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O saco de dormir hi-tech que pode resolver problema de olhos 'esmagados' de astronautas

O saco de dormir tem uma estrutura sólida e suga líquido do cérebro para os pés - UTSouthwestern Medical Center
O saco de dormir tem uma estrutura sólida e suga líquido do cérebro para os pés Imagem: UTSouthwestern Medical Center

Paul Rincon

Editor de ciência da BBC News

11/12/2021 13h37

Cientistas desenvolveram um saco de dormir hi-tech que pode prevenir problemas oculares que alguns astronautas têm tido morando no espaço.

Em ambiente de gravidade zero, os fluidos flutuam dentro da cabeça e comprimem o globo ocular com o tempo. Isso é tido como um dos problemas de saúde mais perigosos que afetam astronautas e alguns especialistas consideram que possa impedir missões a Marte.

O saco de dormir equilibra o líquido da cabeça e o transporta até os pés, controlando o aumento da pressão. Ele foi desenvolvido por Benjamin Levine, professor de medicina do Southwestern Medical Center, da Universidade do Texas, em Dallas. Levine está trabalhando para transferir o equipamento para a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês).

A Nasa, a agência espacial americana, registrou problemas de visão em mais da metade dos astronautas que passaram pelo menos seis meses na ISS. Alguns desenvolveram dificuldades para ver de longe, para ler e precisaram de ajuda para completar experimentos da missão espacial.

"Não sabemos quais podem ser os efeitos no caso de uma viagem mais longa ao espaço, como uma operação de dois anos em Marte", disse Levine, que também é diretor do Institute for Exercise and Environmental Medicine.

"Seria um desastre se astronautas tivessem comprometimentos sérios a ponto de não conseguirem enxergar o que estão fazendo, comprometendo a missão."

Astronauta Serena Auñón-Chancellor examina seus olhos com um dispositivo chamado Funduscope, na Estação Espacial Internacional - NASA - NASA
Astronauta Serena Auñón-Chancellor examina seus olhos com um dispositivo chamado Funduscope, na Estação Espacial Internacional
Imagem: NASA

Em 2005, o astronauta John Philips iniciou sua missão na ISS com visão normal, também chamada de visão 20/20, e retornou seis meses depois com visão 20/100, ou seja, com capacidade de ver a 20 metros de distância o que um olho normal conseguiria enxergar a 100 metros.

Outros tiveram versões menos graves do problema. Na Terra, a gravidade puxa para baixo os fluidos do corpo toda vez que uma pessoa levanta da cama- algo conhecido como "descarga". Mas, no espaço, a baixa gravidade permite que meio galão de fluidos corporais se acumule na cabeça, gerando pressão sobre os globos oculares.

Isso pode gerar uma condição chamada "síndrome neuro-ocular associada a viagem espacial" (spaceflight-associated neuro-ocular syndrome) ou SANS, na sigla em inglês. Isso, por sua vez, pode levar ao progressivo achatamento da parte de trás do globo ocular, inchaço do nervo ótico e comprometimento da visão.

"A pressão em gravidade zero é sempre menor que a pressão em gravidade um. Mas ela não é tão baixa quanto quando você está de pé. Esse é o problema- normalmente nós passamos um terço do tempo deitados de noite e dois terços de pé durante o dia. Os astronautas da Nasa não podem ficar de pé durante o voo", explicou Levine à BBC News.

Pressão constante

Embora a pressão do cérebro numa pessoa deitada na Terra seja levemente maior que a de alguém deitada no espaço, os astronautas vivenciam uma pressão constante e não conseguem aliviá-la ficando na posição vertical.

"Eles nunca têm a oportunidade de 'descarregar' (o fluxo de fluidos) do cérebro. Então, nós perguntamos: 'será que podemos reintroduzir o gradiente gravitacional'?, diz Levine.

O saco de dormir é acoplado ao redor da cintura da pessoa, cobrindo a parte de baixo do corpo com uma moldura sólida.

Benjamin Levine diz que, sem a tecnologia do saco de dormir, acúmulo de líquido na cabeça pode acabar impedindo missões espaciais longas, como uma viagem tripulada a Marte - DAVID GRESHAM - DAVID GRESHAM
Benjamin Levine diz que, sem a tecnologia do saco de dormir, acúmulo de líquido na cabeça pode acabar impedindo missões espaciais longas, como uma viagem tripulada a Marte
Imagem: DAVID GRESHAM

Um dispositivo de sucção, que funciona sob o mesmo princípio de um aspirador de pó, cria uma diferença de pressão que faz deslocar o fluido para os pés. Isso evita que o líquido se acumule no cérebro e "esmague" os olhos.

Algumas perguntas precisam ser respondidas antes de essa tecnologia ser usada rotineiramente, como o período de tempo que os astronautas devem passar dentro do dispositivo a cada dia.

"Será que todos precisam fazer isso ou só pessoas predispostas a desenvolver SANS? Você precisa fazer isso assim que chega ao espaço ou pode esperar para ver se sua visão muda?", exemplificou Levine, ao falar das perguntas ainda sem reposta. "Esse tipo de coisa ainda precisa ser definido."

Mas Levine diz que a criação do saco de dormir significa que o SANS poderá deixar de ser um risco para a saúde na futura missão da Nasa ao Planeta Vermelho.

Pessoas que tiveram câncer e sobreviveram tiveram papel crucial em esclarecer as causas dessa condição médica. Os voluntários ainda estavam com acessos na cabeça usados para aplicar os medicamentos da qumioterapia, e isso permitiu que os cientistas medissem a pressão no cérebro enquanto passavam alguns segundos em simuladores de voo à gravidade zero.

Uma dúzia de outros voluntários testaram a tecnologia em si. Os cientistas fizeram medições enquanto eles estavam deitados com e sem o saco de dormir. Os pesquisadores descobriram que, enquanto três dias deitando na horizontal eram suficientes para alterar levemente o formato do globo ocular, nenhuma mudança ocorreu quando a tecnologia de sucção foi utilizada.

Um time de pesquisadores do Southwestern Medical Center já tinha descoberto anteriormente que a microgravidade fazia o coração encolher no espaço, podendo causar uma condição chamada fibrilação atrial- uma espécie de arritmia cardíaca.

É possível que o saco de dormir também possa ajudar a controlar o fluxo sanguíneo anormal que aumenta o risco de batimento irregular do coração em baixa gravidade. Pesquisa sobre isso foi publicada no jornal acadêmico JAMA Ophthalmology.