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Carro digital: Tesla tem tudo para ser a Apple da indústria automobilística

Elon Musk, presidente da Tesla, durante apresentação - Getty Images
Elon Musk, presidente da Tesla, durante apresentação Imagem: Getty Images
Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

06/10/2020 04h00

Não é incomum alguém comparar Tesla e Apple, duas empresas inovadoras que destoam de seus concorrentes pelos seus produtos. Ambas com preocupações com design, usabilidade e inovação. Isso sem contar o fato da liderança forte e inovadora de Elon Musk trazer lembranças de Steve Jobs.

A comparação entre as duas talvez faça mais sentido que nunca agora, pois a Tesla poderá se tornar para a indústria automobilística, o que a Apple virou no mercado de smartphones.

Com a ascensão dos carros elétricos, existe uma possibilidade das montadoras tradicionais não apenas perderem suas posições de liderança, como talvez até se tornarem irrelevantes no mercado.

Parece uma previsão catastrófica demais, mas não é bem assim. Gostamos de acreditar que as empresas duram para sempre, mas é bem incomum encontrarmos empresas de 150 anos. A maioria morre na infância. Das que sobrevivem, a maioria absoluta vive menos que um ser humano. E ficam pouco no auge. A permanência média na lista da S&P 500 (maiores empresas norte-americanas listadas na NYSE e Nasdaq) é de apenas 15 anos.

Empresas são muito parecidas com seres humanos. O auge dura pouco, a morte é certa. A diferença é que o limite de um é físico, do outro, mental. Empresas que não adequam sua mentalidade para a nova cultura vão continuar morrendo.

Clayton Christensen, professor de Harvard falecido em janeiro deste ano, escreveu o que eu considero um dos livros de inovação mais relevantes das últimas duas décadas. Em "O Dilema da Inovação", ele explicou por que uma empresa líder, mesmo bem administrada, cai quando uma inovação de ruptura aparece.

Com diversos exemplos, dos menos aos mais óbvios (como os das câmeras fotográficas analógicas e digitais), Christensen mostrou que quando a tecnologia estava madura o suficiente para valer a pena ser investida pelo líder, já é tarde demais para ela manter sua liderança.

Então, ainda que seja midiático prever a morte de alguém, não estamos falando de nada novo por aqui. A grande dúvida é saber se as montadoras serão mais um exemplo para a teoria de Christensen ou não.

É óbvio que as grandes montadoras não estão paradas. A VW é um dos investidores da QuantumScape (fabricante de baterias) e ela e outras grandes estão investindo dezenas de bilhões de dólares no desenvolvimento de carros elétricos. Como a GM Cruise, com alguns bilhões de investimento da GM, Softbank e Honda.

Mas esse caminho não é tão simples. Apesar do glamour, startups também têm alto índice de fracasso. Nikola, uma startup que a GM apostou, fraudou os vídeos onde mostrava seus carros funcionando. Além da queda brutal das ações, não foi um bom sinal para quem apostou na empresa. Estima-se que só na queda de ações, a GM tenha queimado US$ 400 milhões e por isso, neste momento, a empresa está segurando o acordo e deve tentar renegociá-lo.

O ponto é que depender de startups é um risco enorme. Sim, as big techs que hoje são maiores empresas do mundo também usam deste artifício para inovar, mas existe uma enorme diferença, elas compram quem poderia incomodá-las, se tornando um concorrente de peso, não quem as salvará do fracasso.

Mesmo sem entrar em toda a discussão sobre a mudança do modelo de negócio, de venda para serviços, vale analisar um pouco melhor a Tesla e por que acredito que será muito difícil competir com ela nos próximos anos.

Para esta análise, levanto cinco pontos principais:

Tesla Model Y - Divulgação - Divulgação
Tesla Model Y
Imagem: Divulgação

1. A bateria não é apenas uma peça

Carros elétricos não são iguais a carros a combustão. Eles têm muitas diferenças. Enquanto o sistema de transmissão de um carro comum tem cerca de 200 peças móveis, o da Tesla tem apenas 17. Porém, a principal diferença está na bateria.

A bateria não é apenas uma peça do carro. Neste momento, ela é o componente principal. Montadoras não desenvolvem combustível, mas talvez precisem desenvolver baterias.

Isso porque a tecnologia atual das baterias ainda está aquém do nível que precisamos para um mercado maduro de elétricos.

A Tesla tem trabalhado ativamente para isso. A nova geração de baterias prometida pela empresa pode oferecer um ganho de autonomia de 54%, com alterações de design e uso de materiais. A ciência por trás desse desenvolvimento é complexa e distante da inteligência atual da indústria.

2. Volume de produção

O volume de produção de carros da Tesla é muito pequeno, mas ele não é limitado apenas pela capacidade da empresa de produzir carros, mas de produzir baterias.

Gigantes do setor automobilístico não terão capacidade de produzir em larga escala porque o gargalo não está em produzir motores ou coordenar uma enorme cadeia de fornecedores, está na produção de baterias.

Segundo Elon Musk, para que todo o mercado de automóveis se torne elétrico, a produção de baterias terá que ser 100 vezes maior que hoje. Por isso a Tesla está investindo pesado em enormes fábricas em diferentes continentes para produzir suas baterias.

