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Thiago Gonçalves

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Por que nova imagem da Lua animou quem ficou triste pelo fim do Arecibo

Imagem de radar da Lua obtida pelo GBT-VLBA. Na foto, que mostra o local de pouso da nave Apollo 15, podemos ver uma cratera de 6 km de diâmetro. - NRAO/GBO/Raytheon/NSF/AUI
Imagem de radar da Lua obtida pelo GBT-VLBA. Na foto, que mostra o local de pouso da nave Apollo 15, podemos ver uma cratera de 6 km de diâmetro. Imagem: NRAO/GBO/Raytheon/NSF/AUI
Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

11/02/2021 04h00

Uma equipe de astrônomos conseguiu usar o radiotelescópio Green Bank, nos Estados Unidos, para obter uma imagem de radar da superfície da Lua. É a primeira vez que esse observatório, o maior telescópio móvel do mundo com mais de 100 m de diâmetro, é utilizado dessa forma.

A técnica não é uma novidade. O radiotelescópio de Arecibo, em Porto Rico, era o principal instrumento no mundo com essa capacidade. Arecibo era ainda maior, com uma antena de 300 metros, mas o observatório caribenho infelizmente colapsou no final do ano passado e está sendo desativado.

O uso da técnica de radar é uma excelente maneira de se estudar os corpos no sistema solar. Com ela, os cientistas podem enviar ondas de rádio para o espaço e investigar como essas ondas se refletem em sua superfície, obtendo informações a partir do "eco" que volta à Terra. É quase como o sonar de morcegos e submarinos, mas utilizando ondas de rádio.

Arecibo era um pioneiro no campo, obtendo diversas imagens de corpos no sistema solar ao longo das suas várias décadas de operação. A técnica é uma das principais maneiras de avaliarmos as propriedades de corpos como asteroides, estudando sua forma e conseguindo pistas sobre sua formação, há bilhões de anos.

O novo sistema em Green Bank não foi desenhado para substituir Arecibo, mas sim para operar em conjunto, já que quando foi projetado os cientistas não contavam com o colapso do outro telescópio. Ainda assim, o resultado recente oferece uma excelente alternativa para observarmos o sistema solar usando essa técnica.

O local escolhido foi a região onde a nave Apollo 15 pousou, em 1971. A imagem, embora detalhada, ainda é apenas um experimento preliminar. Karen O'Neil, diretora do observatório, se mostrou satisfeita: "conseguimos resultados fantásticos", disse ela. "A primeira fase foi um sucesso absoluto".

Para conseguir realizar as observações, a equipe do observatório montou um pequeno transmissor, do tamanho de uma geladeira. Aproveitando-se das enormes dimensões do telescópio de Green Bank, conseguiram montar o transmissor na antena, enviando um sinal à Lua que foi captado por outras antenas astronômicas nos Estados Unidos que fazem parte do sistema norte-americano de linha de base longa.

A imagem obtida fala por si só. Ao analisar os ecos, podemos reconstruir digitalmente o relevo da Lua com grande detalhe, vendo crateras e montanhas com perfeição.

Os resultados animadores agora permitem a construção de um sistema mais potente, que possa investigar objetos mais distantes. É uma perspectiva positiva para o campo de ciências planetárias na próxima década.

Torço para que o projeto dê certo, já que é uma forma de recuperar parte do que foi perdido com o trágico acidente em Arecibo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL