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Thiago Gonçalves

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Robô ou nós: quem seria o tripulante ideal da ciência numa missão espacial?

Nasa/ JPL-Caltech
Imagem: Nasa/ JPL-Caltech
Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

15/04/2021 04h00

É, pessoal, ainda não foi dessa vez. O pequeno helicóptero Ingenuity, carregado junto com a missão Perseverance, da Nasa, em Marte tinha seu primeiro voo programado para o domingo, mas o teste terá de aguardar um pouco mais. Será o primeiro voo motorizado em um outro planeta.

A decolagem estava prevista para a última segunda-feira, dia 12. O pequeno helicóptero de pouco menos de 2 kg chegou a girar as hélices, mas o teste de rotação mostrou um problema de execução. Embora tenham remarcado o voo para ontem, dia 14, os engenheiros da Nasa decidiram adiar novamente o voo inaugural para uma data futura ainda não agendada.

Enquanto isso, para garantir o funcionamento apropriado do veículo, estão preparando uma atualização do software, assumindo que o update, como um novo sistema operacional nos telefones, será capaz de sanar os problemas encontrados no teste. Agora, dependem do processo de validação de software e uplink para instalar o sistema e agendar o voo novamente.

Eu havia mencionado o Ingenuity brevemente, quando falei sobre a missão Perseverance. No final das contas, o pequeno robô voador não tem objetivos científicos específicos, mas é principalmente uma demonstração tecnológica. Um pequeno experimento para mostrar que somos capazes de levar máquinas voadoras a outros planetas, começando por Marte.

Pode parecer pouco, mas a tarefa não é simples. O principal desafio é levantar voo, tendo em vista a atmosfera rarefeita do planeta vermelho. Aviões, helicópteros e pássaros terrestres dependem do ar para empurrá-los para cima; sem ar, não há como voar. O Ingenuity foi então desenhado com pás maiores e que giram mais rapidamente, criando mais força para compensar os obstáculos criados por Marte.

Além disso, as frias noites marcianas, que chegam a quase menos 100°C, podem danificar os componentes do helicóptero. Os testes em laboratório foram positivos, mas apenas em condições reais podemos ver se o veículo vai mesmo poder voar.

Ainda assim, se der certo, as perspectivas seriam excelentes. É uma nova forma de se explorar os planetas, e se não dependermos tanto de veículos com rodas, que podem ficar presos nos terrenos arenosos ou pedregosos de outros planetas, seremos capazes de chegar muito mais longe mais rapidamente, a partir do ponto de aterrissagem.

Ao mesmo tempo, poderemos depender menos de missões tripuladas para explorar outros corpos do sistema solar. Sei que minha opinião pode não ser muito popular, mas de forma geral os cientistas têm reservas quanto ao envio de humanos em missões interplanetárias.

Por mais que nossa imaginação se alimente de imagens da humanidade colonizando outros planetas, a verdade é que ainda estamos relativamente distantes dessa realidade. A própria viagem, tão longa, já é um enorme desafio, e quando pensamos em sustentar habitats nesses locais, os obstáculos se tornam monumentais.

Se o Ingenuity funcionar, poderemos aprender muito mais sobre outros planetas, sem depender de viagens tripuladas. É uma opção muito mais barata, possibilitando várias missões pelo mesmo preço, com um retorno científico imediato muito maior.

E se aprendemos mais e mais rápido, aí sim poderemos sonhar com um futuro de colônias espaciais e férias em Marte.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL