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Ricardo Cavallini

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ideia de Musk colocar outdoor no espaço é inútil e fica difícil admirá-lo

Elon Musk teria fechado um acordo com uma startup canadense para botar um outdoor de propaganda no espaço - Jim Watson/AFP
Elon Musk teria fechado um acordo com uma startup canadense para botar um outdoor de propaganda no espaço Imagem: Jim Watson/AFP
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Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

11/08/2021 04h00

Não sou de ter ídolos. A idolatria ignora que o ser humano, por mais genial que seja, tem muitos defeitos. Também nunca paguei pau para bilionário, até porque, a maioria deles não é bilionário por mérito próprio. Mas, isso dito, tenho admiração por alguns pelo conjunto da obra. Elon Musk era um deles.

Nerdão, empreendedor, investidor em tecnologia de ponta. Fala besteira no Twitter? Fala sim, aos montes. Mas como todo gênio fala besteiras, até isso eu conseguia ver o lado "copo meio cheio".

Se comportar como criança no Twitter humanizava o personagem, principalmente em contraste a outros CEOs, tão pasteurizados e intocáveis por uma camada de relações públicas, advogados, ghostwriters e suas equipes de redes sociais. Mais humano, mais real.

Com a Tesla, assume parte da liderança necessária para provocar a mudança da matriz energética. Com seus carros autônomos, trará também uma queda vertiginosa no número de acidentes de trânsito, causado em sua maioria por seres humanos.

Diferente de Bezos e Richard Branson, mais preocupados em torrar combustível para dar alguns minutos de turismo espacial para outros bilionários, a SpaceX pode trazer um avanço enorme para a humanidade. Ainda que seu pretenso objetivo de colonizar Marte esteja distante, já serve para levar objetos e tripulação para missões espaciais.

Baratear o lançamento de satélites permitirá que o ser humano use o espaço para muitos outros benefícios. Para agricultura, meteorologia, queimadas, meio ambiente etc.

Sua outra empresa, a Starlink, que utiliza satélites para prover internet é um exemplo disso. O acesso a internet, que hoje entendemos ser um direito humano, poderá chegar a áreas remotas, situações de catástrofe e, apesar de não existir um plano ainda para isso, regiões e população mais pobres pelo mundo.

E toda essa tecnologia vai gerar mais benefícios, diretos e indiretos, para a humanidade. Para dar apenas um exemplo, muitos dos avanços da medicina vieram do investimento nas viagens espaciais.

É claro que muitas pessoas não gostam dele apenas pelo fato de ser bilionário. Acham um absurdo existir bilionários (e em breve um trilionário) enquanto boa parte do mundo vive em pobreza absoluta. Também me incomoda essa gigante desigualdade, mas essa é outra discussão.

Porém, esta semana ficou mais difícil admirar Elon Musk, graças à notícia que ele teria fechado um acordo com uma startup canadense para botar um outdoor de propaganda no espaço.

Não consigo imaginar um uso mais inútil para a exploração espacial que este. Mais fútil, mais desnecessário, mais incômodo, mais desinspirador. Tudo o que não precisamos é de mais um banner, mais uma propaganda.

As iniciativas espaciais já terão bom lucro sem isso. Modelo de negócio e de receita não faltam.

Não existe nenhuma explicação lógica para isso a não ser o fato de Elon Musk ser apenas mais um babaca. Alguém cujo discurso de mudar a matriz energética ou prover o futuro da humanidade fora da Terra seja apenas mais um daqueles manifestos que surgiram aos montes em campanhas publicitárias nos últimos anos.

Empresas soltando textões bonitos de posicionamento, mas que no fundo eram apenas isso, discurso. Assim como a Enron tinha enormes blocos com as palavras "respeito" e "integridade" escritas em sua recepção.

Outdoor a parte, essa possível iniciativa no espaço traz outra discussão, esta ainda mais relevante. Quem é dono do espaço?

E se ninguém é dono, ele seria terra de ninguém? Qualquer um (com acesso) pode fazer uso comercial sem nenhuma regra ou limite? Qualquer um poderá botar seu banner?

Quem conseguir poderia minerar um teragrama de ouro em um asteroide e destruir o valor do minério no planeta?

O país que chegar em Marte antes pode se posicionar como dono do planeta?

Apesar de algumas perguntas parecerem distantes, essa brincadeira já começou.

Antes da SpaceX, o planeta tinha cerca de 5 mil satélites ao redor da Terra. A SpaceX já lançou cerca de 1.500 novos, com planos para 12 mil e autorização para 42 mil. E estamos falando de apenas uma empresa, pelo menos outras duas têm planos para lançar milhares de satélites. E quando ficar mais acessível e centenas de empresas fizerem o mesmo?

Esta discussão precisa ser feita. Enquanto isso, torço para que Elon Musk continue botando merda no Twitter, mas que não faça o mesmo no espaço.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL