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Thiago Gonçalves

REPORTAGEM

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Cientistas descobrem molécula que pode ser nova pista sobre origem da vida

Composição de imagens mostra o sistema IRS 48, onde foram detectados moléculas de dimetil éter (à direita, acima). No detalhe (à direita, abaixo), um modelo da molécula - ESO/ L. Calçada, ALMA (ESO/NAOJ/NRAO)/ A. Pohl, van der Marel et al., Brunken et al.
Composição de imagens mostra o sistema IRS 48, onde foram detectados moléculas de dimetil éter (à direita, acima). No detalhe (à direita, abaixo), um modelo da molécula Imagem: ESO/ L. Calçada, ALMA (ESO/NAOJ/NRAO)/ A. Pohl, van der Marel et al., Brunken et al.
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Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

11/03/2022 04h00

Cientistas da Universidade de Leiden, na Holanda, anunciaram essa semana a descoberta da maior molécula já observada em um disco de formação de planetas. O resultado pode ter um impacto importante no nosso entendimento sobre a origem da vida no universo.

A molécula, chamada dimetil éter (CH3OCH3), é o que chamamos de molécula orgânica, formada de átomos de carbono. O carbono é a base da vida como a conhecemos, e compostos desse tipo são os blocos fundamentais para a formação de substâncias mais complexas que formam os organismos na Terra.

Não é a primeira vez que observamos esse composto no espaço, mas ele havia sido observado apenas em regiões de formação estelar, ou seja, em grandes nuvens de gás e poeira onde estrelas nascem.

Segundo os modelos mais utilizados na comunidade, as moléculas orgânicas se formam na superfície de grãos de poeira, com átomos de carbono e oxigênio, por exemplo, formando uma tênue camada de gelo que sofre reações químicas, unindo-se e formando substâncias mais complexas.

O problema é que muitas vezes as substâncias podem ficar presas no gelo, invisíveis aos nossos instrumentos. Em nuvens de formação estelar, onde a temperatura pode ser mais alta, o gelo pode "evaporar" (tecnicamente, o processo é conhecido como dessorção), soltando a molécula para o espaço e tornando-a observável.

As regiões ao redor de estrelas onde planetas se formam, no entanto, são tipicamente mais frias. Ainda assim, a equipe liderada por Nashanty Brunken foi capaz de observar as moléculas de dimetil éter em uma parte de um disco planetário em formação, indicando que mesmo nesses ambientes as moléculas orgânicas mais complexas podem ser encontradas.

A detecção aconteceu no sistema IRS 48, a 444 anos-luz de distância.

O estudo é fundamental para entendermos o caminho traçado por estes compostos, desde a sua formação em grãos de poeira até a superfície de novos planetas, onde podem eventualmente dar origem a seres vivos baseados em carbono.

O trabalho também abre caminho para a busca por moléculas ainda maiores, já que agora sabemos que podem estar presentes em forma de gás.

O trabalho também não seria possível sem os avanços tecnológicos da última década.

O sinal do dimetil éter é emitido na forma de ondas de rádio, e apenas um radio-observatório poderoso como o ALMA, no Chile, inaugurado em 2012, é capaz de detectar um sinal tão tênue, tendo em vista a raridade do composto quando comparado a outras moléculas mais simples como o metanol ou o monóxido de carbono.

Por último, vale notar que a equipe responsável pela descoberta é composta exclusivamente por mulheres, liderada por Ewine van Dishoeck, uma das grandes líderes mundiais no campo da Astroquímica.

Não consigo pensar em melhor forma de comemorar o Dia Internacional das Mulheres que destacando a importante contribuição científica deste grupo de pesquisa.