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Ricardo Cavallini

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Por que o poder das big techs é a nova preocupação para o futuro do cinema

Karen Zhao/ Unsplash
Imagem: Karen Zhao/ Unsplash
Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

15/06/2021 04h00

O sucesso das plataformas de streaming foi um golpe duro para os cinemas. A pandemia, outro. Agora o avanço das big techs com seus bolsos cheios de dinheiro comprando estúdios é mais um motivo para preocupação.

A Amazon comprou a MGM por US$ 8,45 bilhões. Um valor cerca de 40% maior que o mercado estimava que seria oferecido por outras empresas, como a Apple. Este ágio é uma amostra que a compra é mais estratégica que financeira.

Empresas de streaming já entenderam como é importante ter franquias que diminuam o risco e o custo de novos lançamentos. Não à toa que todos estão querendo lançar sua versão da Marvel. Amazon lançou "Invencível" e "The Boys", Netflix lançou "O Legado de Júpiter", "The Umbrella Academy" e "Ragnarok".

A MGM tem uma vasta lista de propriedade intelectual e franquias de sucesso que agora podem ser refilmadas, requentadas, ter continuações ou até derivados (spin-offs). Nomes como James Bond, Robocop, Rocky, O Hobbit, Família Addams, Stargate, A Pantera Cor de Rosa, G.I. Joe e Fúria de Titãs são apenas alguns exemplos.

Não é muito diferente do que as big techs fizeram em outros mercados, comprando empresas basicamente pela sua lista de patentes. Para dar apenas um exemplo, Google e Motorola.

Algumas pessoas alegam que o faturamento do cinema é algo grande demais para ser ignorado por estas empresas, mas o que pode acontecer quando um estúdio é comprado por alguém cujo bolso é infinito e está pensando em um mercado muito maior?

O investimento em produção de conteúdo que as big techs estão fazendo já é algumas vezes maior que o investimento de Hollywood.

A Amazon acaba de investir quase meio bilhão de dólares para produzir a primeira temporada de sua série sobre "O Senhor dos Anéis". A estimativa total de investimento com outros custos passará dos US$ 650 milhões. É a série mais cara de todos os tempos. E um investimento quase duas vezes maior que os filmes mais caros de todos os tempos.

Lembrando que a Disney abocanha uma fatia bem gorda das salas, com 38% da bilheteria vindo de filmes da empresa. A Disney pode ver o cinema como aliado, mas Netflix, Apple e Amazon, não necessariamente.

Blockbusters são parte essencial da estratégia de todos eles. Um blockbuster que pode ser visto em outros locais perde muito a sua força. Enquanto Netflix reinava absoluta, tudo bem, mas agora boa parte dos consumidores terá que escolher entre um serviço ou outro. Nem todo mundo poderá pagar por todos eles.

Focar a distribuição de filmes e séries em apenas uma distribuição também garante uma fatia maior do dinheiro. No processo tradicional, uma boa parcela da receita é dividida com exibidores e outros intermediários que fazem venda e distribuição. Em alguns países, outra parte considerável acaba sendo gasta em uma cascata de impostos em todas essas divisões.

Outra coisa que não percebi ninguém falando nas análises até agora. A maior parte da receita de um filme não vem do cinema, mas do aparelho de TV. São receitas vindas de TV aberta, TV fechada, Blu-ray e pay per view.

A perda destas receitas já é um prejuízo realizado para quem é dono de um serviço de assinatura como Netflix. Primeiro pelo fato de serem frentes encaradas como concorrentes. Segundo porque parte dessas frentes estão perdendo força ou morrendo (caso de TV por assinatura e Blu-ray) e terceiro porque a queda da janela do cinema fará algumas dessas frentes perder o sentido.

Outra parte considerável da receita vem de merchandising. Quando as big techs compram empresas com franquias de sucesso, essa é uma receita nova bastante interessante, principalmente para Amazon.

Tudo isso sem esquecer que para algumas empresas, o ecossistema se retroalimenta. Um assinante da Amazon Prime gasta mais na loja. Para a Apple, a App Store ajuda a vender iPhones e vice-versa. Manter um cliente em seus ecossistemas garante mais fidelidade, mais receita, mais lucro.

O YouTube comprou os direitos para transmitir o campeonato paulista de futebol e deverá permitir que vários influenciadores usem cenas do campeonato para gerar conteúdo. Este é uma visão de trabalho baseado em plataforma que as indústrias tradicionais têm muita dificuldade para entender mas são a base do universo das big techs.

Apesar das possíveis dificuldades legais, a Amazon poderia trabalhar para permitir que fabricantes chineses criassem produtos usando suas franquias, ficando com uma fatia maior do valor de venda. A bateria do Robocop, a câmera de segurança do 007, roupas do Hobbit e brinquedos de todos eles. É uma viagem pensar nisso mas as ramificações possíveis são grandes.

As novidades não param por ai. Em agosto do ano passado, o Departamento de Justiça norte-americano decidiu terminar o decreto que impedia estúdios de cinema serem proprietários de salas de exibição.

Agora, Disney, Netflix, Amazon e Apple poderão ter suas próprias salas, ficando com 100% da receita e criando outros modelos de negócio. Apple e Amazon poderiam ter salas de cinema com loja e lançarem versões de assinaturas premium que dessem direito a ingressos por mês. Outras possibilidades como ter maratonas de séries também na tela grande.

Talvez isso não aconteça, mas é mais um desafio que pode mudar para sempre esse mercado. Não foram poucos nesses últimos anos.

A princípio pode parecer que teremos mais competição que nunca, por outro lado, o histórico das big techs não é nada bom nesse sentido. Talvez o cinema não morra, mas muito provavelmente vai morrer da forma como nós o conhecemos hoje.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL