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Thiago Gonçalves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Astrônomos descobrem o asteroide mais perto do Sol, mas como ele chegou lá?

Concepção artística do asteroide 2021 PH27 - CTIO/NOIRLab/NSF/AURA/J. da Silva
Concepção artística do asteroide 2021 PH27 Imagem: CTIO/NOIRLab/NSF/AURA/J. da Silva
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Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

26/08/2021 04h00

Uma equipe norte-americana de astrônomos anunciou na última segunda-feira (23) a descoberta do asteroide mais próximo do Sol já observado. Com um quilômetro de diâmetro, o corpo passa a apenas 20 milhões de quilômetros do nosso astro-rei, ou o equivalente a pouco mais de um décimo da distância entre a Terra e o Sol.

A órbita é bastante alongada, então a distância média é um pouco maior, com cerca de 70 milhões de quilômetros. Para comparação, o planeta Mercúrio está a cerca de 58 milhões de quilômetros do Sol. O asteroide, batizado de 2021 PH27, se aproxima tanto da estrela a cada 113 dias que sua temperatura superficial pode chegar a 500 graus Celsius, o suficiente para derreter chumbo.

Vale lembrar que a órbita do asteroide está muito distante da Terra, então não há qualquer chance de colisão com o nosso planeta.

A descoberta foi feita pela primeira vez no dia 13 de agosto deste ano. Os astrônomos Ian Dell'antonio e Shenming Fu, da Universidade Brown, aproveitaram o crepúsculo vespertino para procurar esse tipo de objeto, desviando um pouco da missão primária do Observatório Blanco de buscar por aglomerados de galáxias distantes.

O horário é perfeito para buscar por asteroides próximos ao Sol, como 2021 PH27. Afinal, à meia-noite a Terra está virada para o outro lado, ou seja, o telescópio está apontando na direção oposta ao Sol. Ao mesmo tempo, as observações são mais difíceis, já que o céu ainda está relativamente claro.

Ainda assim, os cientistas conseguiram detectar o asteroide e realizar uma medição inicial de sua posição e órbita. Usando esses dados, o astrônomo David Tholen, da Universidade do Havaí, pôde prever sua posição na noite seguinte, observando novamente o asteroide e confirmando sua configuração incomum.

A descoberta é interessante para podermos conhecer um pouco mais sobre a formação do nosso Sistema Solar. Afinal, os asteroides se formaram a distâncias muito maiores, entre as órbitas de Marte e Júpiter.

Uma hipótese seria um desvio gravitacional. Ao passar próximo a um planeta com muito mais massa e gravidade, a órbita de 2021 PH27 poderia ser desviada para se aproximar mais do Sol.

No entanto, outra evidência importante para a origem do objeto é sua inclinação de 32 graus. Isso significa que o corpo recém-descoberto não está orbitando no mesmo plano dos outros planetas, mas num plano inclinado em relação aos demais corpos do Sistema Solar.

Isso significa que 2021 PH27 pode ser um cometa extinto, formado na periferia do Sistema Solar e capturado nessa órbita ao passar perto de um planeta.

São hipóteses interessantes, que serão investigadas com mais cuidado a partir da determinação da sua composição química, com mais observações. Esses novos estudos nos permitirão então conhecer um pouco mais sobre a história de 2021 PH27 e suas origens.

Como eu sempre digo aqui, as melhores descobertas são aquelas que geram o maior número de novas perguntas científicas.