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MPF denuncia Greenwald por incentivar hackeamento de autoridades

21/01/2020 23h28

Brasília, 22 Jan 2020 (AFP) - O Ministério Público Federal (MPF) denunciou nesta terça-feira (21) o jornalista americano Glenn Greenwald por "auxiliar, orientar e incentivar" um grupo de hackers que invadiu os celulares do ex-juiz e ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, e dos procuradores da operação Lava Jato.

Greenwald, cofundador do portal The Intercept Brasil, foi denunciado juntamente com outras seis pessoas por crimes vinculados à "invasão de celulares de autoridades brasileiras", em um caso que veio à tona em meados de 2019, informou o MPF em um comunicado.

O jornalista, que mora no Brasil com o marido, o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ), e os dois filhos adotivos do casal, "foi denunciado, embora não tenha sido indiciado pela Polícia Federal".

Para o MPF, "provas coletadas na investigação demonstram que ele auxiliou, incentivou e orientou o grupo durante o período das invasões" dos celulares, acrescentou a nota.

De acordo com uma conversa entre Greenwald e um dos hackers, o jornalista não se contentou em receber denúncias, mas pediu para "excluir as conversas" trocadas com ele para não ficar "ligado a material ilegal", alega a denúncia.

A promotoria diz que foram "ações para impedir investigações e reduzir a possibilidade de responsabilidade criminal", algo que Greenwald nega.

- "Ataque contra a imprensa livre" -Em um vídeo publicado em sua conta no Twitter, Greenwald denunciou "um ataque à liberdade de imprensa".

"É obviamente uma retaliação do governo Bolsonaro. Nós nunca vamos ser intimidados por ninguém que está abusando do aparato do Estado", acrescentou.

Greenwald foi em 2013 um dos jornalistas que entrevistou Edward Snowden sobre os programas de vigilância maciça implementados pela Agência Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos.

A justiça deve determinar agora se dá seguimento às denúncias do MPF para abrir um processo formal.

De acordo com a denúncia, segundo os diálogos entre Greenwald e um dos hackers, o jornalista não apenas recebeu informações, mas foi além "ao indicar ações para dificultar as investigações e reduzir a possibilidade de responsabilização penal".

O hacker Walter Delgatti Neto confessou ter entregue a Greenwald milhares de mensagens entre o ministro Moro com procuradores da Lava Jato, divulgadas pelo The Intercept Brasil a partir de junho de 2019.

As mensagens mostraram uma suposta conivência entre Moro com os procuradores da operação Lava Jato, que levou à prisão de dezenas de empresários e políticos, entre eles o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os reportagens abalaram ainda mais a opinião pública já polarizada do Brasil e levaram Greenwald a buscar proteção do Supremo Tribunal Federal (STF).

O STF concedeu ao jornalista uma medida cautelar no ano passado para impedir que fosse investigado e proteger seu direito constitucional de manter em segredo sua fonte.

Jair Bolsonaro, que no ano passado declarou que Greenwald poderia "ir para a cadeia" por seu papel na divulgação das mensagens, reagiu com ironia sobre a denúncia contra o jornalista.

"Quem denunciou foi a Justiça. Você não acredita na Justiça?", respondeu o presidente ao ser perguntado por um jornalista se a denúncia contra Greenwald não seria vista como perseguição à imprensa, com a qual Bolsonaro tem um relação conturbada.

O relator especial da ONU para a liberdade de expressão, David Kaye, escreveu no Twitter que iria solicitar mais informações ao governo brasileiro, mas alertou que a denúncia "parece um esforço para intimidar Glenn Greenwald e The Intercept a parar com as denúncias".

Organizações como a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e o Comitê de Proteção de Jornalistas (CPJ) também criticaram a denúncia.

Em 2013, Greenwald entrevistou Edward Snowden sobre os programas de vigilância em massa implementados pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA).

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