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Como o grafeno passou de revolução nanotecnológica a objeto de fake news

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Imagem: Reprodução

Em Buenos Aires

01/10/2021 11h52

O grafeno promete revolucionar a eletrônica, a indústria aeroespacial, a energia e medicina. Apesar disso, ou exatamente por isso, milhares de mensagens virais acusam esse versátil nanomaterial de ser um componente perigoso das vacinas contra o coronavírus e um instrumento de "controle" de pessoas.

Descoberto em 2004 por Andre Geim e Kostantin Novoselov, que ganharam o Prêmio Nobel de Física em 2010, o grafeno é o material mais fino e resistente do mundo, "e um dos mais promissores para as tecnologias do futuro", afirma o pesquisador argentino Marcelo Mariscal, doutor em Química e especializado em nanotecnologia.

O grafeno tem alta condutividade elétrica e térmica e suas aplicações poderão servir a sensores altamente sensíveis até dispositivos eletrônicos flexíveis. Sua utilização é ideal no armazenamento de energia, fabricação de veículos, bem como na construção de edifícios e até mesmo no setor cosmético.

Mas nas redes sociais as expectativas são diferentes. O grafeno tornou-se alvo de suspeitas em abril de 2021, quando o Canadá ordenou o recolhimento do mercado de máscaras que o continham por possíveis riscos à saúde, que foram posteriormente descartadas.

Um mês depois, com o avanço da vacinação contra a covid-19, dezenas de internautas relataram nas redes que as vacinas os haviam "magnetizado", colocando ímãs, talheres e até telefones celulares no local da injeção como teste.

Os vídeos cruzaram fronteiras e idiomas para "demonstrar" que as vacinas contêm ingredientes "secretos" e nocivos, incluindo o grafeno, apesar de várias evidências científicas que o negam.

O espanhol Ricardo Delgado Marín, fundador do portal La Quinta Columna, que divulga informações falsas sobre a covid-19, popularizou a teoria de que as vacinas contêm esse nanomaterial, atribuindo a ele a capacidade de "controlar a vontade", também como propriedades magnéticas que não possui.

Em seus vídeos, compartilhados por dezenas de milhares de usuários, Delgado também acusou o grafeno de ser o "próprio SARS-CoV-2" e previu "um tsunami cerebral" para o mês de julho "devido à ignição global" da tecnologia 5G.

Membros do grupo "Médicos pela Verdade" na Argentina rebateram rapidamente as teorias de Delgado, que adicionou à conspiração o óxido de grafeno - um derivado dele - e logo versões em português, inglês, francês, polonês, tcheco, croata circularam.

Em julho, o alemão Andreas Kalcker, que se apresenta como um "pesquisador biofísico" e já teve problemas com os tribunais da Espanha e da Argentina por promover o dióxido de cloro - substância sem propriedades curativas e potencialmente tóxica - garantiu que o óxido de grafeno supostamente inoculado com vacinas "altera o campo eletromagnético" das pessoas, causando a morte.

Nenhuma das vacinas contra a covid-19 aprovadas pela OMS - cuja composição é pública - tem grafeno ou óxido de grafeno entre seus ingredientes.

Promessas que disparam boatos

O grafeno, formado por uma única camada de átomos de carbono, não é solúvel. Como explica à AFP o espanhol Diego Peña, do Centro Singular de Pesquisa em Química Biológica e Materiais Moleculares, "um dispositivo de grafeno não poderia ser injetado em solução".

O óxido de grafeno, por sua vez, quase não está sendo testado para fins biomédicos, mesmo para vacinas na forma de adjuvantes. No entanto, "são estudos-modelo em fases de ciência básica, que ainda estão longe de uma aplicação", explica Mariscal.

Nem ele nem o grafeno têm propriedades magnéticas naturais, assegurou à AFP Mariscal, Peña e María Celeste Dalfovo, pesquisadora argentina e doutora em Química. "Só é magnético em condições laboratoriais muito específicas [...] Em condições ambientais perde as suas propriedades magnéticas", esclarece Peña.

"É impossível que o grafeno magnetize alguma coisa", enfatiza Mariscal, descartando os supostos fenômenos vistos em vídeos virais.

"Acredito que todas as expectativas da imprensa e do mercado de um material que promete revolucionar o setor - como fizeram o aço ou os materiais poliméricos na época - o tornam alvo de ataques", observa.

Ester Vázquez Fernández-Pacheco, diretora do Instituto Regional de Pesquisa Científica Aplicada (IRICA) de Castilla-La Mancha, na Espanha, concorda: "As pesquisas que despertam muitas esperanças têm um problema: as pessoas querem muito ver os resultados rapidamente".

Porém, "qualquer desenvolvimento tecnológico leva muitos anos (...) e essa ideia, infelizmente, não se difunde de forma eficiente", destaca.

"Talvez seja aí que a 'rumorologia' tenha o seu terreno fértil: o material é conhecido, todos sabem que é real, mas nem todos têm a capacidade para compreender como se trabalha com ele", por isso "é muito fácil fazer acreditar coisas que não têm, do ponto de vista científico, fundamento", afirma.