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Ricardo Cavallini

Ford é só o começo: mais demissões virão se país não investir em inovação

Gerd Altmann/ Pixabay
Imagem: Gerd Altmann/ Pixabay
Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

18/01/2021 04h00

Se você ficou triste com os 5.000 empregos perdidos na saída da Ford, não leia esse artigo. Nele, concluo que os 5.000 empregos perdidos não serão nada perto do que perderemos se não fizermos os investimentos corretos.

Há três anos, lancei um vídeo sobre "robôs roubando nossos empregos". Em um dos trechos, citei algo que já havia escrito em alguns artigos anteriores.

Abre aspas:

Se investiu centenas de bilhões de dólares no Brasil nas últimas décadas.

Não é modo de falar, foram empréstimos com juros menores, incentivos fiscais e outros subsídios. Tudo em indústrias moribundas que no primeiro sinal de crise, voltam a demitir funcionários.

Na cabeça do político tradicional, perder 5.000 empregos hoje é muito pior do que perder 5 milhões de empregos daqui a dez anos.

Fecha aspas.

O assunto é pertinente agora quando a Ford abandona o país e aparecem os números mostrando que receberam R$ 20 bilhões em incentivos fiscais.

É claro, ainda que eu discorde, eu entendo a lógica desse tipo de subsídio, também não pense que ignoro as milhares de famílias que perderam o emprego. É muito triste quando olhamos para cada indivíduo e sua história.

Porém, a pergunta que eu tenho feito há alguns anos e repito agora é um soco no seu (e no meu) estômago:

E se tivéssemos investido esses R$ 20 bilhões nos empregos do futuro?

Sério, pare de ler esse artigo agora e pense por uns minutos a respeito.

Empréstimos sem juros, incentivos fiscais, subsídios para educação e projetos que colocassem o Brasil na posição de dar um salto, andar várias casas para se preparar para esse futuro que chega cada vez mais rápido.

O ecossistema das startups está amadurecendo e temos quilos de bons exemplos. O QuintoAndar tem mil funcionários. O Nubank, 2.000.

Na última década, o Brasil criou mais de dez unicórnios, empresas que valem mais de US$ 1 bilhão. Cada uma delas vai criar milhares de empregos e muitos impostos. E esse número poderia ser muito maior.

Ainda assim, nem de longe eles são os melhores exemplos. O Brasil é feito por pequenas e médias empresas. São as startups menores que geram os chamados "novos empregos". São pequenas empresas e pequenos empreendedores que movimentam o Brasil. São eles que respondem pela maior parte dos empregos formais do país. E são justamente essas que estão fora do radar dos grandes investidores e do financiamento tradicional.

Fazendo algumas contas de padaria apenas para dar tamanho ao número. Com R$ 20 bilhões poderíamos fazer um investimento de R$ 1 milhão em 20 mil startups. Vinte —mil— startups, pense nisso. Ou R$ 500 mil em 40 mil startups.

Não estou sugerindo botar dinheiro em startups, não é isso, a comparação é apenas para mostrar que, mesmo fazendo igual, sem nenhuma inteligência, poderíamos ter feito muito melhor, simplesmente olhando para frente.

Com a saída da Ford, perdemos 5.000 empregos, o equivalente a 100 empresas com 50 funcionários cada.

Com R$ 20 bilhões, poderíamos dar um subsídio de R$ 5.000 mensais durante quatro anos para mais de 80 mil funcionários investindo em inovação. A sua empresa aceitaria colocar alguém exclusivo para inovação se o governo pagasse por isso?

Com R$ 20 bilhões, poderíamos dar um subsídio de R$ 200 mil para mais de 100 mil empresas. Você que é empreendedor, imagina o quanto poderia crescer e contratar pessoas com esse subsídio? Novamente, não é essa a minha sugestão, é apenas uma comparação de conta de padaria para ver como queimamos dinheiro.

E a Ford é apenas uma das empresas de indústrias que estão em decadência e ao longo das últimas décadas receberam bilhões de ajuda. Empresas que na próxima crise irão demitir funcionários, com ou sem subsídio. Empresas que nos próximos anos vão morrer e vão fechar porque simplesmente não se preparam para o futuro.

Não importa qual conta seja feita, ela será um chute no estômago quando pensamos que hoje estaríamos em outro patamar. Não foi dinheiro que faltou.

Principalmente se fossem investimentos bem pensados, com planejamento, com visão de longo prazo, não priorizando setores, indústrias ou "campeões nacionais".

Sabe quanto o Brasil investiu em inteligência artificial nas últimas décadas? Praticamente zero. Sabe quanto a China investe? Mais de US$ 10 bilhões por ano. Mas isso não inclui outros US$ 30 bilhões que os fundos investiram em startups nos últimos quatro anos. Nem quanto algumas cidades sozinhas estão investindo. Tianjin, por exemplo, vai colocar US$ 16 bilhões nos próximos cinco anos.

E não é exclusividade da China. Muitos países estão investindo vários bilhões todos os anos nas chamadas tecnologias exponenciais.

Não se trata de uma corrida contra esses países, se trata de uma corrida contra o tempo, pois as previsões apontam que inteligência artificial irá causar taxas de desemprego assustadoras, nunca vistas antes na história.

Esta conta vai chegar, e ela será bem maior que os 5.000 empregos perdidos da Ford.