PUBLICIDADE
Topo

Sexting

Pandemia mexeu com nossas fantasias sexuais de jeitos inesperados

Canvas
Imagem: Canvas
Felipe Germano

Felipe Germano é jornalista que escreve sobre comportamento humano, saúde, tecnologia e cultura pop. Para encontrar as boas histórias, atravessa o planeta: visitou de clubes de swing e banheiros do sexo paulistanos à sets de cinema hollywoodianos. Já trabalhou nas redações da Jovem Pan, do site Elástica, na revista Época e na revista Superinteressante.

03/09/2020 04h00

Em agosto, na Austrália, as coisas ficam extremamente calientes. Culpa de um pequeno roedor, o Antechinus, que entra na sua temporada de acasalamento. O bichinho fica cheio de tesão. Tanto que sai pelo país oceânico transando até, literalmente, morrer de cansaço —-o que acontece em, no máximo, três semanas de maratona sexual.

Chegamos em setembro e, no Brasil e no mundo, tem gente até invejando a forma como o ratinho passa dessa para uma melhor. O isolamento afetou a vida sexual de quem tem fugido do vírus. Pelo menos é o que aponta uma nova pesquisa que crava: estamos fantasiando cada vez mais e por motivos intimamente ligados à pandemia.

O Instituto Kinsey, uma das mais respeitadas organizações de sexologia do planeta, tem tentado entender como a covid afetou a vida sexual mundo afora.

O primeiro estudo, lançado mês passado, foi sobre como a covid mudou nossos atos sexuais. Desde então, os pesquisadores envolvidos seguem atualizando a base de dados para compreenderem, com cada vez mais detalhes, a relação entre o sexo e o corona.

Nas últimas semanas, o pesquisador-chefe do estudo, Justin Lehmiller, adiantou em sua página pessoal algumas estatísticas desta nova fase de pesquisas. E os resultados explicam bastante o dia a dia de quem não vê a hora de tomar a vacina para ativar os contatinhos do Tinder.

Os novos resultados miraram especificamente em como as fantasias sexuais têm aparecido durante esse período. E como "fantasia" podemos entender os pensamentos eróticos que colocam a gente em outro contexto na hora H, valendo tanto no sexo propriamente dito ou em momentos a sós.

Quando o assunto é a frequência com que tem fantasiado, em comparação com antes do isolamento, a resposta entre os entrevistados foi:

  • 8% disseram que estão fantasiando muito mais
  • 27% disseram que estão fantasiando um pouco mais
  • 40% disseram que estão fantasiando mais ou menos na mesma proporção de antes
  • 17% disseram que estão fantasiando um pouco menos
  • 9% disseram que estão fantasiando muito menos

Beleza. Então 35% dos respondentes disseram que tiveram algum tipo de aumento no número de vezes que pensaram em fantasias sexuais. Mas por quê? Foi o que os pesquisadores tentaram descobrir.

Os respondentes que afirmaram terem tido um pico fantasioso durante o período preencheram um formulário (onde poderiam marcar mais de uma opção), que dissecava as motivações. Os resultados mais populares foram:

  • 49% fantasiaram para aumentar o tesão
  • 39% fantasiaram para fugir temporariamente da realidade
  • 34% fantasiaram para atender às necessidades sexuais que não andam sendo satisfeitas
  • 33% fantasiaram para relaxar ou reduzir a ansiedade
  • 31% fantasiaram para compensar a falta ou ausência de um parceiro
  • 29% fantasiaram sobre uma transa no futuro
  • 29% fantasiaram porque estavam entediados e não tinham mais nada para fazer
  • 18% fantasiaram para atender às necessidades emocionais que não andam sendo satisfeitas

Ou seja: tédio, necessidade de esquecer um pouco sobre a pandemia ou simplesmente saudade do sexo no velho normal.

As repostas não são exatamente surpreendentes, mas ajudam as metades isoladas da laranja a entenderem que não estão sós. Isso está acontecendo com muita gente.

O teor das fantasias também foi abordado —e também foi afetado pelo corona.

  • 47% disseram que se pegaram fantasiando sobre coisas que nunca haviam fantasiado antes
  • 41% disseram que sua fantasia sexual favorita mudou
  • 39% disseram que estão fantasiando mais sobre experiências sexuais anteriores
  • 35% disseram que estão fantasiando menos sobre o sexo em si e mais sobre como atender às necessidades emocionais
  • 29% disseram que fantasiaram sobre quebrar ordens de bloqueio ou quarentena para fazer sexo
  • 23% disseram que estão fantasiando mais sobre ex-parceiros
  • 3% disseram que tiveram fantasias envolvendo imagens relacionadas a covid-19 (ou seja, máscaras, luvas, macacões, etc.)

Para os envolvidos na pesquisa o motivo das mudanças é que, de uma hora para outra, nos vimos presos em uma situação atípica, o que tem influenciado nas vontades de cada um na cama.

Por isso, inclusive, que a maioria das mudanças de fantasia não tem sido para deixar as coisas mais fetichistas. Pelo contrário, os pesquisadores afirmam que a maioria das pessoas começou a fantasiar sobre coisas mais fofas. Faz sentido: os solteiros foram os mais afetados pelo isolamento, quem não tinha um parceiro físico dentro de casa, passou a fetichizar sobre, olha só, carinho mesmo.

Agora vale ressaltar esses 29% que estão sonhando em furar a quarentena para transar. Cada um com sua vida, não estou aqui para ditar regra para ninguém, mas já citamos aqui outras formas seguras de aliviar o tesão sem furar a quarentena, como as orgias virtuais. Vale mais a pena do que arriscar ter um destino parecido demais com o nosso amiguinho roedor australiano?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL