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Carne artificial: os cientistas britânicos que estão criando bacon em laboratório

Helen Briggs - Repórter de ciência e meio ambiente da BBC News

20/03/2019 11h28

Pesquisas com proteína animal de laboratório buscam um futuro em que não precisemos abater animais para nos alimentar; além disso, reduz emissões e consome menos água.

Cientistas britânicos da Universidade de Bath estão dando novos passos em direção à produção de carne artificial, com o cultivo em laboratório de células animais.

Se o processo puder ser reproduzido em escala industrial, é possível que amantes de carne venham a ter à sua disposição um suprimento infinito de bacon, mas sem a necessidade de obtê-lo com o abate de animais.

A engenheira química Marianne Ellis, líder do projeto na Universidade de Bath, acredita que a carne artificial possa ser, mais adiante, "uma fonte alternativa de proteína para alimentar o mundo". Em seu laboratório, ela cultiva células de porco que podem, algum dia, levar à produção de bacon.

No futuro, a expectativa é de que, a partir da biópsia de um porco, seja possível isolar suas células-tronco, criar mais células a partir destas e colocá-las em um biorreator que as expanda. Assim, é possível obter um generoso suprimento de bacon - e o porco contunua vivo.

No entanto, ainda serão necessários anos de pesquisa para replicar o sabor e a textura idênticos ao bacon original.

Experimento com grama

Proteínas animais reproduzidas em laboratório ainda não estão no mercado, mas são amplamente estudadas pela ciência. Em 2013, uma equipe holandesa criou o primeiro hambúrguer de laboratório, enquanto cientistas em Israel produziram um bife com células criadas em laboratório em 2018. Ao mesmo tempo, uma empresa americana chamada Just afirmou que seus nuggets de frango, feitos a partir de células de penas de galinhas ainda vivas, em breve estarão disponíveis em restaurantes.

De volta a Bath, para criar a estrutura da carne artificial, a equipe de Ellis está conduzindo seus experimentos com algo natural: grama.

Os pesquisadores cultivam células de roedores sobre "andaimes" de grama.

"A ideia é, basicamente, dar 'grama para nossas células comerem', em vez de dar grama para uma vaca e daí comer a vaca", explica Scott Allan, estudante de pós-graduação em engenharia química e participante do projeto.

Para o resultado final disso não ser puramente um tecido de músculo, os cientistas buscam formas de acrescentar células de gordura e outras células conectoras que ajudem a dar mais gosto e textura à proteína.

Outro desafio futuro é produzir carne do tipo em larga escala para fins comerciais.

"Estamos tentando projetar biorreatores, e o processo biológico em torno desses reatores, para cultivar células de músculo em larga escala, de um modo que seja econômico, seguro e de alta qualidade", diz Ellis. "Assim conseguiríamos fornecer as células de músculo como carne de laboratório para todas as pessoas que queiram consumi-la."

Ela almeja que as "células primárias" desse processo venham de um animal vivo ou recém-abatido, ou então de células "imortalizadas" deles, que continuem a se dividir e multiplicar. "Com isso, não seria necessário abater animais, (já que) teríamos uma célula imortal que poderia ser usada para sempre."

Não mata, não polui e gasta menos água

A expectativa de pesquisadores é de que a carne in vitro atraia pessoas preocupadas com o abatimento de animais e com os impactos ambientais causados pela pecuária de larga escala.

Richard Parr é diretor-gerente na Europa do Instituto Good Food (boa comida, em tradução livre), uma ONG que promove alternativas para a produção agrícola tradicional.

Na opinião dele, a carne artificial também tem a potencial vantagem de usar muito menos água e espaço do que a pecuária atual, além de produzir menos dióxido de carbono, poupar bilhões de animais de sofrimento e ajudar a combater problemas de contaminação alimentar.

Alguns estudos, no entanto, apontam que talvez a produção de carne artificial consuma mais energia do que a produção de carne natural - embora essa conta não leve em consideração o uso de água e de terra para criar gado.

Segundo Marianne Ellis, apesar disso, a maioria das projeções atuais parecem indicar que a proteína in vitro deve reduzir a emissão de gases do efeito estufa.

Ela também acredita que, no futuro, seu projeto vai conviver com a agricultura e a pecuária tradicionais.

Mudanças futuras

Illtud Dunsford, cofundador com Ellis da start-up de biotecnologia Cellular Agriculture, vem de uma longa linha familiar de agricultores tradicionais no País de Gales, mas defende que, no futuro, será necessário alocar mais terras para a proteção natural, reduzindo (sem eliminar) o espaço destinado a criação de gado.

"Na minha pequena fazenda no oeste do País de Gales, idealmente gostaria de ver a manutenção de uma série de raças tradicionais de gado em uma escala muito pequena, e com níveis de bem-estar (animal) excepcionalmente altos", opina ele.

"O produto derivado de seu uso no gerenciamento de terras - seja para limpar a terra ou para restaurar pastos - seria a colheita de células para cultivar carne artificial."

Acredita-se que a carne in vitro não estará pronta para a comercialização em grande escala por pelo menos mais cinco anos. Resta saber se as pessoas terão vontade de comê-las - uma pesquisa feita no Reino Unido apontou que 20% dos consumidores gostariam de experimentá-las; 40% não gostariam; e os 40% restantes não têm opinião formada. Em geral, pessoas mais jovens e moradores de áreas urbanas demonstraram mais interesse no produto.

https://www.youtube.com/watch?v=1vpkKiN_y7I

https://www.youtube.com/watch?v=ug2cXtlvJA8&t=3s

https://www.youtube.com/watch?v=YufygaaK5sE

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