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Thiago Gonçalves

Descoberta em Vênus é incrível, mas é preciso cautela sobre vida no espaço

Impressão artística de Vênus, com uma inserção mostrando uma representação das moléculas de fosfina detectadas nas altas nuvens - ESO / M. Kornmesser / L. Calçada & NASA / JPL / Caltech
Impressão artística de Vênus, com uma inserção mostrando uma representação das moléculas de fosfina detectadas nas altas nuvens Imagem: ESO / M. Kornmesser / L. Calçada & NASA / JPL / Caltech
Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

14/09/2020 13h08

Essa notícia ainda vai dar o que falar: cientistas encontraram sinais de moléculas orgânicas na atmosfera de Vênus! Isso quer dizer que podemos esperar em breve o primeiro contato com criaturinhas verdes? Não, pessoal, vamos com calma.

A impressionante descoberta foi divulgada nesta segunda-feira (14), em uma transmissão da Royal Astronomical Society no YouTube, e também foi publicada na revista Nature Astronomy. Liderada por Jane Greaves, da Universidade de Cardiff (País de Gales), o estudo é uma cooperação entre cientistas de diversas instituições do Reino Unido, dos Estados Unidos e do Japão, incluindo o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, na sigla em inglês), que divulgou o vídeo abaixo (em inglês).

Eles não encontraram vida venusiana diretamente, mas sim uma importante evidência: a presença de fosfina (hidreto de fósforo, PH3). Nas grandes quantidades em que foi encontrado, o gás pode ser resultado de processos biológicos e, consequentemente, de seres vivos.

Greaves usou o radiotelescópio James Clerk Maxwell, no Havaí, para estudar a atmosfera do planeta Vênus, e a equipe deu seguimento ao trabalho com o potente observatório Alma (Observatório Grande Matriz Milimétrica do Atacama), no Chile. Nos dados, um resultado surpreendente: a atmosfera de Vênus contém uma quantidade elevada de fosfina.

Essa molécula, formada por um átomo de fósforo e três átomos de hidrogênio, é uma importante aliada de astrobiólogos. Isso porque na Terra ela é produzida somente em laboratórios ou pela redução de fosfato por sistemas orgânicos.

A doutora Clara Sousa-Silva (Instituto de Tecnologia de Massachussets), que também é autora do trabalho, já trabalha há algum tempo com simulações computacionais prevendo a ocorrência de fosfina em planetas habitáveis, em particular em ecossistemas sem a presença de oxigênio.

Segundo ela, se hipotéticos microorganismos venusianos trabalhassem a aproximadamente 10% da máxima eficiência de seus primos terráqueos, a quantidade de fosfina poderia, sim, ser explicada.

Pronto, problema resolvido! Encontramos vida em outro planeta! Ou não? A própria equipe de cientistas está sendo muito cuidadosa em como trata os resultados. O grupo dedicou muito tempo a buscar origens cada vez mais exóticas para a fosfina, como por exemplo uma faísca produzida pelo atrito entre placas tectônicas. Nenhuma hipótese, no entanto, foi capaz de explicar a abundância fosfina observada.

Ainda assim precisamos ser cautelosos. Um caso parecido aconteceu na década de 80, quando encontraram monóxido de carbono em Titã, a maior lua de Saturno. Nenhum modelo parecia explicar o resultado, até que descobriram que os jatos de água lançados por Encélado, outra lua saturniana, alcançavam Titã e reagiam com o carbono, formando as moléculas de monóxido de carbono. Nenhum modelo havia previsto isso até então.

O que dizem os pesquisadores

"Estamos procurando por sinais de vida em exoplanetas, procurando por gases que não esperamos que estejam lá, e há muitas missões em busca de sinais potenciais de vida em nosso próprio Sistema Solar", disse a professora Sara Seager, astrofísica do MIT e uma das participantes do estudo, em seu perfil no Twitter.

