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Thiago Gonçalves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Cientistas têm novas pistas de como nascem os "planetas bebês gigantes"

Imagens de discos protoplanetários observados com o ALMA. A formação de planetas pode gerar uma grande diversidade de lacunas e buracos nos discos - S. Dagnello (NRAO)/ ALMA (ESO/NAOJ/NRAO)
Imagens de discos protoplanetários observados com o ALMA. A formação de planetas pode gerar uma grande diversidade de lacunas e buracos nos discos Imagem: S. Dagnello (NRAO)/ ALMA (ESO/NAOJ/NRAO)
Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

24/06/2021 04h00

A formação de planetas ao redor de estrelas continua sendo um mistério para a astronomia. Por isso mesmo, fazemos tantos esforços para tentar entender melhor o processo, aproveitando cada oportunidade para observar planetas nascendo.

Nienke van der Marel, da Universidade de Victoria (Canadá), e Gijs Mulders, da Universidade Adolfo Ibáñez (Chile), conseguiram contribuir com mais um pedaço do quebra-cabeça. Eles utilizaram dados do radiotelescópio ALMA, no Chile, para examinar os vãos em discos protoplanetários. Os cientistas concluíram que a observação do disco tem uma forte relação com a presença de planetas gigantes, fornecendo um elo importante entre a observação do disco e o estudo de sistemas planetários já finalizados.

Esses discos são compostos de gás e poeira, e fornecem o material para a formação de planetas. A Terra, por exemplo, nasceu a partir da aglomeração de grãos de poeira em um disco semelhante ao redor do Sol, assim como todos os planetas e corpos no sistema solar.

Já conhecemos há algum tempo a existência de discos com lacunas, como um anel vazio.

Uma das hipóteses mais prováveis para explicar as lacunas era precisamente a formação de planetas: todo o material a uma determinada distância da estrela teria sido utilizado para o crescimento de um corpo sólido. Assim, o novo planeta (que não podemos ver nessas imagens) teria "limpado" esse anel de poeira dentro do disco.

O ALMA é um excelente instrumento para investigar esse processo. Com suas 66 antenas, ele consegue mapear a distribuição de poeira em corpos no espaço, e em particular ele consegue ver muitos detalhes nos discos protoplanetários.

Aproveitando-se dessa capacidade, van der Marel e Mulders fizeram uma grande coletânea de discos, aproveitando dados observacionais de várias outras equipes de cientistas. No final, contaram com uma amostra impressionante de 700 discos protoplanetários.

Com os dados em mãos, passaram a contar aqueles com lacunas suficientemente grandes para serem detectadas como "buracos" nos discos pelo observatório.

Acredita-se que essas lacunas mais evidentes são aquelas geradas por planetas suficientemente grandes, como Júpiter, por exemplo, que para crescer tanto devem ter consumido uma parcela significativa do material disponível no disco.

O mais interessante foi notar que os discos com mais lacunas acontecem nas maiores estrelas. Essas são justamente as estrelas que também abrigam mais planetas gigantes. Dessa forma, a correlação ficou clara: estamos vendo os sinais de "planetas bebês gigantes", o nascimento de júpiteres.

O passo mais importante agora é conseguir observar não apenas a lacuna, mas o próprio planeta bebê; um desafio impossível para a atual geração de telescópios. Será que conseguiremos ver algo assim no futuro próximo?