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Thiago Gonçalves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Buraco negro: já sabemos que Einstein estava certo, por que provar teoria?

Retrato do físico alemão Albert Einstein - Wikimedia Commons
Retrato do físico alemão Albert Einstein Imagem: Wikimedia Commons
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Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

31/07/2021 04h00

Essa semana foi divulgada a notícia de que observamos, pela primeira vez, a radiação emitida do outro lado de um buraco negro. O resultado é incrível, mas é curiosa a maneira como as manchetes destacavam a confirmação da relatividade de Einstein.

É verdade, podemos detectar o flash de raios-X devido à curvatura do espaço ao redor do buraco negro. Mas isso não é inesperado, já que a relatividade não é exatamente uma novidade. O feito inédito aqui é conseguir medir essa radiação e o que podemos aprender sobre o buraco negro em si, esse sim um objeto ainda bastante desconhecido em diversos aspectos.

O problema, a meu ver, é como isso enfatiza um aspecto da pesquisa científica que não é o que os cientistas buscam — com certeza não os autores do estudo.

Ao fazer uso de palavras-chave para chamar a atenção do leitor, estamos distorcendo o propósito da própria pesquisa científica.

Nosso objetivo, como cientistas, não é confirmar Einstein, mas avançar o conhecimento para muito além do que foi feito há mais de 100 anos.

A relatividade está correta, mas isso não é novidade

A relatividade já foi confirmada várias vezes, a primeira delas em 1919. Ao observar a mudança de posição de estrelas durante um eclipse solar, astrônomos em Sobral, no Ceará, e na Ilha do Príncipe, na África, confirmaram um fenômeno previsto por Einstein e sem outra explicação que não a relatividade geral.

Várias outras descobertas se seguiram, como a existência de lentes gravitacionais que nos permitem observar as galáxias mais distantes do universo e, mais recentemente, a descoberta de ondas gravitacionais produzidas pela colisão de objetos massivos e compactos, tais como buracos negros e estrelas de nêutrons. Tudo isso é resultado da curvatura do espaço-tempo gerada por objetos massivos, tal qual previsto por Einstein em 1915.

A relatividade já é parte do nosso cotidiano. Ao usar um aplicativo de navegação no seu celular, você está usando o GPS, um sistema de sinais de rádio que não poderia funcionar com tanta precisão sem nosso conhecimento da relatividade.

O culto à personalidade na divulgação científica

No final, a insistência com Einstein apenas enfatiza outro problema na comunicação de descobertas científicas: a preponderância do estereótipo do cientista como gênio excêntrico.

Ao contrário do que pode parecer no noticiário, a ciência não avança graças aos momentos de epifania de cientistas ("Eureka!"), mas ao trabalho constante e, sobretudo, colaborativo, de todos nós.

Não quero com isso diminuir a contribuição de Einstein, que realmente teve um impacto estrondoso na Física à sua época. Mas também é minha responsabilidade como divulgador mostrar que a ciência avançou muito além disso nos últimos 100 anos. Mais ainda, quero mostrar que a ciência é algo que qualquer pessoa pode fazer, não apenas gênios que aparecem uma vez por século.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL