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Aplicativo criado por ex-engenheiros da Apple junta o Tinder com astrologia

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Felipe Germano

Felipe Germano é jornalista que escreve sobre comportamento humano, saúde, tecnologia e cultura pop. Para encontrar as boas histórias, atravessa o planeta: visitou de clubes de swing e banheiros do sexo paulistanos à sets de cinema hollywoodianos. Já trabalhou nas redações da Jovem Pan, do site Elástica, na revista Época e na revista Superinteressante.

01/09/2020 04h00

Você não precisa ser Sol, raio, estrela ou luar. Mas na busca por fogo e paixão, há quem procure ajuda nos astros. E não é só o Wando.

Struck é um novo app que promete unir astrologia com apps de encontro, como o Tinder. O aplicativo foi criado por Rachel Lo e Alex Calkins. Formada em engenharia , a dupla não compôs nenhum sucesso do brega, mas tem no currículo a participação de alguns hits: como o iPhone 6, 7 e o Apple Watch.

O Struck se propõe a ser uma espécie de iCupido-Astrologo-Robô. Ao se cadastrar, você preenche um formulário com algumas informações sobre você: Em que dia você nasceu? Onde? Que horas eram? Com isso o algoritmo do app te coloca no mundo da astrologia. Traça um mapa astral e os compara com o dos outros pretendentes da rede, indicando quem combina mais com você. É quase como se você fosse para o bar com a Susan Miller.

Além da levada esotérica, o aplicativo também tenta se afastar de outros apps de relacionamento no quesito quantidade. Dentro do app você não encontra dezenas de rostinhos e escolhe em qual dar match. Pelo contrário. Quem usa se depara apenas com quatro pessoas por dia —-e você só pode mandar mensagem para uma delas. Foco na estrela, não em constelações.

Rachel e Alex se conheceram na Apple, há meia década, quando trabalhavam como engenheiros de design na maçã de Steve Jobs. Lá trabalharam, por exemplo, na tela da sexta e sétima geração de iPhones, e no chassi do primeiro smartwatch da Apple. Uma realidade não muito parecida com a da startup que criaram. No ano que se conheceram, a Apple tinha cerca de 110 mil funcionários espalhados pelo mundo. A Struck tem dois.

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Imagem: Divulgação

"Quando você está em uma big tech, inevitavelmente acaba trabalhando em uma pequena parte de um grande projeto. Isso não é uma coisa ruim, simplesmente não era o que nós dois queríamos fazer", conta Rachel ao Sexting. "Sempre há um novo problema para resolver, sempre um novo recurso para construir ou algum outro desafio para enfrentar. É bastante caótico, mas, definitivamente, nunca é chato", completa.

Em uma ironia estrelar, no entanto, foi justamente com a Apple que os dois enfrentaram o maior desafio da iniciativa até agora. A antiga empregadora da dupla barrou, por nove vezes, a tentativa de colocar o aplicativo na App Store.

A culpa, aparentemente, era do artigo 4.3 no guia de permissões para desenvolvimento de aplicativos da Apple. "A notificação que recebíamos era de que apps de astrologia eram considerados spam, e que deveríamos reconsiderar o conceito do app", conta Rachel. A Apple só abre exceções para aplicativos considerados "únicos", de alta qualidade. Foi nisso, então, que tentaram se encaixar. E conseguiram.

A aprovação veio na décima tentativa, coincidentemente ou não, após apoiadores da iniciativa comentarem em um post no Instagram de Lisa Jackson, atual vice-presidente a Apple. "A essa altura, estamos apenas gratos por poder distribuir seu aplicativo na App Store, mas foram dois meses que, se pudesse, não viveria de novo", conta.

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Imagem: Divulgação

Mas, dois engenheiros, formados numa ciência exata, resolveram se aventurar nesse mundo tão criticado por cientistas que é a astrologia. Não é estranho? Não necessariamente. "Como uma mulher que estudou engenharia mecânica (um campo que tinha menos de 5% de mulheres quando me formei na faculdade) e trabalhou em funções técnicas ou tecnicamente adjacentes desde então, passei muitos anos lutando para provar meu valor como engenheira/cientista", conta Rachel. "Bastou eu mudar um pouco isso para obter reações mistas à minha decisão. Ouvi coisas como 'eu não sabia que você gostava de astrologia', com um tom questionador", completa.

Na real, para Rachel, essa comparação não faz nem muito sentido. "Alex e eu somos cientistas de coração, mas acho que, embora a comunidade científica esteja sempre tentando descartar a astrologia como uma pseudociência, aqueles na comunidade astrológica raramente defendem que ela seja considerada uma ciência. Portanto, há uma discussão incompatível acontecendo", afirma.

O foco, para ela, está menos nas estrelas e mais nas pessoas. "Eu acho que a astrologia pode fornecer às pessoas uma linguagem para falar sobre suas emoções. No mundo ocidental, e especialmente nos Estados Unidos, não somos muito versados em ter esse tipo de discussão, e aprender sobre astrologia dá às pessoas as ferramentas para expandir seu vocabulário", conta.

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Vocabulário esse que, por enquanto, vamos ter que esperar mais um pouco para utilizar pelo app. O Struck, atualmente, só funciona em partes dos EUA. Não que estejamos órfãos. Aplicativos como o NUiT também se propõem a unir formação de casais com astrologia —e estão disponíveis no Brasil. São criados por ex-funcionários da Apple? Não. Mas servem para quem não quer esperar o Struck chegar por aqui —o que deve acontecer.

"Temos esperança de que no futuro esteja disponível para o Brasil. Estamos nessa fase de uma equipe de dois funcionários por enquanto, mas queremos ser internacionais em breve", afirma.

No fim, o objetivo é achar alguém para beijar na boca e amar no chão. E se o Vale do Silício quer ajudar, por que não?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL