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Thiago Gonçalves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Volta atrás em descoberta de buraco negro é a prova da ciência na prática

Arte do sistema HR 6819, composto por estrela achatada com um disco ao seu redor e uma estrela que foi despojada de sua atmosfera - ESO/ L. Calçada
Arte do sistema HR 6819, composto por estrela achatada com um disco ao seu redor e uma estrela que foi despojada de sua atmosfera Imagem: ESO/ L. Calçada
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Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

04/03/2022 04h00

Assim funciona a ciência, meus amigos. Descobertas podem ser reavaliadas e modificadas. O caso da vez é o do suposto buraco negro mais próximo da Terra, a "apenas" mil anos-luz de distância, anunciado em 2020. Agora, um grupo de cientistas obteve dados mais precisos, descartando a presença do buraco negro.

Tecnicamente, o estudo é realmente um desafio. A proposta original tentava explicar as observações do sistema HR 6819 por um modelo complexo, que incluía uma grande estrela tipo B e um buraco negro muito próximos um do outro, com uma estrela Be (que possui um disco de gás ao seu redor) orbitando os outros dois a uma distância maior.

O problema é que o grupo não conseguia ver objetos separados, por estarem tão próximos um do outro e a uma distância tão grande de nós. As conclusões se baseavam apenas nas variações de brilho e na composição química de todas as estrelas combinadas.

Agora, o novo estudo —que conta com a participação de cientistas do grupo original e de outra equipe que apresentava uma hipótese alternativa para explicar os resultados— utiliza dados de altíssima resolução.

Combinando o poder de observações com lasers e a potência combinada de quatro telescópios de 8 metros de diâmetro cada um, fizeram dois conjuntos de observações: um para buscar a companheira distante, e outro com muito "zoom" para estudar a região central.

A primeira observação não viu nada. Não havia uma estrela orbitando a grandes distâncias. Mas a segunda encontrou os dois pontinhos brilhantes, mostrando sem sombra de dúvida a presença de duas estrelas muito próximas, sem buracos negros.

O resultado agora é mais confiável. O melhor modelo que descreve o sistema é o de uma estrela B e uma Be tão próximas que a segunda está roubando material da primeira, o que pode até explicar a formação do disco de material.

Hipóteses e modelos

Além do caso científico interessantíssimo, vale também ressaltar o exemplo de metodologia demonstrada aqui. Não havia consenso sobre a interpretação dos dados, e a solução encontrada foi unir as equipes para obter dados melhores e testar as diferentes hipóteses.

É assim que a ciência resolve debates, através de dados e observações cada vez mais precisos, que são capazes de colocar os modelos à prova. O caso de HR 6819 em particular, por ser um resultado tão recente, se coloca como oportunidade para debater e testar as hipóteses apresentadas a princípio.

Por isso mesmo os autores do estudo original não estavam errados ao publicar os resultados. Pelo contrário, ao apresentar os dados abrem espaço e oferecem transparência ao debate. Mais ainda, estão de parabéns por participar de estudo que refuta a interpretação original.

Devemos ter cuidado apenas para diferenciar o debate legítimo das falsas polêmicas. Afinal, isso é terreno fértil para negacionismo e teorias da conspiração.

Os modelos alternativos devem ser testados e verificados, mas se uma teoria já foi construída ao longo de anos (ou às vezes séculos) as evidências para contestá-la devem ser fortíssimas.

Aí reside a distinção entre o caso do buraco negro e a terra plana, por exemplo: contestações científicas devem ser sustentadas por evidências experimentais, e não pela falácia de que qualquer debate ou contestação tem legitimidade científica.