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Ricardo Cavallini

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que vai bombar em 2022? Ler sobre tendências é um erro estratégico

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Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

03/01/2022 10h00

Chegamos a época do ano onde pipocam artigos e papers sobre tendências. O que vai bombar em 2022, as tecnologias que irão impactar o seu mercado ou a sua indústria e por aí vai. Uma das minhas resoluções de ano novo foi justamente não aceitar pedidos de artigos sobre as tais tendências ou previsões para 2022.

Percebo como o equivalente corporativo dos programas de TV entrevistando videntes e sensitivos em geral. Os mesmos que erraram todas as previsões nos últimos anos dando palpite sobre quem vai morrer, quem vai bombar, quem precisa tomar cuidado ou vai se dar bem no amor e nos negócios.

Porém, mesmo ignorando previsões exageradas ou muitas vezes feitas por quem não entende nada sobre o assunto, existem três motivos pelos quais você deveria ignorar todo texto sobre tendências ou tecnologias que vão bombar em 2022.

1. A mudança é uma constante

Buscar as tendências para 2022 é não perceber que a única constante é a mudança. As coisas estão mudando todos os anos — e mudando rápido.

Ter um planejamento anual é correr atrás do próprio rabo. Mesmo o tal "novo normal" que foi tendência há pouco tempo era, antes de tudo, um risco de entendimento. É óbvio que a pandemia gerou necessidades de mudanças emergenciais, mas acreditar que só precisamos nos adaptar a um novo cenário ignora que o cenário está em constante mudança. E cada vez mais rápido.

E que uma mudança puxa a outra que puxa a outra. A pandemia gerou uma aceleração na digitalização dos serviços e do seu uso pelos brasileiros. Também gerou uma aceleração do home office. E ambos irão gerar novas consequências. Novas mudanças de comportamento e de consumo, que por sua vez vão gerar novas mudanças.

Se a constante é mudança, mais do que aprender a nova tendência, é preciso ter uma estratégia de aprendizado contínuo. Qual seu plano de aprendizado? Como você e sua empresa estão trabalhando para isso acontecer?

2. O maior impacto vem de tendências antigas

As tecnologias de maior impacto não são novas. Impressão 3D, inteligência artificial, internet das coisas. Nada disso é novo, porém nada disso tem o mesmo apelo que falar sobre NFT, Metaverso ou 5G.

Na maioria das vezes, tecnologias exponenciais têm impacto maior justamente quando não estão na moda. É claro que é legal falar sobre metaverso. Com a Meta (Facebook) voltando sua atenção para isso, é até importante discutirmos sobre o assunto. Mas existe um abismo enorme entre marcas fazendo ações de marketing para gerar mídia espontânea e de fato a tecnologia se tornar relevante em 2022. Travis Scott fazendo show no Fortnite e Gucci vendendo roupas no Roblox são relevantes, mas pintar isso de metaverso é só uma roupagem nova sobre o universo dos games que já conhecemos há muitos anos.

3. Tem muita empresa que não resolveu o básico

O que era tendência ou novidade há 2 ou 3 anos pode estar neste momento em um estágio de penetração ou maturidade para causar grande impacto. E pode apostar, boa parte das empresas e profissionais ainda não estão em dia com o que não é mais novidade. Eu citei games no item anterior? A maioria das empresas e profissionais ainda não entendem o universo, o tamanho dessa indústria e seu impacto na cultura e comportamento dos consumidores.

Para dar outro exemplo, como sabemos, a pandemia gerou uma onda enorme de mudança. Mas na emergência, empurramos muita coisa para debaixo do tapete. Cuidamos do emergencial mas isso é bem diferente de dar isso como resolvido.

Ninguém mais aguenta falar sobre a pandemia, mas ao mesmo tempo, a maioria ainda não resolveu os problemas e impactos que ela causou e continua causando.

A escola dos nossos filhos está voltando as aulas presenciais mas ignorando os benefícios das aulas online. Deveríamos discutir um modelo híbrido ou ninguém quer falar sobre o assunto?

E o trabalho no escritório. Tem muita gente pedindo demissão por que não quer voltar ao presencial e têm muita empresa que já entendeu a necessidade de estarmos juntos para trabalhar cultura, inovação e outras coisas. Poucas têm maturidade para discutir o problema de cabeça aberta.

No e-commerce temos uma leva de novos consumidores que estão fazendo compras pela primeira vez, estamos atendendo esse povo da maneira correta?

Para tudo isso, existe uma curva de aprendizado e um vai e volta de adaptação e amadurecimento.

Ainda tem muita empresa que não resolveu o básico. E muitas estão implementando novidades sem fazer direito. Para dar um exemplo, muita empresa discutindo IA sem nem ter um chatbot. E um outro tanto de empresas com chatbots em funcionamento, mas que mais atrapalham do que ajudam.

Chatbot não é mais novidade, mas a sua empresa já tem um? Já funciona direito? Então talvez esteja na hora de resolver o básico antes de pensar no tal metaverso ou no 5G. Eu sei, vender roupinha no metaverso gera um post do VP de marketing no Linkedin, lançar um chatbot não mais.

O próprio aprendizado contínuo que citei no item anterior já não é mais uma novidade mas é cada vez mais relevante. Sua empresa já resolveu isso? E você enquanto profissional? Já tem uma estratégia e já esta executando um plano de ação para se manter sempre em dia? Se não está, dou uma dica, não comece pelos artigos sobre tendências e tecnologias de 2022.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL