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Cientistas vasculham o passado em busca de pistas climáticas futuras

Calotas de gelo derretendo - Getty Images
Calotas de gelo derretendo Imagem: Getty Images

29/11/2019 18h54

Saclay, França, 29 Nov 2019 (AFP) — À medida que o ritmo do aquecimento global ultrapassa nossa capacidade de adaptação a ele, os cientistas estão analisando o passado distante, na esperança de que o gelo, os sedimentos e as árvores da Antártica tracem um caminho para navegar em nosso futuro climático.

"O que nos interessa é entender como o clima funciona", diz Didier Roche, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS).

No Laboratório de Ciências do Clima e do Meio Ambiente (LSCE), nos arredores de Paris, o objetivo é estabelecer um registro abrangente das mudanças climáticas que datem de centenas de milhares de anos, para mapear os repetidos ciclos de aquecimento e resfriamento pelos quais a Terra passou e tentar entender o que os move.

Chegar tão longe possibilitaria determinar qual o papel dos humanos na atual fase do aquecimento global por meio das enormes emissões de gases de efeito estufa, principalmente CO2 e metano, que vieram com a industrialização e o crescimento da população.

Uma ferramenta-chave de pesquisa são os núcleos de gelo, alguns datados de 800.000 anos atrás, que contêm pequenas bolhas de ar preso e são perfurados em profundidades de até 3,2 quilômetros pelo Projeto Europeu de Extração de Gelo na Antártica (EPICA).

Enquanto as bolhas de ar revelam os níveis de CO2 e de outros gases de efeito estufa, núcleos semelhantes de sedimentos ou registros de anéis das árvores ajudam a construir uma imagem do clima da Terra.

A partir das bolhas de gás "podemos reconstituir a composição da atmosfera", disse Anais Orsi, pesquisador da Comissão de Energia Atômica da França (CEA).

Enquanto isso, partículas de poeira "podem nos dizer se houve muitos incêndios florestais na Patagônia ou se a Austrália estava passando por um período muito seco", disse.

Quanto às árvores, com seu registro muito claro de anéis de crescimento, "elas podem nos falar sobre temperatura, luz solar, níveis de umidade", disse Valerie Daux, professora da Universidade Versailles-Saint Quentin, nos arredores de Paris.

Os níveis do isótopo do carbono 14, que permitem uma datação mais próxima do material, fornecem outra linha de investigação para estabelecer "a que velocidade um ecossistema pode se adaptar às mudanças climáticas", disse Christine Hatte, da CEA.

Modelos climáticos essenciais

Todos os dados são coletados e processados para serem colocados em modelos climáticos e depois extrapolados para o que parece ser um futuro muito mais quente.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) alertou nesta semana que o mundo está caminhando para um desastre a não ser que haja um corte praticamente impossível de 7,6% nas emissões anuais de combustíveis fósseis até 2030, de modo a limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C.

Se continuarmos como estamos, mesmo levando em consideração as atuais promessas do acordo climático de Paris, o mundo está a caminho de um aumento de 3,2°C e possivelmente mais.

A Organização Meterológica Mundial disse na segunda-feira que os níveis atmosféricos de gases de efeito estufa atingiram um recorde histórico em 2018.

Sob o acordo de Paris, os países se comprometeram a limitar os aumentos de temperatura em comparação com os níveis pré-industriais "bem abaixo" de 2°C, e de 1,5°C, se possível.

Mas um trio de estudos divulgados este ano mostrou que a Terra nunca havia aquecido de maneira tão uniforme ou tão rápida quanto no século passado.

Nesse cenário, torna-se essencial a busca por modelos de mudança climática mais detalhados e precisos.

Roche observou que um aumento da temperatura global de 6 a 8°C produziria um "clima comparável ao dos dinossauros", embora tenha alertado que uma configuração diferente de massa de terra naquele momento deve ser levada em consideração.

O que é mais certo é que apenas 21.000 anos atrás, a Terra era entre 3 e 4ºC mais fria do que hoje.

"Naquela época, Nova York estava coberta de gelo com um quilômetro de espessura, a Noruega estava abaixo de três quilômetros e o nível do mar 120 metros mais baixo do que agora", disse.

"Nós perturbamos o nosso clima muito acentuadamente em um período muito curto. Quanto mais fizermos isso, mais ele vai mudar".

Ciência