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Polêmica na ciência! Bebês com DNA modificado podem ter mutação imprevisível

03/12/2019 19h41

O nascimento de duas gêmeas surpreendeu o mundo inteiro em novembro de 2018. Não pela fofura das duas crianças, mas porque elas foram geradas a partir de dois embriões geneticamente modificados. Se isso já havia chamado a atenção da comunidade científica na época, pelos aspectos éticos, o que foi descoberto agora sinaliza que as meninas podem pagar caro pela imprudência de um cientista.

Cientistas afirmaram nesta terça-feira (3) que as duas muito provavelmente têm mutações imprevistas em seu genoma resultante de sua manipulação feita em laboratório. Pesquisadores analisaram as conclusões de uma versão não não autorizada do estudo que analisa o caso começar a circular.

Para entender a história, é preciso dar alguns passos atrás. Tudo começou em 2018, quando o cientista He Jiankui revelou em Hong Kong que tinha modificado embriões para um casal, que fazia fertilização in vitro. A finalidade era criar uma mutação no genoma que daria aos embriões uma imunidade natural contra o HIV, o vírus causador da AIDS, durante a vida. O procedimento não tinha nenhuma justificativa médica, pois já há técnicas para impedir a contaminação caso os pais sejam soropositivos.

Depois de as gêmeas nascerem, a única coisa que se soube dela são os nomes: Lulu e Nana. Os pais quiseram manter a vida delas em segredo.

Depois de tomar conhecimento do caso, tanto a comunidade científica internacional quanto as autoridades criticaram duramente o experimento de He Jiankui. Isso fez ressurgir as tentativas de proibir bebês que fossem modificados com técnicas como a do "Crispr".

"Crispr" é uma técnica de modificação do genoma inventada em 2012, que revolucionou os estudos genômicos por ser muito mais simples do que as tecnologias anteriores. De forma bastante resumida, os geneticistas fazem algo como "cortar" uma sequência genética e colocam outra no lugar. Ainda que inovadora, especialistas em genética repetem que a tecnologia está longe de ser perfeita para ser usada com fins terapêuticos.

Por causa da técnica utilizada, as meninas chinesas passaram a ser chamadas de "gêmeas Crispr".

O cientista He Jiankui chegou a elaborar um artigo científico descrevendo o experimento que levou à concepção dos bebês. Um jornalista da revista MIT Technology Review recebeu o manuscrito do estudo que He Jiankui tentou convencer prestigiosas publicações científicas a avaliar. Só que o texto detalha não só os métodos mas também os resultados da experiência.

Mais alarmante: no artigo, He Jiankui confirma o que muitos especialistas já suspeitavam: a mutação tentada, em parte do gene CCR5, não teve êxito, na verdade, apontaram outros geneticistas consultados.

O estudo diz ainda que a mutação realizada é "similar" à que confere a imunidade, mas não é idêntica.

Os dados incluídos nos anexos apontam ainda que as gêmeas sofreram mutações em outros lugares de seu genoma e provavelmente modificações entre uma célula e outra, o que pode ter consequências imprevisíveis.

Há muitos problemas no caso das 'gêmeas Crispr'. Todos os princípios étnicos estabelecidos foram afetados. Mas também há um grande problema científico: [o cientista] não controlou o que a Crispr fazia e isto teve muitas consequências imprevistas
Kiran Musunuru, professor de genética da Universidade da Pensilvânia

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