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O que faz a obscura empresa japonesa que torna o iPhone melhor a cada ano

Pavel Alpeyev e Yuki Furukawa

13/03/2019 04h00

Após duas décadas de desenvolvimento, fabricantes de chips estão fazendo uma aposta cara em uma tecnologia que vai colocar ainda mais transistores no silício. Seu sucesso pode depender de uma empresa pouco conhecida dos subúrbios de Tóquio.

Os consumidores pressupõem que os smartphones continuarão ficando mais finos, potentes e baratos, mas as empresas de chips não estão encontrando novas maneiras de gravar padrões de circuitos cada vez menores no silício.

A Lasertec é a única fabricante mundial de equipamentos que testa quadrados de vidro um pouco maiores que uma capa de CD que funcionam como um estêncil para design de chips.

Quando a luz é projetada através desses quadrados, circuitos menores que a largura de alguns filamentos de DNA são impressos em wafers de silício em um processo chamado litografia.

Pixabay
Imagem: Pixabay

Esses modelos precisam ser perfeitos: até mesmo um pequeno defeito pode inutilizar todos os chips do lote.

Após anos de contratempos, o setor aposta na litografia com luz ultravioleta extrema (EUV, na sigla em inglês), que usa plasma como fonte de luz para desenhar linhas de menos de 7 nanômetros. Este é o tamanho visto no chip A12 Bionic da Apple, presente no iPhone XS e XR.

Em 2017, a Lasertec, com sede em Yokohama, no Japão, desvendou a última peça do quebra-cabeça quando criou uma máquina para verificar a existência de falhas internas em máscaras EUV virgens, o que lhe garantiu um monopólio. As ações da empresa triplicaram desde então.

A Lasertec já recebeu encomendas que totalizam 4 bilhões de ienes (US$ 36 milhões) das máquinas que testam máscaras EUV virgens, segundo o presidente da Lasertec, Osamu Okabayashi.

A companhia poderá ver vendas adicionais já no terceiro trimestre, dependendo da rapidez com que a Samsung Electronics e a Taiwan Semiconductor Manufacturing aumentem a produção em massa, disse ele. A Lasertec fechou com alta de 5,2 por cento em Tóquio nesta terça-feira, o maior ganho desde o início do mês.

"Passamos seis anos desenvolvendo esse equipamento", disse Okabayashi em entrevista. "Neste momento, ele se tornou um padrão do setor, e seria muito difícil que alguém entre nesse espaço."

Uma máscara EUV, um sanduíche com cerca de 80 camadas alternadas de silício e molibdênio, pode chegar a custar US$ 100.000. Apenas duas empresas - as fabricantes de vidro Hoya e AGC, ambas do Japão - fabricam as peças virgens. As máquinas da Lasertec podem detectar problemas desde o início, o que é fundamental para tornar o custo da tecnologia competitivo. "Para EUV, as máscaras precisam ser perfeitas", disse Okabayashi.

A litografia EUV é tão complexa e cara que até agora apenas a Samsung e a TSMC anunciaram que vão usá-la para passar à fabricação de chips de 7 nanômetros. A Intel adiou a introdução dessa tecnologia, e dificuldades para tornar a EUV economicamente viável levaram a Globalfoundries a abandoná-la completamente.

A Samsung afirmou que a mudança permite usar a área de chips com 40 por cento mais eficiência, melhora o desempenho em 20 por cento e reduz o consumo de energia pela metade. O processador de 7 nanômetros da Apple é fabricado pela TSMC e é especializado em aplicações de aprendizagem de máquina. Nos últimos meses, Qualcomm e Huawei Technologies revelaram um chip de 7 nanômetros que alimentará os dispositivos 5G.

Levará algum tempo para que o impacto dos novos pedidos apareça nos resultados da Lasertec, porque os testadores de máscaras EUV virgens demoram cerca de dois anos para serem construídos. A companhia prevê que as vendas aumentarão 32 por cento, para 28 bilhões de ienes, no período de 12 meses terminado em 30 de junho e que a receita operacional crescerá 14 por cento. A receita poderia dar um salto de 50 por cento no próximo ano fiscal e o lucro poderia dobrar, de acordo com estimativas de analistas.

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