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Irmão 'gêmeo' da Terra, planeta Vênus não teve condições de abrigar água

Em Paris

15/10/2021 16h21

O planeta Vênus, "gêmeo" da Terra, nunca abrigou água devido a suas condições de temperatura e pressão, o que reduz a possibilidade de que em algum momento tenha havido vida nele, revela um estudo baseado em modelos climáticos precisos.

"Provavelmente subestimamos os requisitos necessários para que haja água em planetas como a Terra ou Vênus, e até mesmo em exoplanetas", explicou à AFP o astrofísico e climatologista Martin Turbet, do Observatório Astronômico da Universidade de Genebra.

Sabemos hoje, por meio de explorações e sondas, que, por exemplo, Marte já foi coberto por grandes extensões de água.

Porém, a superfície de Vênus, escondida sob espessas nuvens de microgotículas de ácido sulfúrico, ainda permanece um mistério.

A significativa pressão atmosférica, mais de 90 vezes a da Terra, e uma temperatura infernal de 470 ºC, tornam quase impossível o envio de sondas à superfície do planeta.

No entanto, um estudo questionou em 2016 se Vênus já havia sido habitável em algum momento, partindo da hipótese de que sua espessa camada de nuvens poderia ter protegido a água da superfície.

Os resultados, publicados esta semana na Nature e assinados por Martin Turbet, em conjunto com astrofísicos de laboratórios franceses, lançam dúvidas sobre este cenário.

Efeito estufa

"Antes de saber se poderia haver água de forma estável na superfície de Vênus, é preciso saber como teria se formado", disse Martin Turbet.

Para isso, é preciso analisar como, há bilhões de anos, um planeta "muito jovem e muito quente", com água na "forma de vapor na atmosfera", teria se tornado um planeta onde, ao esfriar, poderiam ter se formado volumes de água por condensação.

A equipe de Turbet usou um modelo climático preciso, que leva em consideração a formação de nuvens e a circulação atmosférica. As conclusões são categóricas.

O sol aqueceu o vapor d'água na atmosfera de Vênus a uma temperatura muito alta para permitir a formação de nuvens por condensação.

Essas nuvens protegeriam a parte ensolarada do planeta, permitindo que a atmosfera esfriasse o suficiente para causar a condensação do vapor para formar água na superfície.

Além disso, as massas de ar aquecidas pelo sol em sua parte exposta, deslocaram-se para a face sombreada do planeta, onde formaram nuvens muito altas que causaram um efeito estufa, o que impediu o resfriamento da atmosfera.

Insolação

E por que a Terra, um planeta rochoso do mesmo tamanho de Vênus, não sofreu o mesmo destino?

"Quando o sol era jovem, há quatro bilhões de anos, tinha um volume 25-30% menor do que o atual", explicou Turbet.

O calor que nosso planeta recebia não era tão alto a ponto de impedir a condensação de vapor e a formação de água. Vênus, que está muito mais perto do sol, sofreu uma insolação cerca de duas vezes maior que a da Terra.

O estudo deixa uma "pequena surpresa", como detalhou Turbet: com a atual insolação da Terra, "se todos os mares evaporassem, a situação ficaria estável".

Em outras palavras, viveríamos entre oceanos de vapor d'água e a condensação seria improvável. Se o sol estivesse um pouco mais quente há vários bilhões de anos, não haveria corpos d'água em nosso planeta e, certamente, não existiria vida.

O modelo climático desenvolvido para Vênus servirá para estudar exoplanetas pertencentes a outros sistemas solares. Enquanto isso, é pouco provável encontrar formas de vida em Vênus.

No ano passado, outro estudo mencionou a detecção nas nuvens de Vênus de um gás que pode estar relacionado à vida. Naquele momento, pensava-se que a evaporação de águas superficiais neste planeta poderia ter levado formas de vida para as nuvens.

Vários estudos publicados desde então refutaram essas observações. Por fim, em junho, uma nova publicação afirmou que era impossível a vida nessas nuvens, devido à falta de água.