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Thiago Gonçalves

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Em qual ponto do universo estariam os alienígenas que podem nos encontrar?

Impressão artística de um trânsito planetário, quando o planeta se coloca na linha de visada entre nós e sua estrela hospedeira - ESA/ATG medialab
Impressão artística de um trânsito planetário, quando o planeta se coloca na linha de visada entre nós e sua estrela hospedeira Imagem: ESA/ATG medialab
Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

15/07/2021 04h00

Um dos campos mais importantes da Astronomia contemporânea é a busca por exoplanetas. É fascinante pensar em como podemos descobrir mundos semelhantes à Terra a vários anos-luz de distância, e contemplar a possibilidade de encontrar vida em pelo menos um deles.

E se pensássemos ao contrário? As astrônomas Lisa Kaltenegger e Jackie Faherty decidiram inverter a pergunta: se alienígenas estivessem realizando buscas semelhantes, será que poderiam nos encontrar? Quais são as estrelas em nossa galáxia com as melhores posições estratégicas para descobrir a Terra? Essa ponderação foi apresentada em artigo recente da revista Nature.

Para responder a pergunta, precisamos entender como essa busca funciona. A melhor maneira que temos de encontrar novos planetas é estudar a pequena diminuição de brilho quando o planeta, viajando em sua órbita, se coloca entre nós e a estrela. Isso significa que precisamos buscar estrelas perfeitamente alinhadas com o plano da órbita da Terra ao redor do Sol, que poderiam enxergar o mesmo efeito.

Além disso, assumindo que a tecnologia alienígena é semelhante à nossa (um chute tão bom quanto outro qualquer, afinal não temos qualquer pista), precisamos estabelecer um limite de distância. Afinal, nós mesmos não seríamos capazes de encontrar um planeta ao redor de estrelas na outra ponta da galáxia, e as astrônomas estabeleceram um limite de cerca de 300 anos-luz, no máximo.

A última peça do quebra-cabeça depende dos resultados do telescópio espacial Gaia. Esse projeto mapeou não apenas a posição de mais de um bilhão de estrelas em nossa galáxia, mas também seu movimento em relação a nós.

É importante lembrar que as estrelas não estão fixas na Via Láctea, mas podem se mover pelo espaço, de tal forma que a posição relativa entre elas pode variar consideravelmente ao longo de muito tempo.

Assim, tomando como ponto de partida alguns marcos da civilização humana, que teria surgido há cerca de 5.000 anos, as pesquisadoras encontraram 1.715 estrelas que poderiam haver descoberto a Terra nesse período, passando pela melhor posição para nos enxergar. Além disso, levando em conta esse mesmo movimento das estrelas, outras 319 poderão nos ver nos próximos 5.000 anos.

Dentre estas estrelas, sabemos que sete abrigam planetas, entre elas a famosa Trappist-1, com um sistema de sete planetas incluindo um com tamanho e temperatura bastante semelhantes à Terra.

As cientistas terminam o artigo discutindo a possibilidade de contato direto. As ondas de rádio emitidas por nossa civilização já alcançaram pelo menos 75 destas estrelas, tendo em vista o tempo de viagem do sinal e a distância percorrida.

No final, uma última reflexão: será que vale a pena enviar um sinal na direção destes mundos específicos, buscando um contato com uma civilização alienígena?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL