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Rosto ou corpo: o que a foto do perfil diz sobre usuários de apps LGBTQ?

Rafaella Robba/Canva
Imagem: Rafaella Robba/Canva
Felipe Germano

Felipe Germano é jornalista que escreve sobre comportamento humano, saúde, tecnologia e cultura pop. Para encontrar as boas histórias, atravessa o planeta: visitou de clubes de swing e banheiros do sexo paulistanos à sets de cinema hollywoodianos. Já trabalhou nas redações da Jovem Pan, do site Elástica, na revista Época e na revista Superinteressante.

20/11/2020 04h00

Gus usa uma foto com um sorriso de canto de boca e veste uma jaqueta de couro entreaberta. Já o Atv não dá as caras: sua imagem de perfil mostra o tanquinho definido e parte da cueca branca. Entre os dois vemos Ricardo, também rindo, com seus óculos escuros, e o Macho x Dot, que não mostra o rosto, mas expõe o corpo malhado.

Essa foi a minha página inicial do Grindr, mas poderia ser a de praticamente qualquer pessoa. Não precisa ser exatamente um cientista para entender que o app quase que se separa em dois grupos: os que postam foto do rosto e os que preferem compartilhar imagens do corpitcho.

Não precisa ser cientista? Mas, olha só, um cientista resolveu estudar a questão: a foto nos apps gays dizem alguma coisa sobre a personalidade dos usuários? A resposta é: sim —e é mais complexa do que parece.

Rosto ou do corpo: o que a foto de perfil diz sobre usuários de apps LGBTQ? - Rafaella Robba/Canva - Rafaella Robba/Canva
Imagem: Rafaella Robba/Canva

Para chegar às respostas, Brandon Miller, pesquisador da Universidade de Boston (EUA) entrevistou 322 homens que fazem sexo com homens (conhecidos pela sigla HSH). A descrição é importante porque vai muito além do "homem gay".

Além de entrevistar rapazes pan ou bissexuais, HSH inclui também pessoas que simplesmente não gostam de se rotular, ou aqueles que fazem sexo homoafetivo, mas se declaram héteros.

Todos os participantes deveriam estar em algum tipo de app LGBTQIA+, como o Grindr, e responder uma série de perguntas.

Algumas delas, claro, se dedicavam a entender como era o perfil dos entrevistados nos apps. Sua foto principal mostra seu rosto? Completa ou parcialmente? Não? Então mostra o corpo? Seu torço está completamente nu? Há alguma foto no seu perfil público que contenha nudez ou seminudez? Entre outras coisas.

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Imagem: Rafaella Robba/Canva

Outras questões tentavam traçar uma linha mais comportamental dos envolvidos. Quantos anos você tem? Há quanto tempo usa o app? Gosta do seu corpo? Se sente fora do armário? Como é sua relação com homens afeminados?

Com os dados planilhados, Brian passou a ligar os pontos e as conclusões começaram a aparecer.

"Imagens onde o rosto aparecia foram ligadas a um maior (e mais longo) uso dos apps e uma sensação maior de estar fora do armário", afirmou Brandon na conclusão de seu estudo.

"Ao mesmo tempo, fotos do corpo foram ligadas à idade, busca por masculinidade e aversão a homens femininos", completa.

Há alguns pontos que explicam essas conclusões.

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Imagem: Rafaella Robba/Canva

A primeira é a homofobia. Não é à toa que muitos homens não mostram o rosto, eles talvez não se sintam seguros a tal ponto. A maioria dos caras que se enquadraram no grupo dos tanquinhos possuía alto nível de educação e grana.

"Por conta da reputação sexualizada e estigmatizada de apps como o Grindr, homens de determinados contextos econômicos, profissionais e culturais, talvez evitem mostra o rosto, por medo de consequências na sua reputação", afirma Brandon. Isso explica uma sensação maior de estar dentro do armário.

Ao mesmo tempo, quem mostrava o rosto tendia a usar mais o app. Uma outra pesquisa feita em 2010 pela Universidade de Sussex (Reino Unido) corrobora para isso. No estudo concluiu-se que mostrar um rosto era um sinal de comprometimento com o uso do app.

Em outras palavras, de acordo com as pesquisas, mostra o rosto quem está procurando mais do que transas casuais.

Claro, isso é uma teoria, não uma resposta cravada. "Há também a possibilidade de que esses homens usem mais os apps simplesmente porque estão mais à vontade com a própria sexualidade", conta Brandon.

Os descamisados também se sentiam mais seguros com seus próprios corpos —o que provavelmente lhes deixavam mais confortáveis na hora de compartilhar fotos sem roupa. Não só isso, eles majoritariamente ligavam a exibição de corpo com masculinidade. O que explica (mas não justifica) o porquê de eles se sentirem mais masculinos que a média —e também evitarem homens afeminados.

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Imagem: Rafaella Robba/Canva

O estudo, vale ressaltar, não escreve nada em pedra. Até porque, 300 pessoas é uma base ok; não extraordinária ao ponto de trazer certezas absolutas. Mas é um começo, para entendermos melhor como é, de fato, a vida no flerte online. É a ciência colocando a cara (e o corpo) no sol.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL