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Ricardo Cavallini

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Criticar consumo de energia do bitcoin desvia nosso foco do problema real

Dmitry Demidko/ Unsplash
Imagem: Dmitry Demidko/ Unsplash
Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

14/05/2021 04h00

Este é um tema que vai e volta com o tempo. Nos últimos meses, com a moda do NFT, diversos veículos saíram para o ataque dizendo que a emissão de um único NFT equivale ao consumo de energia anual de uma família.

Este mês, graças a Elon Musk, o alvo se voltou para o bitcoin, o que também acontece de tempos em tempos. Depois da Tesla ter comprado US$ 1,5 bilhão em bitcoins em fevereiro, Musk divulgou dia 12 de maio que a empresa não pretende mais aceitar pagamentos com a criptomoeda, preocupados com o consumo de energia fóssil e pegada de carbono da mineração da moeda.

Para quem não entende a ligação, a mecânica da moeda passa por um processo de verificação que usa processamento intenso, com isso, computadores poderosos espalhados pelo mundo consomem muita energia para manter as transações da moeda.

As estimativas apontam para um consumo anual de 129 TWh (Terawatt-hora), maior que o consumo total de muitos países do mundo. A comparação assusta e gera muitas críticas à moeda.

Não confie em tudo que lê

No universo digital, tudo consome energia. O digital é eletrônico e eletrônico precisa de energia elétrica. Quando você assiste um videozinho no TikTok ou responde uma mensagem no WhatsApp, veja só, está gerando pegada de carbono.

Com mais de 200 milhões de assinantes, as estimativas apontam que a Netflix seja responsável por um consumo de mais de 100 TWh. Se somarmos as outras empresas de streaming, este número facilmente passará o bitcoin.

Estima-se que o YouTube, com mais de um bilhão de horas vistas por dia, consuma 600 TWh por ano.

E tudo isso, do bitcoin ao YouTube, são estimativas baseadas em chutes mais imprecisos que a previsão do tempo.

Estima-se que os assinantes da Netflix consumam cerca de duas horas por dia em média. Estima-se também uma resolução média dos vídeos, a largura de banda, o aparelho que está consumindo. Tudo isso é chute acima de chute acima de chute.

Um celular de alguns anos atrás pode consumir dez vezes mais energia que um modelo mais novo. Qual aparelhos que os milhões de assinantes estão usando? A própria fórmula está sob escrutínio: para mensurar o consumo de energia por streaming deveríamos usar o bitrate do vídeo ou a energia baseada em horas de consumo?

Tudo isso sem contar que muitos desses cálculos partem de premissas erradas. Para calcular o consumo da Netflix, alguns partem do principio que 50% do consumo é feito em smartphones e 50% em laptops.

Aqui no Brasil, um dos maiores consumidores do serviço, imagino que o consumo via smartphones seja muito maior. De qualquer forma, em 2018 a Netflix informou que 70% do consumo era feito em aparelhos de TV.

Percebem como esses cálculos todos nem deveriam ser chamados de estimativas?

Estes estudos todos também ignoram a evolução tecnológica.

Em 2010, um estudo mostrou que os data centers consumiam cerca de 194 TWh, na época, cerca de 1% da energia usada no mundo. Oito anos depois, outro estudo mostrou que o uso destes data centers se multiplicou por seis (600% do valor inicial), o consumo de dados por dez (1000%) e a capacidade de armazenamento por 25 (2500%). Mesmo assim, o consumo de energia dos data centers aumentou apenas 6%, dada a evolução dos equipamentos e tecnologias utilizadas.

Os críticos também ignoram a natureza da mineração do bitcoin.

Diferente da mineração de ouro, do consumo de streaming ou outras formas de consumo de energia, quem minera bitcoin só precisa de um acesso à internet, ou seja, pode ser feito em qualquer lugar do mundo em qualquer horário.

Um minerador pode usar energia hidroelétrica de sua região enquanto outro pode minerar apenas durante o dia usando energia solar. Isso quer dizer que o bitcoin poderá usar, um dia, 100% de energia renovável.

Um estudo realizado pela Universidade de Cambridge em 2020 apontou que 39% da mineração de bitcoins já é realizada com energia renovável e 76% dos envolvidos usam energia renovável em parte do seu consumo.

Olhando desta forma, o crescimento do bitcoin pode inclusive estimular o investimento em fontes de energia renovável, um possível efeito colateral que não pode ser descartado.

O ser humano precisa mudar, não o bitcoin

Para citar apenas um exemplo, as roupas coloridas que usamos consomem e poluem bilhões de litros de água todos os dias. São cerca de 80 litros de água por cada quilo de tecido. Isso fora a quantidade de energia evolvida no processo.

Focar em apenas um dos pontos, sejam canudos de plástico, camisetas coloridas ou bitcoin, é desviar o foco do verdadeiro problema. O ser humano do século 21 não é sustentável.

A solução passa não apenas pelo investimento em energia limpa, mas também em investimento em novas tecnologias.

No exemplo das roupas, com algodão modificado geneticamente que já nasce colorido (como o desenvolvido pelo Embrapa) ou novas formas de tingimento e filtragem de água. Empresas testando eletrocoagulação afirmaram diminuir em 90% o consumo de água no processo.

E claro, a verdadeira solução passa também por cultura, educação, legislação e controle, melhorando a maneira como lidamos com o consumo e com o lixo. Justamente por isso, apontar culpados únicos me incomoda tanto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL