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Thiago Gonçalves

Fim de uma era: o que o telescópio que desabou era capaz de fazer?

Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

04/12/2020 04h00

Astrônomos receberam com tristeza a notícia de que a estrutura principal do radiotelescópio de Arecibo, em Porto Rico, havia colapsado na última terça-feira (1º). O Arecibo, inaugurado em 1963, representou uma revolução para o campo, e continuava sendo um observatório muito produtivo.

Arecibo foi um gigante, literalmente. Quanto maior uma antena, mais sensível ela será aos sinais de rádio que chegam do espaço. Assim, com sua antena de 305 metros de diâmetro, Arecibo foi por mais de 50 anos o recordista de maior telescópio do mundo — ultrapassado apenas em 2016, com a inauguração de seu irmão maior, o FAST, na China, com 500 metros.

Justamente por isso sua estrutura foi inovadora. Em geral, pensamos em apontar um telescópio para o objeto que queremos estudar, mas isso é impossível com uma antena desse tamanho. A solução encontrada foi mover o receptor do telescópio, que recebe as ondas refletidas pela antena e os transforma em sinais eletrônicos. É como observar com uma luneta mas, ao invés de mover a luneta, movêssemos nosso olho atrás.

E mesmo essa estrutura secundária era enorme, pesando 900 toneladas. Para sustentá-la sobre a antena, eram necessárias diversas torres ao redor da antena com uma série de cabos de aço.

Infelizmente, após danos sofridos durante furacões e tempestades tropicais, um cabo se rompeu em agosto de 2020, com um segundo rompimento em novembro. Os cabos restantes não foram capazes de suportar o peso das plataformas, e a estrutura colapsou no dia primeiro de dezembro.

Um gigante também na ciência

Perde Porto Rico e perde a ciência. Arecibo, com seu tamanho impressionante, era capaz de observar o gás em galáxias distantes. Os átomos de hidrogênio, na forma de gás, emitem um sinal fraco em 1420 MHz, e a antena era capaz de captar esses sinais e medir a quantidade de hidrogênio em cada galáxia.

Arecibo também foi o responsável pela descoberta dos primeiros planetas orbitando outras estrelas. No entanto, ao invés de estrelas normais, estes pioneiros orbitavam pulsares, estrelas de nêutrons resultantes da explosão de supernovas que giram muito rapidamente, emitindo um forte sinal de rádio a intervalos regulares de frações de segundo.

Cientistas que observavam o pulsar B1257+12 em 1990, no entanto, descobriram que o objeto apresentava flutuações de milissegundos em seus sinais, resultado de dois planetas que o orbitavam gerando uma oscilação no pulsar.

Por último, podemos citar o incrível poder do radar de Arecibo. O telescópio não apenas recebia sinais de rádio, mas também era capaz de enviar sinais ao espaço.

Ao analisar o eco dos sinais ao atingirem um objeto interplanetário, podíamos medir suas propriedades, como seu tamanho físico, de forma similar a um submarino utilizando um sonar no fundo do mar. Era o único observatório do mundo capaz de fazer isso, analisando inclusive os asteroides com potencial de colisão com a Terra — uma perda irreparável.

Futuro incerto

Com a destruição, fica a pergunta sobre o futuro dos instrumentos. Responsáveis pelo observatório estimam em centenas de milhões de dólares o investimento necessário para reconstruir o observatório, uma possibilidade remota tendo em vista que Arecibo já vinha sofrendo para manter os investimentos de manutenção da infraestrutura.

Ao mesmo tempo, mesmo a planejada desativação do telescópio representaria um custo elevado, já que a Fundação Nacional de Ciência, dos Estados Unidos, tem o compromisso contratual de devolver o local removendo os escombros e minimizando o impacto ambiental na região.

Esperamos que a situação se resolva em breve, e que encontremos um substituto à altura desse gigante da astronomia.