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Thiago Gonçalves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como os cortes de verbas do governo afetam meu trabalho como cientista

Verbas seriam destinadas para comprar equipamentos e tudo aquilo que mantém funcionando os grupos de pesquisa científica - Greg Rakozy/ Unsplash
Verbas seriam destinadas para comprar equipamentos e tudo aquilo que mantém funcionando os grupos de pesquisa científica Imagem: Greg Rakozy/ Unsplash
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Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

09/06/2022 04h00

O governo anunciou nesta semana um corte de aproximadamente R$ 3 bilhões na verba para a ciência no país. Com cifras tão grandes, às vezes é difícil entender o impacto real dessa medida, sobretudo para quem não trabalha em universidades ou fazendo pesquisa.

Assim, decidi fazer um relato pessoal, de como isso deve afetar o meu trabalho e o de colegas próximos. Você pode imaginar que algo parecido deve acontecer com milhares de cientistas em todo o país.

Primeiro, vários programas de pós-graduação de todo o Brasil acabam de submeter pedidos para bolsas de mestrado e doutorado. Difícil imaginar que esses programas não sejam afetados. Ou seja, institutos que já contavam com a chegada de estudantes para participar de projetos de pesquisa serão prejudicados, e a formação da próxima geração de estudantes deve virar uma grande lacuna.

Além disso, várias chamadas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) são destinadas à aquisição de materiais permanentes e de consumo no ambiente científico. Essa verba deveria ser empregada na compra de equipamentos, computadores, insumos para os laboratórios, ou até mesmo a compra de mesas e cadeiras — enfim, tudo aquilo que permite o funcionamento de um grupo de pesquisa.

Com os cortes, os cientistas não sabem se vão poder contar com o dinheiro que já havia sido prometido. Imaginem um laboratório de pesquisas de vacinas sem dinheiro para comprar os reagentes, sem poder fazer seus experimentos.

Outro exemplo mais recente é o de bolsas no exterior.

Uma parte fundamental do trabalho de pesquisa é o encontro com cientistas de outros países, permitindo a troca de ideias e a mobilidade de jovens estudantes. Essa chamada permitiria que estudantes de mestrado e doutorado visitassem colaboradores estrangeiros por alguns meses, recebendo um treinamento extra fundamental para seu crescimento como cientistas.

Eu esperava poder enviar uma estudante para a Alemanha no ano que vem, para trabalhar na construção de uma câmera para o maior telescópio do mundo. Já não sei se isso será possível.

Notem que esse corte não está limitado apenas ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Universidades e institutos associados ao Ministério da Educação também devem sofrer cortes severos.

Um dos programas mais ameaçados com isso é o apoio a estudantes de baixa renda, que muitas vezes estudam em cidades distantes de seu lugar de origem e dependem de auxílios para poder terminar seus estudos. Essa verba vem diretamente dos orçamentos das universidades, mas com os cortes, o número de estudantes apoiados caiu vertiginosamente.

Atualmente, nem a infraestrutura universitária mais básica está sendo propriamente mantida. Em meu instituto, já tivemos dificuldades para pagar a conta de luz, estamos atualmente sem linhas telefônicas, e quando algo quebra (por exemplo uma torneira ou descarga do banheiro) são vários meses para poder realizar um conserto.

É um cenário desanimador, sem dúvida.

Tentem comparar com os vencedores de prêmios Nobel, e imaginem se poderiam ter concluído suas pesquisas nessas mesmas condições. Já recebi diversas mensagens de estudantes de ensino médio que sonhavam em ser cientistas e estão quase desistindo devido às condições precárias de trabalho.

A vocês eu digo: não desistam. Não podemos crescer como nação sem a formação de pesquisadores, e precisamos do seu talento e dedicação. O que é necessário, sim, é lutar por mais investimentos e um país que abrace e proteja seus cientistas.