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Ricardo Cavallini

Lançamento de Mulan no streaming pode matar a sala de cinema

Divulgação
Imagem: Divulgação
Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

05/09/2020 04h00

Para quem acompanha o universo de cinema e filmes, deve estar ansioso para ver o que vai acontecer nas próximas semanas. A Disney lança uma releitura de Mulan, um live action da animação clássica de 1998.

Ainda que diferente, a grande novidade não está no conteúdo em si, mas na distribuição. Graças ao covid-19, a estreia que foi adiada várias vezes, agora poderá ser vista diretamente em sua nova plataforma de streaming, o Disney+.

Quem quiser assistir terá que pagar US$ 29,90, lembrando que esta opção estará disponível apenas para assinantes do serviço, que custa US$ 6,99 por mês. O preço é equivalente a três entradas de cinema nos EUA. Talvez esta tenha sido a lógica da Disney na definição do preço. Para uma família de três pessoas, seria mais barato fazer pipoca em casa e ainda economizar na condução e estacionamento.

Aqui no Brasil, o valor seria equivalente a R$ 158. Como a plataforma ainda não estreou no Brasil, não sabemos se o preço seria diferente por aqui. Nesse valor, mesmo contabilizando os cinemas mais caros usados pela classe A [gargalhada], seria muito mais barato ir ao cinema.

Mas esqueça a conversão, responde nos comentários: você pagaria três entradas do cinema que você costuma frequentar para assistir a Mulan?

Algo que pode pesar na sua balança na hora de decidir: pagando, você poderá assistir quantas vezes quiser. Para algumas pessoas isso pode ter um valor interessante, principalmente no caso de alguns blockbusters que os fãs assistem duas ou até três vezes seguidas.

Se for um sucesso, Mulan pode mudar para sempre a história do cinema, tendo um impacto destrutivo para os exibidores.

É claro que as pessoas vão ao cinema pela experiência, pela deliciosa pipoca, a tela gigante, o som maravilhoso etc. Mas tem uma medida que ninguém nunca testou direito, o quanto desta fórmula de experiência tem relação com o lançamento em si? Com o fato de poder ver o filme sem ter que esperar meses (ou anos) para ver. Ver antes de receber spoilers no Twitter e no Facebook.

Diminuir a janela (o tempo entre a exibição nos diferentes formatos) pode ter um impacto grande. Esta não é uma discussão nova. Há 14 anos, previ em um dos meus livros que as janelas de cinema iriam perder sua exclusividade. Nesta época, as janelas eram de seis meses entre cada passagem. O caminho percorrido por um filme começava nas salas de cinema para depois seguir sempre a mesma trajetória: cinema, aluguel de vídeo, pay per view (na TV por assinatura), TV por assinatura e, finalmente, a TV aberta. Para a grande maioria dos brasileiros nessa época, ver um filme na Globo que havia estreado dois anos era a realidade mais comum.

Minha previsão estava correta. No final de julho, a rede de cinemas AMC fez um acordo com a Universal para baixar essa janela para apenas 17 dias, ou seja, três finais de semana. A janela praticamente acabou.

Porém, Mulan ficará disponível de graça para os assinantes após três meses. De certa forma, esta é uma inversão interessante da janela.

Tem uma informação relevante que não podemos deixar de fora. A partir deste ano, os estúdios poderão abrir suas próprias salas de cinema. Então os estúdios terão poder para negociar a inversão dessa janela. Vender a estreia em suas plataformas, abocanhando 100% do valor, para depois enviar aos cinemas. E se as grandes cadeias de cinema não toparem, ameaçam abrir suas próprias salas.

Neste caso, mesmo você que ama a grande tela faria o quê? Esperaria três meses para ver nos cinemas?

Agora é aguardar o resultado. Se for um sucesso, os estúdios também precisarão levar em conta as possíveis consequências. Matar as salas também pode ser um tiro no pé. De qualquer forma, as salas de cinema passarão a vender exclusivamente experiência. E neste aspecto, precisarão repensar seus serviços bem como ampliar seu modelo de negócio, trabalhando com eSports e outras frentes. Foi a provocação que eu fiz no livro. Já se passaram 14 anos. Transformação digital é assim. gradualmente e depois, de repente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.