"É muito difícil provar uma [evidência] negativa", disse Sousa-Silva, do MIT, ao site da instituição. "Agora, os astrônomos pensarão em todas as maneiras de justificar a fosfina sem vida, e eu dou boas vindas a isso. Por favor, façam isso, porque estamos no fim de nossas possibilidades de mostrar processos abióticos que podem produzir fosfina", explica

"Isso significa que isso é vida ou é algum tipo de processo físico ou químico que não esperamos que aconteça em planetas rochosos", acrescenta o coautor e cientista pesquisador da EAPS, Janusz Petkowski.

O astrônomo Marcelo Borges Fernandes, pesquisador do Observatório Nacional dedicado aos estudos de astrobiologia, comemora o anúncio.

"A detecção de fosfina na alta atmosfera de Vênus e uma possível explicação biológica para ela devem abrir as portas para novos caminhos na busca de vida no Universo. Apesar de já terem sido considerados diferentes ambientes para a existência de vida, o foco principal tem sido na busca de planetas com ambientes similares aos encontrados na Terra", explica Fernandes.

Portanto, a possível existência de vida em Vênus expandiria o nosso conhecimento sobre os limites onde podemos encontrar vida e isso seria fascinante! Entretanto, mais observações e modelos teóricos são necessários para confirmar e entender como poderia haver vida em um ambiente tão extremo
Marcelo Borges Fernandes, pesquisador do Observatório Nacional

Bioassinatura

A fosfina é um gás incolor altamente tóxico e malcheiroso. Na Terra, é produzido apenas por microrganismos, de forma anaeróbia (sem a presença de oxigênio), por isso é uma "bioassinatura". Por aqui, a única outra maneira de consegui-lo é em laboratório. Mas, em Vênus, poderia ser resultado de outros processos naturais desconhecidos.

Vênus é o planeta mais próximo e mais parecido com a Terra no Sistema Solar. Mas, seu ambiente é superquente e hostil: a superfície acidentada, com rios de lava, beira os 470 °C —suficiente para derreter chumbo. O ar tem alta concentração de dióxido de carbono (97%), nuvens de ácido sulfúrico, chuva ácida, ventos de 724 km/h e pressão capaz de esmagar ossos.

É o último lugar em que imaginaríamos encontrar vida. Mas, cerca de 50 km acima do solo, as condições são parecidas com a da Terra, adequadas para a vida. É lá que está a fosfina. Então podem haver venusianos microscópicos na atmosfera no planeta.

De onde veio a fosfina?

Há bilhões de anos, Vênus pode ter tido oceanos que abrigariam vida, como na Terra. Cientistas acreditam que, com o aquecimento e hostilização do ambiente, essa vida teve de se adaptar. E se mudou para o ar, uma espécie de envelope habitável.

Os cientistas analisaram os dados por mais de seis meses até se convencerem da presença do gás. E testaram diversos cenários em que ele pudesse ser produzido em larga escala sem a presença de vida, como com luz do sol, minerais, vulcões e trovões. Todos deram negativo. Como Vênus quase não tem oxigênio em sua atmosfera, é mais um indicativo de que organismos anaeróbios possam estar envolvidos.

Nos últimos anos, estudos mostraram que, se fosfina fosse encontrada em algum outro planeta rochoso, seria uma prova de vida. Mas ainda há muito a ser estudado antes de podermos afirmar isso. Os pesquisadores irão fazer mais observações de telescópio, pesquisar as variações de concentração do gás e procurar outras substâncias associadas à vida.

Por isso tudo acho que o anúncio feito hoje é um exemplo a ser seguido. Provar que não encontramos vida em outro planeta nesse caso é muito difícil, porque seria necessária saber todas as outras possibilidades, mas o que vimos hoje é uma descoberta robusta de um fenômeno que não conseguimos explicar de outra forma.

Eu pessoalmente estou muito animado com as pesquisas que vêm por aí, sem dúvida com muito mais detalhes sobre as origens dessa molécula. Só não saiam correndo gritando que encontraram alienígenas em Vênus, porque ainda não é bem assim.

* Com reportagem de Marcella Duarte

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.