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''Stalker'' sente desejo incontrolável de seguir vida alheia pela internet, diz especialista

""Uma vez por dia é mais que suficiente para acompanhar o outro de uma maneira saudável, desde que isso não seja feito como um ritual"", alerta a psicóloga Katty Zúñiga - Getty Images
''Uma vez por dia é mais que suficiente para acompanhar o outro de uma maneira saudável, desde que isso não seja feito como um ritual'', alerta a psicóloga Katty Zúñiga Imagem: Getty Images

Ana Ikeda

Do UOL, em São Paulo

14/06/2013 06h01

Ter a curiosidade de olhar perfis em redes sociais, principalmente de ex-namorados ou pretendentes, é um hábito comum. O problema é quando o “seguir” vira “perseguir” (ou “stalking”, em inglês). Para saber a diferença entre esses comportamentos na internet, o UOL Tecnologia entrevistou Katty Zúñiga, psicóloga do NPPI (Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática) da PUC-SP.

Segundo ela, o alerta é dado quando a pessoa deixa de lado tarefas cotidianas para vigiar a vida alheia – seja dentro ou fora das redes sociais. “É normal e muito comum ter curiosidade sobre o que o ex faz ou com quem está saindo. São curiosidades naturais. Mas, se este comportamento é constante e feito várias vezes ao dia, com a intenção de vigilância, aí sim falaríamos de uma pessoa obcecada por outra”, explica.

Se a pessoa sente uma necessidade incontrolável de ficar a par de tudo o que o outro está fazendo, diz a especialista, isso é sinal do comportamento obsessivo associado aos “stalkers”. “Uma vez por dia é mais que suficiente para acompanhar o outro de uma maneira saudável, desde que isso não seja feito como um ritual”, alerta.

Veja abaixo a entrevista na íntegra com a psicóloga:

UOL Tecnologia – É normal acompanhar as atividades de alguém, como ex-namorados ou ‘pretendentes’, nas redes sociais?

Katty Zúñiga – A princípio, é normal e muito comum ter curiosidade sobre o que o ex faz ou com quem está saindo. São curiosidades naturais. Mas, se este comportamento é constante e feito várias vezes ao dia, com a intenção de vigilância, aí sim falaríamos de uma pessoa obcecada por outra, o que seria um distúrbio.

Vídeo: como se comportam os ''perseguidores'' na internet

UOL Tecnologia – Seria possível precisar quantas vezes por dia é normal olhar o perfil de outra pessoa na internet?

Katty – Não dá para quantificar isso. Depende muito da personalidade de cada um. Mas, se a pessoa sente uma necessidade incontrolável de ver tudo o que o outro está fazendo, novamente diríamos que é um comportamento obsessivo. Agora convenhamos: uma vez por dia é mais que suficiente para acompanhar o outro de uma maneira saudável, desde que isso não seja feito como um ritual.

UOL Tecnologia – Quando a curiosidade passa a ser um comportamento doentio? Há um ponto de alerta facilmente identificável?

Katty – Deixa de ser uma curiosidade e passa a ser um comportamento doentio quando justamente a pessoa perde o controle e deixa de fazer suas atividades cotidianas para poder ficar vigiando o outro.

UOL Tecnologia – Acordar de manhã  e olhar imediatamente o perfil do outro na rede social faz da pessoa um “stalker”?

Katty – Provavelmente sim. Não há nada que o outro tenha feito que exija tamanha urgência para o acompanhamento. Exceto em casos muito específicos, como, por exemplo, o nascimento de um bebê previsto para aquela manhã. Também não há nenhum problema fazer isso de forma esporádica, quando se acorda pensando naquela pessoa.

UOL Tecnologia – Ter um perfil falso para bisbilhotar o perfil dos outros é indício que a pessoa é uma perseguidora online?

Katty – Novamente sim, porque, se você quer saudavelmente saber o que está acontecendo com uma pessoa, você pode usar seu próprio perfil. Se você está usando um perfil fake, isso já sugere que você está querendo ter acesso a uma informação que você não deveria ter.

UOL Tecnologia – Se a pessoa olha o perfil de outra pessoa e se sente mal (com ciúme, triste, chateado), é sinal de “stalking”?

Katty – Não necessariamente. Você pode visitar o perfil de uma pessoa uma única vez e sentir ciúme, por exemplo. E isso não seria stalking.

UOL Tecnologia – Se a pessoa passa a mandar mensagens com frequência para a pessoa nas redes sociais, isso faz dela uma perseguidora online?

Katty – Provavelmente sim, se elas forem injustificadas e principalmente contra a vontade do outro. É diferente, por exemplo, de mensagens trocadas em um grupo de trabalho.

UOL Tecnologia – Existe um limite de contato para não parecer um ''stalker''? Uma vez por dia? Duas no máximo?

Katty – Não. Isso depende do bom senso de um lado e de quando o outro lado passa a sentir sua privacidade invadida.

UOL Tecnologia – Como a pessoa pode evitar se tornar uma perseguidora nas redes sociais?

Katty – Um stalker em rede social é um stalker fora dela, ou seja, a rede social é apenas uma ferramenta que facilita esse comportamento. Se você sente necessidade de seguir alguém, reflita por que está fazendo isso, qual o sentido dessa atitude.

Comportamentos semelhantes acontecem quando se é criança, porém de maneira pontual e fugaz, quando uma criança tenta imitar a outra. Isso faz parte do desenvolvimento, já que ele demostra a preocupação de pertencer ao grupo. Claro que, à medida que a criança vai crescendo, ela vai usando cada vez mais seus próprios recursos para se individualizar.

Se uma pessoa com mais idade se vê fisgada por esse desejo de perseguição, provavelmente alguma outra coisa na sua vida não está bem e precisa ser cuidada. Nesse caso, o melhor a ser feito é procurar a ajuda de um psicólogo.

UOL Tecnologia – Se a pessoa percebe que se comporta como “stalker”, o que a pessoa pode fazer em primeiro lugar para tentar sair desse comportamento doentio?

Katty – Vale aqui a resposta anterior também. A primeira coisa é ter consciência de que o problema existe: esse já é um bom primeiro passo para querer modificar e melhorar. Nesse caso, a ajuda profissional de um psicólogo será muito benéfica.