Prensa gigante para moldar alumínio usado para a produção da Tesla - Divulgação/ IDRA Group - Divulgação/ IDRA Group
Prensa gigante para moldar alumínio usado para a produção da Tesla
Imagem: Divulgação/ IDRA Group

3. Tecnologia na produção

Não se trata apenas de desenvolver um carro melhor e uma bateria mais avançada, a produção em si precisa evoluir muito.

O mesmo vale para a tecnologia de produção do carro. Daqueles 54% de ganho de autonomia na bateria, 14% vêm da integração da bateria com o chassi do carro. Essa integração ainda representa 370 menos peças e menos 10% em massa no veículo, trazendo também ganhos para segurança e autonomia.

Com inovações nos materiais, no design e na tecnologia na fábrica, o custo de produção das baterias da Tesla será reduzido em 56%.

A produção do carro também mudou. Usando uma prensa gigante de 410 toneladas para moldar alumínio, a Tesla conseguiu eliminar centenas de robôs e tempo no processo de produção, gerando redução de 30% do tamanho da fábrica e 20% no custo de mão de obra.

A parte do modelo novo da empresa (Model Y) que será produzida usando essa tecnologia ficará 40% mais barata e eliminará 79 peças.

4. O intangível

Quando o iPhone foi lançado, muitos especialistas o compararam com o Nokia 95. O aparelho da Apple tomava uma surra em todas as suas funcionalidades. Câmera com muito menos megapixels, um Bluetooth que não servia para nada, não era 3G, não tinha GPS etc. A usabilidade era a "feature" que não estava descrita na caixa. Você conhece o resto da história e já entendeu meu ponto.

Enquanto a parte mais tecnológica do produto dos concorrentes atuais é ter integração com o CarPlay da Apple ou Android Auto, o Tesla é disparado o mais próximo do que pode ser considerado um carro digital.

Fora isso, cada vez mais as pessoas se preocupam com o propósito das marcas. E neste quesito, quem nasceu elétrico e começou antes levará vantagem sobre os seguidores.

Não para por aí. Por eliminar o cobalto de suas baterias, a Tesla também poderá se manter distante de todos os problemas humanitários relativos a mineração.

A produção tradicional desse tipo de bateria usa solventes, o Tesla vai utilizar um processo novo a seco. Eliminando o uso de solventes, as fábricas da Tesla não apenas ficarão menores em tamanho, mas também mais verdes. Suas fábricas serão dez vezes mais ecológicas e usarão dez vezes menos energia.

A empresa também tem investido forte em reciclagem das baterias, que hoje é terceirizada, mas que passará a ser realizada por ela mesma.

Piloto automático da Tesla - Reprodução/YouTube Tesla - Reprodução/YouTube Tesla
Piloto automático da Tesla
Imagem: Reprodução/YouTube Tesla

5. Os carros serão autônomos

Apesar de estarmos falando de carros elétricos, estamos falando principalmente sobre o futuro. E os carros do futuro não serão apenas elétricos, serão autônomos.

Poucos sabem, mas existem vários níveis de autonomia. Um carro 100% autônomo seria o nível 5. Hoje, a Tesla é apenas nível 2. Basicamente o Tesla funciona melhor em estradas do que cidades e ainda assim de forma limitada. O que ele faz hoje já é maravilhoso e parece ficção científica, mas está longe de ser totalmente autônomo.

Para entender por que a Tesla leva vantagem nesse quesito é preciso entender como funciona a inteligência artificial. O correto, na verdade, seria falar sobre aprendizado de máquina. Para aprender, existem diferentes formas, mas carros autônomos usam uma chamada aprendizado de reforço.

Isso significa que não basta ter os melhores programadores, é preciso uma montanha de dados de forma constante. Para fazer isso, a Waymo (empresa de carros autônomos da Google), tem 32 milhões de quilômetros rodados. Por ter uma frota rodando, a Tesla tem mais de cinco bilhões de quilômetros rodados e cada vez mais carros na rua gerando novos dados.

É a história do ovo e da galinha. Para vender mais carros autônomos, você precisa ter um carro com boa inteligência. Para ter boa inteligência nos seus carros, você precisa ter muitos carros autônomos vendidos. Então, não basta botar um caminhão de dinheiro e contratar os engenheiros mais brilhantes.

Mercado novo, novos players

Ainda que não morram, as grandes poderão deixar de ser protagonistas, movimento similar ao que aconteceu no mercado de celulares.

A Tesla seria a Apple, com hardware e software integrados. As grandes montadoras fabricariam o hardware e usariam um sistema operacional fornecido por outra empresas, como Google ou Amazon. Um exemplo disso está na Volvo, que lançou uma frota elétrica de táxis e, para isso, vai utilizar a solução de carro autônomo da Google.

Caso este seja o caminho, não é uma boa notícia para os líderes atuais como Toyota, VW, Hyundai e GM.

Basta olhar o market share de smartphones. A chinesa Huawei é líder, seguida por Samsung, Apple e na sequência, duas chinesas, Xiaomi e Oppo. A Samsung é a única empresa da era anterior que permaneceu forte. Mas é preciso pontuar que esse é o market share de vendas, se formos olhar o market share de lucros, a Apple abocanha mais de 66% do lucro desta indústria.

Os desafios não são poucos, inclusive para a Tesla, mas em 2020, os ventos apontam a favor de Elon Musk.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.