física ou biológica. Algoritmos superam as pessoas em jogos e resolvem problemas complexos, mas ainda estão longe de passar em um teste de empatia realista.

Uma IA (inteligência artificial) mais empática é essencial para aplicações como veículos autônomos ou sistemas de cuidados de saúde, em que a comunicação com as pessoas é importante e as decisões sobre vida e morte devem ser feitas.

A segunda área em que Dick deve ser uma inspiração é a consideração da realidade virtual como um conceito que deve abranger não só a tecnologia da informação, mas também a ciência social e cerebral. Na visão de Dick, a realidade é uma construção produzida como uma alucinação compartilhada, preenchida com memórias ou crenças verdadeiras ou falsas, crenças, sonhos e medos. Não se trata apenas de exibições montadas na cabeça, mas sobre como os dados e as interpretações que recebemos são filtrados e manipulados.

blade runner 2049 - Divulgação - Divulgação
Cena de "Blade Runner 2049", continuação do clássico de 1982
Imagem: Divulgação

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UOL - O que acha dos recentes avanços em inteligência artificial e robótica? Precisamos de mais controle dos governos sobre isso?

SB - Acho que estamos atingindo um estágio crítico e é importante pensar sobre o uso dessas tecnologias. Do mesmo modo que proibimos armas biológicas e químicas e tentamos controlar arsenais nucleares, os esforços para proibir o uso ou "robôs assassinos" e outras armas autônomas são necessários antes que o uso desses aparelhos se espalhe para todos os tipos de mãos

As aplicações de inteligência artificial estão crescendo exponencialmente. Algoritmos agora aprendem com outros algoritmos e podem evoluir por si mesmos. Não é algo que podemos parar, porque precisamos destas tecnologias, mas é uma boa ideia pensar sobre o que pode dar errado e tentar evitar. 

A Comissão dos Assuntos Jurídicos do Parlamento Europeu apresentou um relatório sobre as regras de direito civil em robótica, inspirado nas Três Regras da Asimov. A importante discussão que devemos ter não é apenas sobre "robôs assassinos", mas também sobre como os empregos e decisões automáticos vão mudar a economia e como os impostos, as normas trabalhistas e todo o contrato social precisam se adaptar a essa transformação.

Anna Paquin em cena do episódio "Real Life", da série da Amazon "Electric Dreams" - Divulgação - Divulgação
Série da Amazon "Electric Dreams" também se inspira em contos de Philip K. Dick
Imagem: Divulgação

UOL - Acha que estamos perto de obter o mesmo nível de excelência dos replicantes do Blade Runner?

SB - Replicantes --"androides" era o termo original usado por Dick-- são seres biológicos aprimorados com memórias e sentimentos artificiais. Estamos longe de projetar e construir algo como eles, seja biológico ou mecânico. No entanto, como queremos prolongar nossas vidas e também precisamos nos adaptar à vida no espaço e às mudanças no ambiente da Terra, é provável que a raça humana evolua para subespécies híbridas combinando órgãos e componentes artificiais e reforçados.

UOL - Stephen Hawking e outros cientistas estão certos de ter medo dos futuros robôs?

SB - Penso que eles estão certos em se preocupar e empenhar as nações a pensar sobre isso. Como Stanislaw Lem e outros autores de ficção científica sugeriram, as IAs evoluirão mais rapidamente do que nós. Em algum momento, será difícil para nos comunicar e entender esses sistemas complexos. Precisamos ter cuidado, adicionando salvaguardas às IAs da mesma forma que adicionamos verificações de segurança e de emergência em usinas nucleares. Nossa melhor chance, como Dick pode dizer, é construir empatia nesses "seres", para torná-los tão humanos quanto somos, ou mais.

A série "The Man in the High Castle", baseado no livro homônimo de Philip K. Dick, retrata como seria o mundo caso Hitler tivesse ganhado a guerra - Reprodução - Reprodução
Série da Amazon "The Man in the High Castle", baseada em conto de Philip K. Dick, retrata como seria o mundo se o nazismo tivesse vencido
Imagem: Reprodução

UOL - As previsões de Dick estão se tornando realidade?

SB - A ficção científica não tenta prever o futuro. É uma maneira de imaginar o que poderia acontecer e talvez nos ajude a aprender algo antes disso. Mas o futuro nunca se realiza como imaginamos. Hoje, vemos como nossa realidade pode ser moldada, pelas redes sociais ou por forças determinadas a influenciar nossas corações e mentes para seus interesses. Confirmar nossas crenças pela escolha das fontes "corretas" é um mecanismo de distorção tão poderoso quanto as drogas e "feixes de informação" que Dick usou em suas histórias.

Cena de "O Vingador do Futuro", de Paul Verhoeven - Divulgação - Divulgação
Cena de "O Vingador do Futuro" (1990), estrelado por Arnold Schwarzenegger
Imagem: Divulgação

UOL - Qual é a sua adaptação favorita das histórias de Dick para outra mídia?

SB - Crescendo nos anos oitenta, para mim, os originais "Blade Runner" e "O Vingador do Futuro" estabeleceram um padrão muito alto, não porque fossem completamente fieis, mas porque conseguiram tirar os elementos mais profundos da visão de Dick e aprimorá-los. Muitas vezes, a ação adicional e os efeitos especiais ocultam grande parte das ideias básicas, como em "Minority Report". Estou gostando muito da série de TV "Electric Dreams". É uma excelente adaptação de suas histórias curtas.

Saiba mais sobre o universo dos filmes "Blade Runner"

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