PUBLICIDADE
Topo

Thiago Gonçalves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Como foi feita imagem inédita de buraco negro no centro da Via Láctea

A primeira imagem do buraco negro central da nossa galáxia, obtida pela colaboração do Telescópio do Horizonte de Eventos - Colaboração EHT
A primeira imagem do buraco negro central da nossa galáxia, obtida pela colaboração do Telescópio do Horizonte de Eventos Imagem: Colaboração EHT
Conteúdo exclusivo para assinantes
Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

12/05/2022 14h56

Saiu! Finalmente, depois de vários anos de análise de dados, conseguimos ver a imagem de Sagitário A*, o buraco negro no centro da Via Láctea, a nossa galáxia, obtida pela colaboração do Telescópio do Horizonte de Eventos.

A imagem é um grande feito da tecnologia. Para terem uma ideia, dado o tamanho do buraco negro e sua distância, é equivalente a vermos uma bola de handebol na superfície da Lua. Algo terrivelmente pequeno, e que faz uso dos instrumentos mais avançados do planeta.

No caso da imagem divulgada nesta quinta-feira (12), foram usados diversos radiotelescópios ao redor da Terra. Isso é necessário porque, ao combinar dados de telescópios distintos (em uma técnica chamada interferometria) quanto maior a distância entre eles, mais nítida será a imagem. E não há como ter uma distância maior que o tamanho da Terra, a não ser que possamos colocar os telescópios no espaço!

Assim, embora possa parecer borrada, é das imagens mais nítidas já obtidas com qualquer tipo de telescópio, na história da humanidade. Lembrem-se, estamos vendo algo muito, muito pequeno no céu.

Para combinar os sinais dos instrumentos, precisamos marcar com altíssima precisão o momento de chegada das ondas eletromagnéticas do buraco negro. Qualquer desvio significaria um sinal equivocado, e dessa forma os telescópios fazem uso de relógios atômicos, capazes de marcar o tempo com um erro de apenas um segundo a cada cem milhões de anos.

Dois buracos negros supermassivos

Você deve estar se perguntando também por que conseguimos observar antes o buraco negro central da galáxia M87, cuja imagem foi divulgada em 2019. Afinal M87 está a mais de 50 milhões de anos-luz, uma distância mais de mil vezes maior que aquela até o centro da Via Láctea.

Por um lado, ambos têm o mesmo tamanho aparente: embora distante, o buraco negro em M87 é mil vezes maior que o nosso, e o resultado é que a aparência de ambos é muito semelhante.

Por outro lado, por ser muito maior, as coisas acontecem muito mais lentamente. A matéria leva semanas para dar uma volta ao redor do buraco negro de M87, enquanto isso acontece em meros minutos para Sagitário A*.

Como as observações levavam vários dias cada, a equipe teve que lidar com o desafio extra da variabilidade do objeto. "É como tentar fotografar um filhotinho perseguindo o próprio rabo, rapidamente", afirmou Chi-kwan Chan, da Universidade de Arizona, participante do estudo.

O interessante agora será analisar os dados e tentar entender as diferenças entre eles. Afinal, agora podemos comparar observações de dois buracos negros muito distintos entre si, o que eventualmente nos ajudará a compreender, por exemplo, o efeito da gravidade de cada um sobre o ambiente ao seu redor.